Esperança equilibrista

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Gonzaguinha. Foto: Divulgação

 

Dizem por aí que o homem é feito de esperança. Por acreditar é que segue em frente, traça planos, arquiteta ideias, sonha. Pode ser, não sei. Tenho um pé atrás com esse lance de esperançar, mas sei que é por algum tipo de ideia que se mistura com o otimista conceito de ter fé no porvir que me envolvo com algumas coisas e dou sequência a projetos.

Parece que as gentes, de um tempo pra cá, adoeceram na arte de ter fé. O número de publicações de autoajuda, a multiplicação das igrejas, as campanhas sobre o fim do mundo… tudo me cai como tentativa de aprisionar a vontade de sonhos em algum lugar disfarçado de salvação e realização. E também como reflexo da pobreza dos tempos em que vivemos, quando os quereres individuais não se sustentam na força do caráter de cada um. Ao que tudo indica, a esperança se transformou num bom negócio, desde que não seja alimentada em prato particular.

Há aqueles que gritam pelos quatro cantos que o melhor é não esperançar nada para evitar frustrações. Qualquer dia desses quero pensar melhor sobre isso, porque tenho a impressão de que é uma teoria manca, dessas que se repetem, no boca a boca, por anos e que não fazem o menor sentido. Ainda não estou pronta para debater a especificidade do assunto, preciso de um pouco mais de filosofia para formar alguma coisa digna de conversa, mas mesmo assim me arrisco a palpitar: talvez este seja o mais bobo dos ditos que circulam por aí. Viver é querer alguma coisa e querer alguma coisa já é, por si só, ter algum tipo de fé no futuro, que nada mais é que nossa esperança de cada dia.

Paro por aqui com a divagação a respeito do assunto e volto os olhos para os nossos compositores. Eles andam por aí a nos ditar hinos para melhorar as expectativas do viver. MPB também é esperança!

O primeiro de que me lembro é Gonzaguinha, aquele que cantou, entre outras no mesmo tema, Vamos à luta, álbum De volta ao começo, de 1980. A música é uma láurea a uma parcela do povo brasileiro, um voto de confiança na força e fé de nossos irmãos que brigam o bom combate todo dia: “Eu acredito é na rapaziada / Que segue em frente e segura o rojão / Eu ponho fé é na fé da moçada / Que não foge da fera, enfrenta o leão / Eu vou à luta com essa juventude / Que não corre da raia a troco de nada / Eu vou no bloco dessa mocidade / Que não tá na saudade e constrói / A manhã desejada”.

Para os que são religiosos ou acompanham o calendário da igreja católica, está fresquinha na memória a festa do Divino Espírito Santo. É o que se chama também Pentecostes, palavra de origem grega que significa cinquenta dias, nesse caso, cinquenta dias depois da Páscoa, neste ano, 15 de maio. A comemoração trata de agradecer ao Divino as graças recebidas e também de lhe depositar mais fé sobre o futuro. Folclore e espiritualidade se misturam para os homens de boa vontade. E foi esse mote que Ivan Lins e Vitor Martins utilizaram para Bandeira do Divino, composição que fala um pouco de cada coisa: “A bandeira acredita que a semente seja tanta / Que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai / Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita / Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva, ai, ai”.

Tenho a impressão de que Guilherme Arantes está para MPB como Augusto Cury para literatura. Mais não digo. Em 1977 lançou Amanhã, quase dez anos depois ganhou voz de Caetano Veloso, que tem aquela mania de transformar algumas pedras em ouro: “Amanhã será um lindo dia, da mais louca alegria / Que se possa imaginar, amanhã redobrada a força / Pra cima que não cessa, há de vingar”.

Não sei se ainda se usa nos finais de ano, mas tenho lembranças de uns encerramentos de ciclos bordados com o elenco da Globo cantando composição de Nelson Motta em parceria com os irmãos Valle, Marcos e Paulo Sérgio. O jingle começou a rolar em 1971 e de saída pegou mal, porque aquela era a época em que artistas conheciam de perto as desgraças da ditadura militar e quando os autores afirmaram uma letra cheia de alegrias, ficou meio chato ou, como se diz por aí, deu ruim. Os compositores passaram longo tempo a justificar como distração o momento da criação. Acredito. De qualquer forma, ela atravessou os anos difíceis e navegou até os momentos de liberdade: “Hoje é um novo dia / De um novo tempo que começou / Nesses novos dias, as alegrias / Serão de todos, é só querer / Todos os nossos sonhos serão verdade / O futuro já começou”.

Também com novo tempo indicado no título, os hoje já citados Ivan Lins e Vitor Martins emplacaram na década de 1980 canção que dava pistas da abertura política e sublinhava momentos que começavam a aparecer: “No novo tempo, apesar dos perigos / Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta / Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver / Pra que nossa esperança seja mais que a vingança / Seja sempre um caminho que se deixa de herança / No novo tempo, apesar dos castigos”.

Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta deram as mãos para também tratar de hino de esperança. A mística Tente outra vez há 41 anos anda por aí levantando coro em bares desta e outras cidades, para dizer que é de batalhas que se vive a vida: “Não diga que a canção está perdida / Tenha fé em Deus, tenha fé na vida / Tente outra vez / Beba / Pois a água viva ainda está na fonte / Você tem dois pés para cruzar a ponte / Nada acabou”.

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Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves, o Didi. Foto: Divulgação

Era carnaval. Era o Rio de Janeiro. Era 1979. Era a União da Ilha do Governador na avenida. E o autor, o advogado, procurador federal, Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves, enquanto estava a serviço da lei, deixava seus sambas-enredo para que membros da escola os assinassem. Pós-aposentadoria, virou Didi. Ele é o criador da composição que anos depois embalou Simone no show que comemorava seus dez anos de carreira: “O que será o amanhã ? / Como vai ser o meu destino ? / Já desfolhei o mal-me-quer / Primeiro amor de um menino / E vai chegando o amanhecer / Leio a mensagem zodiacal e o realejo diz / Que eu serei feliz sempre feliz”. (Um parênteses neste capítulo da história: Didi é também o autor daquela maravilha que Caetano Veloso cantou em seu álbum Uns, de 1981: “Será que eu serei o dono dessa festa / Um rei / No meio de uma gente tão modesta / Eu vim descendo a serra / Cheio de euforia para desfilar / O mundo inteiro espera / Hoje é dia do riso chorar / Levei o meu samba pra mãe de santo rezar / Contra o mal olhado eu carrego meu patuá”. Pronto, só queria registrar isso.)

Um número sem fim de músicas falam sobre a esperança e o amor, entrelaçando plano e desejo, vontade e expectativa, promessa e espera, determinação e confiança. São tantas, que precisaríamos de vários números para dar conta. Uma representante da memória para dar voz a todos os nossos letristas que esperançam por um amor, mas sem tom de martírio, porque às vezes acreditar é o melhor negócio: “Ela vem chegando / E feliz vou esperando / A espera é difícil / Mas eu espero sonhando” – Jorge Ben Jor, Zazueira, 1968.

Entre esperanças que dançam de sombrinha em cordas bambas e aquelas que acendem certeiras que a tristeza também as busca, há um Brasil inteirinho cantado nesse traço que parece mesmo ser nosso principal guia. A vida segue e isso, só isso, já é confirmação de acreditar…

Acompanhada da esperança de encontrá-lo mês que vem, despeço-me.

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