Liberdade, liberdade abre as asas sobre nós

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A liberdade é uma linha no horizonte. Sabemos que ela não existe de modo íntegro, que jamais existirá, mas, ainda assim, todo nosso caminho deve ser em sua direção. Não há objetivo mais sublime de conquista, porque ela se mistura à alforria de qualquer pendenga.
Meus amigos que viveram tempos custosos de proibições, patrulhas e censuras me contam das dificuldades de ter que tratar de tudo e de nada ao pé do ouvido; de ter que esconder ideias e comentários; de não poder ter um círculo de discussão ou uma simples vontade de fundar clube, partido, patota diferente da vigente; de não poder assumir o que de particular existia em cada um. A falta da liberdade filosófica, aquela que sustenta o desenvolvimento e permite que o humano viva as diversas nuances de ser, é assustadora.

Os meus amigos que viveram aquelas páginas infelizes da história dobraram a esquina do século com algumas ilusões nos bolsos, entre elas, a conquista da liberdade. Vestidos com toda a coragem dos jovens, lutaram para que eu possa, por exemplo, décadas depois, pensar, batucar e publicar estas linhas. Obrigada!

Chegamos em 2016. Neste tempo as informações voam de um lado pro outro, há jornais contra, blogs a favor, gente que se diz neutra, programas de TV que ironizam ou ignoram tudo, colunistas que expressam abertamente o que pensam, jornalistas que mandam subliminares para convencer e toda sorte de profissionais ou não que palpitam, aconselham e influenciam. As notícias correm sem freio. Não há censura federal, apenas a editorial que acaba comprovando o tamanho do que conquistamos: cada veículo pode ter a posição que melhor combine com seus anseios. Ave!

Pois bem, dito assim, tudo isso parece ser uma imensa sociedade livre e civilizada. Só que não. Vivemos no tique-taque constante de uma bomba relógio que explode e se arma automaticamente para o próximo evento que será maior, com outros estragos e que se estenderá recrutando soldados inocentes e armados para mais detonações.

O caso no Brasil é tão inacreditável porque acontece sem a distância do que é a nação. De repente pulamos de nossas vidinhas provincianas com interesses muito particulares para nos reconhecermos como brasileiros. Num estalar de dedos perdemos a timidez caipira de deixar os grandes temas nacionais aos especialistas e tratamos de opinar sobre tudo sem freios. É uma conquista bonita, mas, como toda liberdade, precisa da sua rima mais perfeita: responsabilidade. E de outra, sobriedade.

José de Abreu foi atacado verbalmente num restaurante, respondeu com cuspe. O casal que o desrespeitou postou na rede o resultado, o ator escreveu linhas idiotas em sua defesa. A confusão não teve a visita da turma do deixa-disso porque ninguém mais aguenta deixar nada pra lá, todo mundo quer sangue derramando, assim, no gerúndio.

Num outro dia Maristela Requião caminhava no parque quando foi verbalmente agredida por um homem que achou que podia ultrapassar os traços mínimos de educação e bom senso para xingá-la.

Chico Buarque não conseguiu sair de um restaurante e ir pra casa tranquilo. Depois de um jantar entre amigos, teve que lidar com um nervosinho de plantão que não conhece muito bem os caminhos da democracia e menos ainda do convívio social.
Foi negado ao ex-ministro Mantega seu direito privado de acompanhar, em sossego e na concentração particular que a ocasião pedia, a esposa ao hospital para tratamento de um câncer.

E para sair do campo dos chiques e famosos, dou aqui meu testemunho. Eu, euzinha, tive amizades desfeitas porque escrevo na revista de Fábio Campana e num outro dia fui achincalhada porque estava de vestido vermelho. Pior, me envolvi em discussões que caminhavam sérias e civilizadas, e quando o outro lado ficou sem argumento, utilizou a muleta do pra que tanto ódio?. Peço aqui, antes de continuar com o texto, um instante, maestro. Usar a palavra ódio, que está super na moda, para rebater argumentos ditos assim na calmaria de uma conversa, é um ataque à inteligência. E isso me provoca e aí sim fico com ódio. Pronto, continuando…

… Esse tipo de comportamento, que se multiplica e sai dos meios virtuais para tomar as ruas num grito torto de liberdade de expressão, não é nada mais que nossa total e irrestrita falta de educação e ignorância sobre o regime em que vivemos. Não é por conta de meia dúzia de desaforos, cuspes, brigas, tapas e socos que o processo muda. Não é porque a paciência está curta e em algum momento passamos a confundir os ponteiros e nos esquecemos das conquistas da civilização, que o panorama ficará diferente. No processo democrático, resolvemos insatisfação nas urnas, nas escolhas e mais profundamente nas escolas, não tem outro jeito.

E veja só que ironia, enquanto o povo se arrebenta em catarses impolidas e fora de contexto, ao mesmo tempo abarrota os espaços políticos com gente da pior estirpe e não se dedica a acompanhar o trabalho de seu parlamentar, aliás, nem sabe direito qual é o trabalho de seu eleito.

A situação vai mal e com tendência de piora. A pensar que se Dilma for impedida de continuar com seu mandato até o fim, ainda que comprovadamente dentro da lei, é possível que tudo fique muito mais difícil. O país se dividirá ainda mais e os gritos dos dois lados a que fomos reduzidos terão que ser mais fortes, assim como suas ações para comprovar teorias. Temo pelos dias que se anunciam e este medo não tem relação com a economia flácida em que nos afundamos, ele nasce onde o humano construiu sua maneira de enfrentar a vida, no convívio social. O que será de nós se a moda de agarrar chave de rodas e bater em adversários de ideias pegar? Trevas sociais, impossibilidade de discussões, grupos isolados e intolerantes sem possibilidades de troca.

Sérgio Buarque de Holanda, em seu Raízes do Brasil, de 1936, tratou sobre o brasileiro cordial, que, na obra e na etimologia da palavra, não tem nada de afável. A palavra cortês vem do latim, cordiale, relativo ao coração, o que significa que a emoção se opõe à razão. É este o nosso tempo. A maioria do público comum, que assiste ao cenário político de interesses e se deixa inflamar sem audição e reconhecimento do outro lado, se transforma em emoção pura: amor e ódio. O comportamento passional que aprendemos, sabe-se lá por que, como boa característica, não combina com nenhum tipo de discussão, nem com liberdade. Isso é coisa séria, seriíssima.

Tenho a impressão de que quem sai por aí a fazer espetáculos em público, a reduzir tudo a uma triste sequência de vulgaridades, a tratar dos temas com paixão nos olhos, não sabe muito bem sobre aquelas regras fundamentais de convívio de onde começa e onde termina a liberdade de cada um. Parece que nossa indignação estava trancada e amordaçada e de repente lhe soltaram os cadeados e, sem saber como voar, debate-se dentro da gaiola, quebra asas, bico, não sabe o que fazer.

Para voar é preciso muito mais que liberdade e o primeiro movimento é desviar dessa coisa terrível que está no ar…

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