O homem que não se dobra

Não consigo descolar da ideia de que José Dirceu ficará preso por tanto tempo que sua pena é, na prática, a de prisão perpétua. Ele tem 70 anos. Foi condenado a mais de 23 de cadeia. Teve os seus bens confiscados, inclusive a casa de sua mãe. Mesmo que cumpra apenas uma parte da pena, sairá do presídio no fim da vida.

Dirceu poderia ter negociado sua delação para reduzir sua pena, assegurar seus bens e tocar a vida, como fizeram quase todos os políticos do PT e empresários que foram presos. Nem sofreria julgamento moral pior do que já enfrenta. Por que, então, José Dirceu não faz delação premiada?

A resposta que me ocorre é a de quem militou e conhece os códigos internos. José Dirceu é um apparatchik. Homem de partido. Fiel, disciplinado, capaz de se manter em silêncio diante de pressões inimagináveis. Não entregou ninguém. Segue convicto de que os crimes que lhe foram imputados são ações legitimadas pela guerra para manter o PT no poder. E manter o PT no poder significa realizar a política do interesse do povo contra o grande capital.

Sabemos que essa perspectiva jamais vingou. Na prática, o PT negociou com o grande capital, deu-lhe vantagens e em troca recebeu propinas que corrompeu a maioria no Congresso, além de comprar parte da mídia mais poderosa. O drama é que mais uma vez a história se repetiu. Ao corromper, o PT corrompeu-se.

Mas voltemos a Dirceu. Ao homem e sua circunstância. Ao contrário dos demais que caíram na Operação Lava Jato, ele se mantém fiel a princípios de lealdade com a causa. Perdeu o cargo federal, nada falou. Foi condenado, preso, cumpriu pena, silenciou. Dirceu sabe muito. Se falasse, poderia contar aquilo que poucos sabem. Manteve-se em silêncio.

Dirceu paga muito caro por isso. Tem 70 anos, sabe agora que entregou seu futuro político a pessoas muito menos merecedoras do que ele. A prisão é a sua perspectiva de vida. Seu sonho, confessado aos mais próximos, seria assistir ao crescimento da filha pequena, sua paixão. Apesar de saber o caminho para amenizar sua pena, não prevaricou quando foi condenado no Mensalão por Joaquim Barbosa, um ministro do STF inflexível. Por que esperou a sentença do juiz Sérgio Moro, que é da mesma catadura?

Dirceu poderia estar em Cuba ou outro país bolivariano, com honras de herói. Que se terá passado em sua cabeça? Bem, há aqueles que não se dobram nunca, mesmo quando são submetidos aos piores sofrimentos. Dirceu é um deles.

Não concordo com nenhuma das ideias ou com a prática de José Dirceu, baseada na máxima dos jesuítas de que os fins justificam os meios. Detesto pensar o país submetido ao plano que ele e o PT, comandado por Lula, apetrechado pelos sindicalistas e pela igreja de confissão na Teologia da Libertação, imaginaram para o Brasil. Mas tenho intrigante admiração pelo homem José Dirceu que se mantém com firmeza impressionante para preservar não só os segredos que tem, mas também para preservar a si mesmo, o homem que se construiu com firmes convicções e delas retira a força para se manter em silêncio, mesmo que isso custe o que lhe resta de vida. Mesmo que isso lhe custe a liberdade.

Um comentário

  • MÁRIO KOITI KUME

    Não podemos confundir jamais convicção de qualquer natureza com a realidade dos fatos.
    No caso do José Dirceu, infelizmente escolheu o caminho das trevas como um Samurai nos
    tempos passados do Japão. Para todos nós pensantes, acredito que é uma escolha que pode
    soar honrosa para os Petistas, porem pimenta no olhos dos outros não doe e para um ser humano escolher a prisão perpétua em vez de poder voltar ao cotidiano embora condena-
    do, beira uma burrice !!!

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