O vendedor de trovas

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Fala-se costumeiramente que poesia é a literatura que menos vende. Isso é axiomático, tal o relato das editoras que mostram o fiasco mesmo de gênios como Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto ou de figuras da província e com expressão nacional como Helena Kolody, Paulo Leminski ou ainda Emílio de Menezes, da transição parnasiana para o simbolismo.

Pois nos anos sessenta, Liberalino Estevam, que assinava quadrinhas na Gazeta do Povo em que os personagens Castilho e Marambaia, socraticamente, versejavam sobre o cotidiano em versos acadêmica e rigorosamente rimados e com um tom evangelizador, decidiu lançar seu primeiro livro de sonetos e que já vinha acompanhado da segunda edição, a primeira com a filha do Betinho Amaral nos seus quinze anos posando na capa.

Liberalino era um adventício que cultuava as cumplicidades da sociedade com a ordem e o poder e que por isso chegou a montar uma distribuidora de revistas para clientes especiais aos quais homenageava com versos as esposas, filhas e netas nos respectivos aniversários.
Como era um vendedor, sabia conviver com a clientela, embora seus melhores rasgos de crítica fossem voltados a inimigos ocasionais que o tivessem tratado mal, como aquele que mimoseou com algo que não publicaria hoje por ser politicamente incorreto. Lembro do primeiro verso, alexandrino, é claro: “Suporto e finjo que sequer escuto// os impropérios desse vil crioulo,// cuja epiderme se lhe deu por luto// e a língua torpe por fugaz consolo…//” E seguia dizendo que preferia enfrentar o próprio capeta do que tal fulano. Algo forte com o tom clássico dos ironistas, quase um decalque de Gregório de Mattos Guerra, o boca do inferno.

Pode ter sido extremamente injusto com o caricaturado como certamente foi com o nosso Norton Macedo, uma das derradeiras expressões parlamentares da terra: “De norte a sul do país// conheço Nortons à beça// são quase sempre gentis// rara exceção se confessa// Mas essa besta infeliz// que às vezes vem à Travessa// pelas asneiras que diz// nem conhecer interessa//”. A Travessa era o ponto original da Boca Maldita, a Oliveira Belo, onde o poeta tinha a sede de sua distribuidora de revistas que custavam os tubos para assinantes que assim o cultivavam. Ali um dos arquitetos do tempo de Ivo Arzua montou o que chamava de uma pérgola com estrutura de cimento armado, alvo de bronca por parte dos bombeiros que não saberiam como agir se seus veículos tivessem que atuar naquela área.

O povo apelidou a inovação de “churrasqueira” e de “quebra-chifre”, mas Liberalino a usou como cenário de um comício poético em que, à moda provençal, ele aparecia puxando um burro em cujo tronco havia um cartaz proclamando detestar poesia. Explicação óbvia: não a suportava porque era essencialmente aquilo, um burro. Outra ocasião saiu com uma biga romana e vestido a caráter para declamar suas populiras. Cabelos em desalinho e muita caspa, às vezes sem a dentadura postiça, ocultava no bolso do paletó um chiuaua, minúsculo, que não parava de latir e ameaçar, um espetáculo ambulante.

A forma de vender poesias é que não estava em código nenhum de marketing: aproximava-se de um empresário como Ercílio Slaviero, para cuja família já havia feito inúmeros sonetos e que assinava suas revistas e lembrava que estávamos próximos do Natal e, como havia várias fábricas e lojas da família, abria um “livro-ouro” e mostrava que a expectativa com relação a ele, cliente e amigo especial, era da compra de cem exemplares. Ercílio negociava a sessenta e assim se fechava o pacto. Com isso, num mesmo instante, vendeu 10 mil exemplares e a segunda edição já estava pronta com outra capa de donzela da altíssima sociedade, provavelmente matéria paga.

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