Os olhos do crime

O homem retrata-se inteiramente na alma; para saber o que é e o que deve fazer, deve olhar-se na inteligência, nessa parte da alma na qual fulge um raio da sabedoria divina.
(Platão)

Indagações como essas são companheiras de muitos anos: é possível detectar um delinquente antes da prática do crime? Traria ele estigmas denunciadores de sua condição? Respostas certeiras ainda não são confiáveis. Em parte tenho a convicção de que sim, ao observar percucientemente a face, os olhos e o comportamento dos autores dos horrendos crimes que acompanhei ao longo de minha vida. Mas há algo que, sem dúvida, sempre me dá a convicção da autoria: o olhar.

Comecei a notar essa particularidade quando me assustei com o diabólico olhar de Charles Manson, o tristemente célebre autor da chacina que vitimou a atriz Sharon Tate, mulher do diretor de cinema Roman Polanski, grávida de oito meses, com seus amigos no ano de 1969, na Califórnia. No entanto, só me aprofundei sobre o assunto após assistir a O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2009). O roteiro mostra que o jornalista que investiga o crime segue sua intuição ao observar uma fotografia e desconfiar do olhar de um homem em direção à vítima. Obviamente que se tratava de cobiça sexual reprimida suficiente para desencadear a natureza assassina do delinquente. Ele não só se satisfez com o estupro, mas também com o massacre físico da vítima. Essa instigante característica do olhar fascinou-me pelo fato de que minha intuição de identificação do criminoso nato passa necessariamente pela análise do seu olhar.

Obviamente os precipitados irão ironizar com a velha máxima da superação dessa tese “preconceituosa” e “arcaica” do exame físico do delinquente. Mas há duas maneiras de tratar o assunto: a primeira é a análise científica que exclui o determinismo biológico do criminoso. Seus partidários, geralmente os politicamente corretos, não admitem a identificação do criminoso pela análise das feições, das características físicas. A outra é a simples intuição humana e os tenebrosos arrepios e calafrios que alguns tipos causam quando os vemos em nossa frente. A coisa da primeira impressão, o instinto de autopreservação diante do perigo. Sinceramente? Gosto de confiar nos meus instintos.

Alguns crimes bárbaros chamam a atenção pela forma cruel e ritualística, grau de intimidade entre criminoso e vítima, método de execução etc., mas em todos eles nos deparamos com descrições físicas das mais diversas nas suas autorias. Desde tipos bonitos a feios e grotescos. Mas que fique claro que beleza, embora exceção, nem de longe exclui a delinquência, bastando ver os exemplos de Suzane Hichthofen, Lúcio Flávio, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Theodore Bundy e outros. Todos indubitavelmente com uma convergência elementar: o olhar pervertido com a centelha do mal absoluto. O que o americano costuma conceituar de evil e Jack O Estripador assinou como from hell. O fato é que intimamente penso que há sim algumas características físicas complexas convergentes para a identificação do criminoso nato, embora nenhuma tão evidente como o olhar.

lombroso

Cesare Lombroso e seus estudos. Foto: Divulgação

Essas indagações, como bem frisei no início, se hoje soam absurdas nos meios mais acadêmicos, houve um tempo em que se pretendeu dar cientificamente uma resposta afirmativa à questão. Assim é que em 1876 surge a primeira edição de O Homem Delinquente, a obra que consagrou Cesare Lombroso (1835-1909), médico, professor de psiquiatria e de medicina forense da Universidade de Pavia. O livro teve grandes repercussões pela ousadia da maneira como o autor tratou o assunto. Na condição de médico, ele jamais adentrou no campo jurídico, mas dadas as implicações dos seus estudos, necessariamente os doutores ligados à área jurídica se viram forçados a lançarem-se no caminho escolhido por Lombroso. Uns contra, outros a favor, mas todos completamente motivados pela extraordinária audácia de sua tese. Ele sempre será lembrado pela sustentação científica de que os criminosos natos trariam em si próprios, e em sua organização física e psíquica, os denunciadores estigmas da sua condição natural de criminosos, inclusive o olhar. Obviamente que Lombroso foi alvo de tão duras críticas, muitas delas acertadas, que em muitas ocasiões voltou atrás nas suas conclusões, mas permaneceu vaidoso como muitos que conheço na prática do direito penal cotidiano, na vazia tentativa de formular sua fracassada equação biológica.

Pois bem! Superadas as elucubrações de Lombroso, vale dizer que a coisa é contemporânea e existem sim estudos do FBI para a composição física do homem delinquente. E esses estudos começaram com a análise do tipo físico de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. A ciência criminal dos estudiosos do Federal Bureau atinge aquele indivíduo cujo potencial criminoso é nato, da sua exclusiva constituição biológica. A máxima é a lombrosiana de que ele poderá passar uma vida sem praticar um crime sequer, mas potencialmente estará preparado para delinquir a qualquer momento, desde que as condições sociais assim o permitam. O curioso é que essa análise passa cada vez mais pelos olhos, começando pelo formato da sobrancelha. Eles dizem que as angulares demonstram indivíduos com forte distanciamento social e prontos para se envolverem em conflitos. O mais recente conceitua que 94% dos assassinos possuem pálpebras superiores duplas, em dobra, e 77% as pálpebras inferiores retas. No entanto, eis que surge uma característica fundamental sobre o olhar demonstrada pelos cientistas do FBI: 70% dos assassinos olham para baixo, colocando o interlocutor a distância. Assim, com esses dados modernos, chego à conclusão de que minhas observações sobre o olhar criminoso ganha corpo científico a cada dia, em detrimento das características físicas secundárias do próprio Bureau.

“Os olhos olham, e por verem tão pouco, procuram o que deve estar faltando e não encontram”, dizia Saramago. Que fique claro que essas são apenas observações pessoais sem a menor pretensão científica, mas um alerta de que, se queremos a proteção da fúria assassina dos predadores que habitam nossos arredores, devemos permanecer vigilantes com eles e seus olhos comprometidos com a danação eterna.

ritratti

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