Por que o governo se mete em nossa vida?

Não gosto de foiegras. A textura, o gosto, a cor, nada me agrada. Também não me apetece sua produção. Quando penso em fígados de patos e gansos sendo expandidos em até doze vezes dos seus tamanhos normais num processo de alimentação forçada e sofrida, o lance me causa enjoo. Condeno quem come a iguaria? Não. Eu tenho cá umas particularidades alimentares que também se dão à custa de produção exclusiva para o sustento da população. Podem até não ser tão atordoantes quanto pensar nos patinhos e gansos, mas uma olhada num documentário qualquer sobre criadouros e matadouros esclarece que somos os grandes predadores da natureza. Uma simples pescaria é demonstração de barbárie.

Pois bem, em junho de 2015 a prefeitura de São Paulo tratou de proibir a produção e o comércio de foiegras. Rolou uma confusão a respeito, a Associação Nacional de Restaurantes entrou com ação e pediu a revogação da decisão, foi atendida e a prefeitura prometeu recorrer. Outras cidades entraram na onda e também trataram de promover leis para proibir produção e comércio.

Antes de pular para o próximo assunto, me vem à cabeça o número de pessoas que comem foiegras e como uma lei dessas afeta, protege e rege a população. Também penso no número de ativistas que marcham pelos direitos dos animais e a massa de simpatizantes que levam consigo e como todos podem se transformar em títulos eleitorais nos momentos apropriados.

Dentro dos absurdos legal-gastronômicos está uma invencionice de um vereador soteropolitano que pleiteou para que todos os restaurantes e bares fossem obrigados a vender refrigerantes em garrafas de 1 litro e com preço único. O gênio propôs isso a justificar que famílias não comem fora por conta das variações de preço do refresco. Imagine um idiota desses dando ordens em seu restaurante, dizendo por quanto você tem que vender seu produto e qual tem que ser. É uma afronta ao direito. Um insulto à inteligência.

E a Câmara Municipal de Manaus que quis proibir as pessoas, que não fossem profissionais de saúde, a usar roupa branca? Não há exagero em comparar isso com o Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, que impôs modelo de corte de cabelo no país. Que também é bem parecido com o que propôs José Rodrigues, prefeito da cidade de Aparecida, em São Paulo: no período da Quaresma, mulheres não poderiam usar minissaia e homens, bermudas.

Os pequenos deuses que os políticos carregam pra lá e pra cá dentro de suas cacholas ocas de informações e estudos sobre administração pública não cansam de nos surpreender e tentar tomar decisões por nós. É revoltante que alguém queira impor regras, provavelmente pensadas em madrugadas insones por problemas intestinais, à vida particular.

O Estado não deve decidir se uma mulher pode ou não fazer aborto, por exemplo. Há uma inversão de valores na causa. É preciso promover saúde, informação, meios contraceptivos e atendimento, nunca decisões. Como também não faz parte da vertente das leis permitir ou não casamento gay, cada um que firme empresa com quem bem entender e pronto. A igreja pode fazer campanhas dentro de suas doutrinas, as famílias educar de acordo com seus pensamentos, mas o governo não tem nada com isso, a não ser cumprir com suas obrigações de promoção de defesa dos direitos essenciais.

Em assunto parecido, aquele que saiu da vida pública para entrar para o folclore bizarro das leis, o falecido prefeito de Bocaiúva do Sul, Elcio Berti, proibiu a venda de anticoncepcionais e camisinhas no município ao mesmo tempo em que distribuía gratuitamente medicamentos contra impotência sexual. Ninguém poderia mais fazer do sexo diversão, só procriação. O cara quis entrar na casa de todo mundo e decidir que a partir de tal data todos teriam filhos e pronto. Sua motivação era o combate à derrubada nos recursos federais recebidos pela cidade que a queda populacional causava. Também assinou decreto que proibia a “concessão de moradia e a permanência fixa de qualquer elemento ligado a esta classe (homossexuais), que não trará qualquer natureza de benefícios para este município”. Impressionante!

Os fabricantes de leis se metem em nossa vida privada de maneira indecente. A incompetência como os políticos levam seus mandatos resultam em coisas estapafúrdias, que sublinham o nível de grotesco de cada um e, pior, revelam nossa inabilidade eleitoral. Enquanto vereadores, deputados e senadores se esbaldam em causas para chamar atenção de grupos específicos de eleitores, morremos à míngua, com essas pessoas a se meterem em nossas vidas e nossas escolhas. Educar e informar para que cada um possa fazer opções próprias, ninguém quer, né?!

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