A liberdade é ocidental

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Há quem diga que a qualidade das religiões deve ser avaliada pela forma como trata os seus críticos. Fico a pensar como Gore Vidal seria tratado pelos islâmicos se escrevesse sobre o Corão o que escreveu sobre a Bíblia. Teria sido executado por um fanático qualquer e seus restos atirados aos cães.

Em Ao vivo do Calvário, Gore Vidal, assumido bissexual, escritor, roteirista, uma das grandes inteligências do século passado, zomba da Santíssima Trindade e da promessa “jamais cumprida” em mais de dois mil anos de que Jesus voltaria à Terra para salvar os homens. Mas isso não o faz um condenado à morte como o escritor Salman Rushdie, que mexeu com os brios islâmicos e vive clandestino, protegido por uma guarda numerosa, para escapar da sentença dos aiatolás.

Bem, os fundamentalistas cristãos, que às vezes aparecem, costumam ser bem menos violentos. E convenhamos, a arte de Vidal é muito mais refinada que a do autor de Versos Satânicos.

Vidal tem humor, maneja o idioma com a habilidade de poucos contemporâneos e raramente inclui um clichê em seus textos sem ridicularizá-lo. “O cristianismo é uma religião estúpida demais”, decreta.

A narrativa de Gore Vidal não se preocupa com a linearidade. A cronologia é o que menos lhe interessa. Em algumas passagens, São Timóteo pensa como um velho careca apaixonado por Atalanta, em outras, como um garoto insaciável por sexo, envolvido com ninfomaníacas que se tornarão santas em Éfeso. Ou como um rapaz bem dotado fisicamente e amante de São Paulo.

Pois São Paulo é caracterizado por Gore Vidal como um homossexual de higiene precária, que sapateia durante as suas pregações. Problemas dentários também tem Jesus, a quem São Paulo descreve como um obeso flatulento, e que, na narrativa ressurge como um magro vigarista obcecado em fugir da crucificação.

Não são apenas os santos que sofrem nas mãos de Vidal. Ele ridiculariza tipos contemporâneos, como a inoportuna Shirley Mac Laine, que faz viagens ao passado remoto e está condenada a uma dieta à base de tofu e a se vestir com malhas de ginástica verdes.
Vidal também se vinga de Anais Nin, que revelou intimidades dos dois em seus diários: transforma a escritora francesa numa santa de dentes horríveis.

A ideia básica do livro, escrito em 1990, é a seguinte: a tecnologia para viajar ao passado já está sob domínio das grandes corporações como a General Eletric e das redes de TV americanas, assim um “pirata” temporal e religioso está apagando as “fitas” com as histórias dos evangelhos. São Timóteo, bispo da Macedônia e parceiro sexual de São Paulo na juventude, recebe a missão de escrever seu próprio evangelho para que a verdade sobre os primeiros tempos de cristianismo não se perca. Uma TV conseguiu os direitos para transmitir ao vivo a crucificação de Jesus, direto do monte Calvário.

Pois, pois, se você acredita que Jesus foi o filho de Deus, que era filho de uma virgem e no mistério da Santíssima Trindade, ou é daquelas pessoas que, mesmo sem religião, costuma dizer que respeita todas as religiões, evite a leitura de Ao Vivo do Calvário. Não é uma obra prima, mas muito divertida para quem está livre de preconceitos religiosos.

Voltemos ao princípio. Só há liberdade no Ocidente. Qualquer povo regido pelos princípios do islamismo está fadado a obedecer cegamente um conjunto de leis e regras. Alguém consegue imaginar um espírito livre como o de Gore Vidal no mundo islâmico, mesmo nos países onde as regras do Corão não são aplicadas em toda a sua crueldade?

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