À margem da política

alexandre-e-aristoteles

Ensina a sabedoria popular que a política é a arte de engolir sapos. Não comungo desse ponto de vista. Penso, antes, que são certos políticos que obrigam a maioria dos seus eleitores à deglutição dos indigestos batráquios.

Um fato é inegável: a política, no mundo inteiro, vive uma época de crise sem precedentes. Jamais o seu descrédito foi tão notório. Nunca o seu desprestígio foi tão claro. Parecem cada vez mais oportunas as colocações clássicas de alguns pensadores ilustres. Clássicas e cáusticas. Como a de D’Aurevilly: “Nem os que amam a verdade, nem os que adoram a beleza podem ocupar-se da política, pois esta, por sua vez, não se ocupa nem de uma nem de outra”. Ou a de D’Alambert: “A guerra é a arte de destruir os homens, da mesma forma que a política é a arte de enganá-los”.

A rigor, porém, não é a política que está em crise. Esta afeta, isso sim, o homo politicus. A classe política. É cada vez mais generalizada a impressão de que os políticos, na sua maioria, são maus – demagogos, incompetentes, corruptos, venais, carreiristas, fisiológicos, oportunistas, desonestos, mentirosos. E em política, já o dizia Clemenceau, “o que parece, é”.

Uma das razões determinantes da péssima imagem que a classe política oferece, é esta: trata-se de uma profissão – talvez a mais importante de todas – que não conta com autênticos profissionais. Não há escolas nem professores de política. Os seus executantes são obrigados a improvisar. Uns, sentem-se realmente chamados por uma vocação irresistível. Outros, são movidos apenas pela ambição, pelo apetite pantagruélico de uma sinecura, de um alto salário ou da satisfação da vaidade, quando não da defesa de seus interesses pessoais. Uns, pretendem realmente servir a comunidade. Outros, desejam apenas servir-se. (E não há dúvida de que estes últimos parecem ser em maior número.)
Uma coisa é certa: a “ciência régia” de Platão é uma atividade séria. Muito séria. Não foi o próprio Aristóteles que definiu o homem como zoonpolitikon, animal político?
Mas o que vem a ser verdadeiramente a política? Qual a sua natureza ontológica? Qual a sua função teleológica?

Para responder a essas perguntas capitais, é necessário remontar a Platão. Seja o Filósofo da Academia o ponto inicial do nosso périplo conceitual. Para ele, a política é a ciência e a arte de governar. Entendendo-se por governo a organização, administração e direção do aparelho do Estado.

Por outro prisma ótico, é o conjunto dos princípios, opiniões, procedimentos, estratégias e ações do homem político, soidisant profissional. Podemos vislumbrar nela, também, um processo de luta pela conquista, manutenção e expansão do Poder, e o modo operacional através do qual esse poder se exerce, na sua sintaxe orgânica. Como pode ser ainda toda a espécie de reflexão filosófica sobre a origem, natureza, estrutura e finalidade desse mesmo poder.

É cada vez mais generalizada a impressão de que os políticos, na sua maioria, são maus. E em política, já o dizia Clemenceau, “o que parece, é”

Sendo fundamentalmente uma práxis, até certo ponto empírica, através da qual se busca realizar o bem da polis, da comunidade, um bem que interessa a todos sem exceção, será fácil compreender as razões da imagem negativa da política. Afinal, os interesses/necessidades/aspirações/desejos dos diversos integrantes do corpo social são múltiplos, diversificados e conflitantes. Dificilmente será possível atender a todos, ao mesmo tempo. Será mais fácil atender a poucos e desagradar a muitos, simultaneamente.

Um aspecto fundamental da política é destacado por Proudhon, quando este a proclama a ciência da liberdade. Com efeito, a liberdade é a espinha dorsal – se não a alma – da atividade política. Dessa colocação basilar deriva a conhecida tese de Karl Jaspers: “Só com liberdade política o homem se torna autenticamente homem, livre para ordenar os negócios de uma nação e para afirmá-la em face do exterior”.

Ontologicamente considerada, a política é uma tensão nuclear entre dois polos simétricos: a guerra e a paz, a violência possível e a coexistência necessária. Seu objetivo fundamental deverá ser a erradicação da violência – e o risco da violência – do seio do organismo social. De que modo? Através do diálogo, do debate, da pactuação, da busca, na selva selvaggia dos interesses individuais e grupais, de zonas de sintonia, de pontos de convergência. De denominadores comuns. Se possível, de amplo consenso.

Mao TseTung concebia a política como guerra sem derramamento de sangue. Concepção que Churchill complementou: “A política é tão excitante como a guerra, e não menos perigosa. Se na guerra a gente pode morrer uma vez, na vida política podemos morrer várias”. E o grande estadista britânico, arquétipo do Político com maiúscula, falava com conhecimento de causa. A sua própria carreira pessoal foi a exemplificação da tese. Não é verdade que ele morreu e ressuscitou – politicamente falando – mais de uma vez?

Qual a melhor política? “É ser honesto” – respondeu, um dia, Voltaire. Mas Kant fez uma correção sutil: “A honestidade é melhor do que a política”. Se a política é destino, como dizia Napoleão, não será difícil concluir que o nosso destino é a política. Afinal, todos navegamos irremediavelmente no seu mar largo. Enfrentando tempestades e calmarias. Ouvindo constantemente o canto das sereias. Aquele mesmo canto hipnótico que tentou seduzir Ulysses, o herói troiano, a caminho da Ítaca natal…

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *