A rotina de Wagner Mesquita

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A rotina de um secretário de Segurança Pública passa pelo enfrentamento de dias de tensão, discussões acaloradas e, principalmente, gestão e trânsito entre as diversas instituições vinculadas, além de um componente garantido: não se sabe qual será a surpresa que o dia reserva nem qual a hora em que o trabalho vai terminar.

Pouco mais de um ano após assumir o cargo de secretário da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná, o delegado federal Wagner Mesquita avalia as instituições policiais, o que já foi possível aprimorar e quais os árduos desafios que tem pela frente, junto com sua equipe. Pai de dois filhos, casado há 20 anos, ele também conta como é sua rotina diária e fala sobre possibilidades para o futuro das corporações.

 

Secretário, como foi a transição de uma função operacional – de delegado especializado na área de inteligência policial, tendo conduzido pela PF operações de grande repercussão, como “Ressaca”, “Catimbó” e “Zapata” – para assumir a gestão de uma das secretarias de Estado de maior destaque e alvo de polêmicas contínuas?
Na minha carreira na Polícia Federal, eu sempre trabalhei com operações, mas durante um período em 2010 assumi a Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, responsável pela coordenação das ações operacionais no Estado todo, de todas as matérias: tráfico, roubo a banco, contrabando. Fiquei dois anos nessa função da PF e foi uma experiência muito positiva. Naquele momento eu conhecia todas as delegacias, escritórios operacionais e profissionais. A PF tem ferramentas de gestão nesse sentido que facilitam ao gestor enxergar quem está trabalhando mais ou menos, quem tem mais meios e menos meios, se tem uma operação que vai conflitar com outra, se tem gente trabalhando duplicado, porque unidades diferentes investigando o mesmo alvo, além de dispendioso, é até arriscado. É uma função na qual é preciso ter a visão global de tudo e tem que acompanhar todos os aspectos das operações: distribuição de recursos, gestão de pessoal e de gastos, avaliação de resultados. Esse trabalho foi reconhecido no Congresso Federal. Nós tiramos o primeiro lugar no índice operacional da PF, segundo balanço da própria polícia, como “exemplo de produtividade e eficiência”, juntamente com a superintendência regional do órgão.

Delegado federal Wagner Mesquita. Foto: Secretaria de Segurança Pública do Paraná

Delegado federal Wagner Mesquita. Foto: Secretaria de Segurança Pública do Paraná

Anos depois, sua primeira função no Poder Executivo estadual foi na direção do Departamento de Inteligência (Diep). Como foi essa transição para trabalhar com policiais civis e militares?
Na minha visão, de quem estava chegando ao Estado, a Polícia Civil tem toda uma expertise de investigação e vai bem no pós-crime, onde tem estrutura adequada. E a Polícia Militar tem uma expertise total no policiamento ostensivo preventivo, uma academia própria na qual forma seu pessoal, tem uma doutrina de trabalho. Só que entre uma coisa e outra o Estado ainda é carente, como na coordenação de operações. No momento em que eu assumi o Diep, estávamos tendo problemas com crimes graves contra o sistema bancário na capital.

Quando fui procurar ferramentas de gestão, quem estava trabalhando em qual alvo, quantas quadrilhas tinham aparecido recentemente, quem comparava os dados de uma explosão de caixas eletrônicos com outros dados… Ninguém fazia esse trabalho. Havia entre o pós-crime e o pré-crime um vazio total.

 

Não havia gestão da informação?
Exatamente, gestão que seria responsável por tratar a informação, distribuí-la, melhorar a qualidade de trabalho das investigações e fazer uma ponte oficial entre a PM e a Civil. Essa ponte existe pontualmente, entre os policiais que se conhecem e se confiam, mas não existe uma ponte oficial. Hoje nós ainda não conseguimos, mas o Paraná é um dos poucos estados do País que não tem uma lei que regulamenta a atividade de inteligência e a gestão da informação. Estamos trabalhando nesse sentido, com um projeto de lei que cria e regulamenta o subsistema de inteligência de segurança pública no Estado do Paraná.

 

E na vida pessoal, quais foram os desafios e o que mudou no último ano?
Como policial eu sempre tentei, no momento que chego em casa, seja a hora que for, não projetar problemas e ter um trato natural e estritamente familiar. Quando eu vim para a Secretaria da Segurança Pública, as coisas tomaram outra vertente, porque aqui eu preciso ficar antenado com noticiário, com telefonemas, com redes sociais. Eu estou representando o governo, não só a polícia. Então eu tenho que estar aberto a receber sugestões, críticas, reclamações 24 horas por dia. Da virada desse ano para cá, eu acho que tenho administrado melhor essa questão de estar aberto e interagindo com a sociedade o tempo todo.

 

Qual é a sua rotina?
Eu acordo às 5h50. Eu e minha esposa levamos as crianças para a escola e vamos conversando para participar da vida das crianças. Volto para casa, tomo café, três vezes por semana eu faço atividade física, vou para a Sesp e aí me engajo nas atividades do dia a dia até a hora que acabar.

 

E aos finais de semana?
Procuro ficar em casa e em atividades familiares. Vou a eventos quando é necessário, mas procuro ficar em casa, não tenho muita atividade fora.

 

Em 2015, o Paraná atingiu a menor taxa de homicídios dos últimos nove anos, após atuar fortemente para reduzir esse índice. Agora, um dos focos está no combate aos crimes patrimoniais. Como planejar as ações, lidar com essa adaptação rápida do crime para minimizar as consequências para a sociedade?
No combate ao crime organizado, estamos um passo atrás em tecnologia. O criminoso sempre tem uma tecnologia diferente, encontra uma nova forma de ocultar sua atividade, seu patrimônio ou de fazer um pagamento irregular. E também temos, hoje, um contexto social na questão dos crimes patrimoniais, resultado da recessão, do desemprego, de políticas inclusive de execução carcerária. Isso reflete, então não é só a tecnologia para mirar no crime organizado, é o contexto social mesmo. Tudo pode mudar, dependendo de um evento esportivo de grandes proporções, de uma atividade da Receita Federal contra o contrabando ou de tantos outros fatores.

 

Tem como melhorar?
Acho que a natureza do trabalho é adaptar-se, como a medicina, que atualmente enfrenta um surto de doenças contagiosas, como chikungunya, zica vírus, coisa que cinco anos atrás ninguém falava. A segurança é um ser vivo, não adianta. Nós não vamos chegar naquele ponto ótimo, porque a natureza humana é de infringir as regras. A partir do momento que a gente vê alguma coisa posta e colocada, ela vai ser burlada, não tem jeito, isso é da natureza humana.

 

Como está o Paraná no cenário nacional com relação à segurança?
Nós estamos bem. Nosso método de avaliação das estatísticas acabou de ser reconhecido internacionalmente, nossos índices são os índices comuns de qualquer cidade com a quantidade de habitantes que nós temos, mas a atuação policial aqui é diferenciada. Estamos com índice de homicídio de 21 por 100 mil habitantes, muito bom em relação a outros lugares. O homicídio acaba sendo o maior parâmetro na área da segurança, por ser o bem maior que a gente tem, que é a proteção à vida. Entretanto, a atuação do crime organizado tem uma posição estratégica no Paraná. Por aqui passam drogas, armas, o que influencia diretamente na possibilidade de corrupção, e todas essas práticas são diariamente combatidas pela polícia. Não temos um problema endêmico de corrupção policial. Temos problemas pontuais como qualquer instituição tem. Nosso sistema ainda é um sistema sadio e correto.

 

O que é necessário aprimorar no setor de investigação criminal no Brasil?
Especialização. Seja em crimes financeiros, em homicídios, em crimes patrimoniais. Recentemente conhecemos na Delegacia de Furtos e Roubos as ferramentas de reconhecimento facial para utilizar em situações de crimes patrimoniais que são ótimas, maravilhosas, de retrato falado eletrônico. Isso é típico de crimes patrimoniais. Já para investigação de crimes financeiros, a Polícia Civil recentemente inaugurou o seu laboratório de lavagem de dinheiro, que já forneceu informações pra investigações de corrupção, de tráfico de drogas, e esse laboratório tem que ter um know how específico, tem que ter formação, equipamentos, softwares.

Delegado federal Wagner Mesquita. Foto: Secretaria de Segurança Pública do Paraná

Delegado federal Wagner Mesquita. Foto: Secretaria de Segurança Pública do Paraná

Até o final do ano, teremos mais de 8 mil novos soldados da PM formados. Qual o cenário que vão enfrentar e por que os paranaenses precisam tanto deles? Qual o papel que o policial tem para o Estado, para o cidadão?
A formação do policial é uma formação diferenciada. A experiência vale muito, a experiência do mais antigo, a doutrina, porque o policial tem que tomar decisões em milésimos de segundos e são decisões pelas quais ele vai responder para o resto da vida. É uma linha muito tênue entre a omissão e o abuso. Se ele deixar de fazer o que tem que fazer, ele estará sendo omisso e se ele fizer um pouco mais do que ele deve fazer, ele estará abusando da autoridade. Então o que vai fazer ele ficar no meio da linha da maneira correta é a formação dele, é a experiência. Por isso que temos que dar muita atenção para a formação de maneira continuada, não só a inicial. Hoje a nossa vida tomou uma velocidade maior, as informações são mais rápidas e isso também vai refletir no dia a dia. Cada vez mais ele também vai ter que tomar decisões rápidas, fazer ou não fazer, entrar em uma casa, fazer um disparo, dar uma voz de prisão ou não dar. Isso tudo vai ser julgado também de maneira muito rápida, tanto no Judiciário quanto na mídia e entre a população, que faz um juízo muito rápido.

 

A longo prazo, o que as corporações precisam evoluir?
Em relação ao Depen, eu destacaria que para mim foi o campo mais fértil de desenvolvimento. Eu vi uma instituição com uma importância enorme dentro do contexto da segurança pública, mas sem regulamentação, sem política de valorização dos seus funcionários, com projetos que estavam abandonados no meio do caminho, fadados a serem perdidos. Então nós começamos um trabalho de dar uma personalidade profissional ao agente penitenciário, reconhecê-lo como ente de segurança pública. Ainda estamos em um processo de transição e, em fatos sociais recentes, vimos que especialmente o agente penitenciário precisa ter consciência de funcionário público, uma consciência maior dele como uma carreira de Estado e separar questões sindicais de questões funcionais, obrigações funcionais de direitos sindicais. É uma carreira que tem muito a crescer. Pretendemos que eles assumam a direção integral do órgão, mas desde que se desenvolvam como funcionários públicos e a instituição em si também. As funções dos departamentos não eram regulamentadas, não tinha um plano ou organograma definido, sem critérios para assumir cargos de direção.

 

E a Polícia Científica?
Hoje a Polícia Científica funciona com seu quadro reduzido. Estamos melhorando as estruturas e temos feito convênio com prefeituras para melhorar a infraestrutura de atendimento, mas ainda precisa de mais pessoal e qualificação dos funcionários. Sabemos do custo que é para o Estado contratar pessoas, mas no caso da segurança pública, isso tem um reflexo direto em qualquer investigação e no serviço à sociedade. A sociedade procura a Polícia Científica quando mais precisa, quando está lesionada, quando faleceu um ente querido, quando precisa de um documento ou um exame.

 

Qual seria uma marca desse seu primeiro ano à frente da Sesp?
Inteligência e integração. Mesmo sem regulamentação, criamos um canal para gestão de informação e para tentar aproximar Polícia Civil e Polícia Militar, quebrar eventuais barreiras de qualquer natureza e fazer com que o trabalho se complemente. Trazê-los para o mesmo ambiente e para o mesmo desafio, compartilhando as missões que são diferentes, mas também são complementares.

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