A safra dos videntes

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Em ano eleitoral cresce o mercado para astrólogos, videntes, tarólogos, babalorixás, sortistas, ciganas que leem a mão, médiuns e afins

 

Todos sabem que José Sarney não começava o seu dia como presidente da República sem ler o seu mapa astral, preparado por diligente assessor que ocupava todo o seu tempo com os astros a interferir na vida presidencial.  E que Collor de Mello mandava um jatinho da FAB buscar sua vidente preferida no Rio de Janeiro sempre que a situação ficava difícil e ele precisava tomar decisões capitais para a vida do país.

signo_1O ex-presidente Lula servia-se de um lado dos conselhos espirituais de Frei Betto, homem dado a teologias e à política. De outro, socorria-se com uma vidente em quem Dona Marisa tinha grande confiança. Era quem preparava sessões de descarrego, exorcizava os maus encostos, indicava os maus espíritos que apareciam e, é claro, lia o futuro.

A verdade é que a maioria dos políticos, vez ou outra, acaba resvalando para o território das crendices e das superstições. Mesmo aqueles que juram que não acreditam, do tipo do senador Roberto Requião, tido como ateu e marxista nas rodas da esquerda nativa, ou do ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca de Macedo, católico fervoroso que andou a consultar um babalorixá da Bahia. Descobriu que é filho de Ogum e a ele deve homenagens.

Não há diferença com o que faz a senadora Gleisi Hoffmann, só que esta gasta um pouco mais para ver o seu guru. Tem que ir à Índia, o que faz regularmente, para ver o seu Brahma Baba, fazer meditação Raja Yoga, descobrir o que vem pela frente e pensar positivamente, superar a raiva e diluir conflitos para vencer os desafios. Com certeza, diante das circunstâncias, o Brahma Baba de La Hoffmann está com trabalho dobrado nesta época de Lava Jato.

Não é raro nem condenável essa dose de irracionalismo na vida dos políticos. Afinal, são humanos que dependem do sucesso nas eleições para permanecer na carreira. E quem pode dizer o que esperar das urnas? Só os institutos de pesquisa e os videntes. Sendo que os dois erram com frequência maior do que se poderia esperar, mas não perdem sua importância nas horas mais aflitivas.

Inevitável em ano de eleições que apareçam tarólogos, cartomantes, visionários em geral com suas previsões. Um ano sim, outro não, ganham bom dinheiro na safra dos políticos e sua ansiedade.

Os institutos de pesquisa e os videntes erram com frequência maior do que se poderia esperar, mas não perdem sua importância nas horas mais aflitivas

Nas esquinas, a distribuição de panfletos de propaganda anunciam todo o tipo de vidente. Inclusive aqueles que resolvem tudo, da cura da AIDS e do câncer à promessa de “reverter o homossexualismo”, propostas e ideias tão abstrusas que, por si só, deveriam espantar a clientela. Qual o quê. A fila cresce.

signoA novidade mais recente veio com a tecnologia. Há uma safra de videntes atuando através da internet. Desde que seja pago um boleto antecipadamente, o cidadão curioso sobre o destino recebe no seu e-mail todas as leituras possíveis. É claro que ele deve responder, antes de tudo, um questionário de informações que misturam exigências da astrologia, do tarô e até da macumba. Mas são videntes condenados por todos os da tradição antiga. “Picaretas, enganadores, fazem um mal muito grande para o trabalho de quem é sério nessa atividade”, diz um tarólogo de Santa Felicidade. A verdade é que o desejo de receber um sinal do além, do inescrutável, que possa indicar o que não tem resposta pronta pela ciência ou pelo bom senso, é enorme e, em maior ou menor grau, afeta a maioria dos viventes, candidatos ou não, políticos ou não.

Basta ver o que acontece no maior centro de umbanda da praça, o de Frei Maneco, para se ter uma ideia. Milhares de pessoas passam por lá todas as noites para ouvir os seus guias espirituais que se apresentam através dos médiuns. Não é crendice do povo sem escolaridade. Nesse centro de espiritismo é fácil encontrar as figuras mais proeminentes da cidade na área dos negócios. No pátio do estacionamento, os carrões importados atestam que os de mais alta renda também esperam saber o futuro, muitas vezes com antecedência suficiente para tentar modificá-lo.

Há um vidente no Boqueirão, um dos bairros mais populosos de Curitiba, que se obrigou a distribuir senhas para atender todos os políticos que o procuram. Na fila, muitas vezes, desafetos mortais aguardam sua hora de saber o que vai acontecer com ele e com o desafeto.

Há os que acreditam piamente nos poderes que oferecem. Os cientistas da praça explicam o fenômeno como resultado da ativação de uma área do cérebro que os faz entrar num estado próximo do hipnótico. E há os malandros que vivem da aflição alheia. Importante é a encenação, o espetáculo montado para influenciar quem espera uma revelação.

No Cajuru há uma senhora de fala confusa que jura que recebe o espírito de uma famosa vidente búlgara, Valengia Pandeva Dimitrova, também conhecida por Baba Vanga, que era cega e, antes de morrer, teria previsto coisas extraordinárias. Ela morreu em 1996, aos 90 anos, mas entre as visões mais famosas que lhe atribuem está a do 11 de setembro. Baba Vanga teria dito pouco antes de morrer que “os irmãos americanos vão cair depois de ser atacados por aves de aço”.

maoA vontade de saber o que vai acontecer no futuro movimenta o mercado de videntes em Brasília. São muitas as ofertas, que são divulgadas na internet, em panfletos distribuídos ou colados em postes, e até em outdoors. Sites de compra coletiva oferecem promoções para quem deseja consultar profissionais esotéricos.

Lá como cá o preço de uma consulta não sai por menos de R$ 100,00 para os políticos, independentemente das técnicas de previsão. Os mais comuns são jogo de búzios e tarô, a leitura de cristais (quiromancia) e leitura de borra de café. Já os chamados “trabalhos”, rituais para obter algum objetivo, são mais caros e podem custar até R$ 10 mil. Os valores não costumam ser fixos e dependem, segundo as profissionais, da gravidade da situação.

Em Curitiba, o “orçamento” para impulsionar a trajetória de um político em início de carreira foi de R$ 7 mil, feito por conhecida vidente, a Madame Sy, que opera nas Mercês. Ela desenvolveu o método sensitivo, que lhe exige o olhar fixo e atencioso do interlocutor, até que se formem as imagens que, depois de interpretadas, lhe permitirão decifrar o futuro. Ela também joga cartas e trabalha com uma técnica que chama de massagem espiritual, indicada para quem está com problema de saúde. Madame Sy é muito procurada por pessoas que passaram por médicos e não conseguiram um diagnóstico preciso ou cura.

A vidência no copo, ela explica, é indicada para as pessoas que querem saber se os seus projetos serão realizados. Quase sempre são previsões relacionadas a questões profissionais. Os objetivos mais comuns são passar em concursos públicos ou sair do país. Já o tarô é indicado para as questões amorosas e familiares, este um veio do mercado que garante a sobrevivência de todos os videntes em qualquer época.

death-tarot-card-major-arcana1Todas essas técnicas podem sugerir aos clientes que façam “trabalhos espirituais”. Madame Sy costuma prescrever o ritual da meditação na praça, mas antes observa o que existe de sentimento entre as pessoas.

Para os candidatos em eleições, ela tem outro conselho. Chá de espinheira e coentro antes de cada comício e cada reunião. Garante que a infusão ajuda a despertar o interesse dos ouvintes e a despertar simpatias que podem se transformar em votos. Ela garante que elegeu muitos dos políticos nativos que hoje desfilam com seus mandatos. Arrepende-se da ajuda que deu a alguns que estão enrolados em casos de corrupção, nas garras da Lava Jato. Mas não fará nada para que saiam da cadeia. “Agora que arrumem outra espiritualidade, do mal, para ajudá-los”, diz ela, que não chegou a prever até onde iria seu cliente.

Se o presente é sombrio, o futuro promete as trevas mais espessas se pensarmos que nosso destino ficará nas mãos dos políticos nativos que resumem sua clamorosa inadequação aos cargos que pretendem e ao momento que vivem ao mostrar que só conseguem imaginar o futuro através de uma bola de cristal, da revelação de um espírito do além ou das cartas do tarô.

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