A Venezuela não é aqui

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O socialismo do século XXI que faz com que crianças e cachorros dividam a mesma comida

 

É quase impossível começar este texto. A pauta foi sugerida por mim, quis por vontade própria fazê-lo, mas agora me arrependo. Refletir sobre a Venezuela e seus fatos é pensar sobre a barbárie humana. É ver até onde a desonestidade do ser pode chegar, é estar diante de uma sordidez impossível de se explicar.

Algumas coisas que acontecem por lá se assemelham muito com as daqui, logo falar de lá não é anular aqui, ao contrário. Talvez escrever que crianças dividem lixo com cachorro atrás de comida, como vou escrever um pouco adiante, não me entristeça tanto quanto ter que explicar que não estou deixando de dizer do Brasil, pois uma criança deixar de dividir o lixo com o cachorro me parece mais fácil resolver do que consertar a ignorância que paira nestes tempos. Portanto, a Venezuela é aqui! E esta frase me recuso a explicar.

Se os dados econômicos fossem os únicos a ser destacados já seria um absurdo, afinal um país que pode chegar a 700% de inflação e a retração do PIB a 10%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), não pode ser um bom lugar para viver. Agora se se pegar os números da economia venezuelana e aplicar na realidade vivida todos os dias pelos seus habitantes, é gritante, assustador, desumano.

Nicolás Maduro teve a pachorra de dizer que o empresariado quer quebrar o país e causar instabilidade econômica por não concordar com o viés bolivarianista. Este é o argumento utilizado para justificar a saída da Coca-cola da Venezuela. O símbolo do capitalismo pouco se importa se Maduro é bolivariano, republicano ou democrata, o que está em jogo são os impostos e as condições para ganhar mais gastando menos, o que não está sendo possível na Venezuela devido à escassez de açúcar.

Ficar sem a coquinha no almoço não dá nada, isto não afeta diretamente a sociedade, a realidade vivida todos os dias, mencionada anteriormente. É bem possível, inclusive, que se alguma universidade estadunidense realizar um estudo em países sem Coca eles descubram um baixo número de diabéticos. Esse estudo provavelmente já existe.
Não há, no entanto, como Maduro culpar empresários pela falta de café. Desde janeiro, venezuelanos não sabem o que é um cafezinho quando acordam ou depois do almoço, e quem torra o café é o Estado, o Estado bolivarianista que reduz a desigualdade, mas não consegue servir café para toda a população.

Anticoncepcionais e preservativos estão em falta, isto reflete diretamente na população: os índices de mulheres, principalmente jovens, grávidas, e os de doenças venéreas crescem substancialmente.

 

Fome

A fome já é uma realidade, meninos agradecem após encontrar uma bolsa contendo algo parecido com ração animal. “É para cachorro, mas serve para nós”, disse um deles à reportagem da Folha de S. Paulo. Outra senhora gritou: “Estamos morrendo de fome, diga ao mundo todo.”

Não há cifras, porque o Estado venezuelano não divulga índices, mas comerciantes são unânimes em apontar cada vez mais gente que espera o fim da feira para buscar comida. Os próprios feirantes o fazem. “Eu mesmo já tive de catar tomates no lixo, mas fiz isso em outro mercado, para que ninguém me reconhecesse”, diz Igor Perez, 41, feirante em Coche.
Os relatos de quem anda a buscar comida no lixo são de pessoas comuns, que outrora viviam sem luxos e sem lixos. “Sou formado em administração, já tive emprego, mas hoje reviro lixo para alimentar minha família”, revela Luis Losada, 40.

O que leva venezuelanos a práticas outrora impensáveis no país com a maior reserva de petróleo do mundo é uma crise econômica que, em 2015, gerou queda do PIB em 10% e inflação de 275%.

Um quilo de carne vale ao menos 5.000 bolívares (US$ 5 na cotação paralela usada por particulares) – um quarto do salário mínimo. Uma maçã vale 1.000 bolívares.
Já os alimentos a preço regulado, usados por anos como base de apoio ao governo chavista, desapareceram das prateleiras, no sinal mais visível do desabastecimento.

Há ainda casos absurdos de empresários que são presos por “tráfico de papel higiênico”. O El País relatou o caso de Carlos, que foi obrigado a recorrer ao mercado paralelo de papel higiênico para não correr o risco de sua empresa ser nacionalizada por Maduro, uma vez que há um decreto que todas as empresas devem ter papel higiênico a todo o momento caso contrário o Estado se apropria, o que é impossível porque falta nas prateleiras dos mercados, logo os funcionários furtam no próprio local de trabalho.

Na mesma reportagem do El País há o caso de Maikel Mancilla, um garoto de 14 anos que morreu em fevereiro pela falta de medicamentos para controlar epilepsia. O sistema de saúde está falido, pacientes soropositivos não têm remédios, pessoas com câncer não encontram quimioterapia e doenças mais simples, como a malária, que não carece de medicamentos caros e estava controlada no país há pelo menos uma geração, voltou com resultados mortais.

Maduro tem tomado medidas drásticas para o país não entrar num colapso maior. Beirando uma guerra civil, o governo decidiu suspender sexta-feira como dia útil, inclusive as aulas, para economizar energia; funcionários públicos trabalhavam dois dias por semana. Em meados de junho a “folga” do funcionalismo, que estava em vigor desde abril para quase 3 milhões de funcionários, foi suspensa. A oposição disse que o ato de enviar funcionários públicos para casa não fazia diferença, já que eles iriam usar eletricidade em outro lugar.

O ministro da Eletricidade, Luis Motta, disse que graças ao nível crescente das águas no reservatório Guri, que fornece dois terços da eletricidade do país, funcionários estatais podem voltar a trabalhar até as 13h nas quartas, quintas e sextas-feiras; e as crianças às aulas todos os cinco dias. E comemorou no Twitter “Estamos ganhando!” Resta saber o que e quem.

População revirar lixo para comer não é ganhar, funcionários públicos conseguirem o “privilégio” de trabalhar meio período e crianças poderem voltar às escolas cinco dias por semana também não. Mas Motta torce e agradece às chuvas. As autoridades disseram que as medidas de racionamento foram uma resposta emergencial à seca deste ano e ajudaram a reduzir o consumo de energia de 30 milhões de pessoas.

 

Novo socialismo

Quando o militar Hugo Chávez ascendeu à presidência da Venezuela, vinha com a proposta de acabar com aquele acomodado regime político baseado numa oligarquia que superfaturava em cima do petróleo, base da economia venezuelana. Queria redistribuir a renda, erradicar a pobreza, acabar com os latifúndios. Promoveu uma onda de nacionalizações em setores estratégicos – petróleo, siderurgia, telecomunicações, eletricidade e parte do setor alimentar.

Na era Chávez, a pobreza na Venezuela caiu mais de 20%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), e o país passou a registrar a menor desigualdade entre ricos e pobres dentre as nações latino-americanas, de acordo com relatório da ONU, com 0,41 no índice de Gini que mede o grau de desigualdade na distribuição da renda domiciliar per capita entre os indivíduos de um país. Quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade. Dado que quase não dá para acreditar.
O que Chávez não fez, e nenhum governo populista fará, foi projetar o país para o futuro. Decreto por decreto o governo sugou toda a população, desencadeando na Venezuela de hoje.

Surpreende pensar no referendo de 2009, que lhe permitiu reeleger-se sem limites de mandatos, o que obviamente significava que ficaria até o final de sua vida. Provavelmente não achava que viria tão rápido (2013). A historiadora e ex-chavista Margarita López Maya critica o centralismo desenvolvido em torno da figura presidencial. “Em termos históricos, foi o rei que tivemos na Venezuela. Foi como Luis XIV.”

De fato, Chávez era o Rei Sol, tudo girava em torno de si. Em 2007, ele cancelou a concessão pública do canal privado RCTV – acusado de apoiar o golpe –, desencadeando uma onda de protestos. Chávez acusava os meios de comunicação privados de serem os porta-vozes da oposição interna e do governo dos Estados Unidos. A saída do ar da RCTV foi vista como um ataque à liberdade de imprensa. Assim era se ele quisesse. Em toda sua história os venezuelanos foram convocados às urnas em 17 eleições. Ele saiu derrotado apenas uma vez.

No entanto, a Revolução Bolivariana está dando à Venezuela 76% da população na pobreza, racionamento de energia elétrica, autoritarismo, falta de liberdade de expressão, meninos morrendo pela falta de remédios para epilepsia. Isto foi o que Chávez chamou de socialismo do século XXI. Bem claro é que a Venezuela começou a se contorcer após sua morte, mas não é do dia para noite que um país põe os pés num buraco como esse.

Maduro, por ser um chavista, está apenas potencializando, catalisando um futuro que já era esperado. E mais, Chávez matou uma burguesia e criou outra. E Maduro é fruto desta “burguesia bolivariana” que assalta o Estado e seu povo. Hoje Maduro é o único responsável pelo menino que morreu, pelo Losada e pelo Igor que reviram lixo e pela guerra civil que está prestes a eclodir. Isto não é o socialismo.

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