Do que vai e do que fica

adri-177

Os resíduos na MPB

 

Como cabe passado na vida da gente! É impressionante o tanto que carregamos nas malas da memória. Vivemos a arrastar as pesadas sacolas das lembranças que nublam o presente e assustam o futuro. Todo mundo, não tem jeito. Você até pode não se qualificar na categoria dos saudosistas que invocam a todo momento as recordações de outros momentos, mas mesmo assim, ainda assim, vez ou outra um ou outro episódio que já nem existe mais, que pode até nem ter existido, vem te fazer uma visitinha. Bate na porta, se você não abre, ele arromba e se instala. O gatilho pode ser o primeiro gole, a luz do dia, o cheiro da sopa, a música no rádio, a fumaça do cigarro. Qualquer distração e pronto, o passado se acomoda num tempo que não é dele, que não é seu, que não é do outro – um tempo fora do tempo.

Quem abre o baú desta edição é Ataulfo Alves, com um 78 rotações lançado em 1956 em que cantou Meus tempos de criança acompanhado de suas Pastoras: “Eu daria tudo que tivesse / Pra voltar aos tempos de criança / Eu não sei pra que que a gente cresce / Se não sai da gente essa lembrança”.

Por mais que a vida nos empurre para outras situações e nos transforme no caminho, não tem como negar que algumas marcas são insuperáveis. E para lembrar aquelas coisas que não mudam nunca, mesmo a percorrer as mais distantes situações, toda a beleza guardada em Na volta que o mundo dá, parceria de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro. A música é tão completa nesse sentido que valeria desobedecer o tamanho da coluna e pinchá-la inteirinha aqui, mas sou um tanto covarde com esse tipo de coisa, prefiro indicar que você a procure e a consuma verso por verso em outro canal: “Agora aprendi por que o mundo dá volta / Quanto mais a gente se solta / Mais fica no mesmo lugar”.

E quando a gente percebe que algumas coisas são só lembranças que foram apagadas pelas horas de realidade? É um reconhecimento do passado ou um lamento por não se saber mais de um jeito; a conferência de que quase tudo passa: “Cantar era buscar o caminho / Que vai dar no sol / Tenho comigo as lembranças do que eu era / Para cantar nada era longe tudo tão bom / Até a estrada de terra na boleia de caminhão / Era assim” (Nos bailes da vida, Milton Nascimento e Fernando Brant).

Duvido que haja gente que tenha experimentado as maravilhas do amor e depois de abandoná-las por conta de qualquer pormenor, vez ou outra não feche os olhos a pensar com um pouco de melancolia em tudo que ficou daqueles momentos. Agora, se isso não acontece com você, meu amigo, minha amiga, você é bem feliz. E foi esses dois lados que Gonzagão tratou em Que nem jiló, em parceria com Humberto Teixeira: “Se a gente lembra só por lembrar / O amor que a gente um dia a gente perdeu / Saudade inté que assim é bom / Pro cabra se convencer / Que é feliz sem saber / Pois não sofreu / Porém se a gente vive a sonhar / Com alguém que se deseja rever / Saudade intonce aí é ruim / Eu tiro isso por mim / Que vivo doido a sofrer”.

A vida vai deixando marcas, resíduos, os pedaços se colam em nós para a composição do imenso mosaico que nos forma. Se olhamos para trás e os reconhecemos isso pode trazer todo tipo de sentimento, se passarem despercebidos, não quer dizer que não tenham sido importantes e definitivos em nossa construção. Viver é acumular uma porção de ontens e lidar com os nacos que deixamos e carregamos.

Na despedida dessa edição toda a voz de Drummond a nos traduzir nesta tarefa, Resíduo:

Drummond por Portinari

Drummond por Portinari

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço - vazio - de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão.
Às vezes um rato.

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