Muhammad Ali que virou Maguila

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O PT já teve uma estrutura imponente e, no conjunto, uma enxurrada de votos. Tanto que elegeu presidente da República pela quarta vez. Ninguém negará que o partido liderado por Lula chegou a ser árvore grande, robusta e vibrante ao longo dos últimos 13 anos, e tão frondosa a ponto de abrigar à sua sombra as mais diversas tendências. Mas, desde que avançaram as denúncias de corrupção e de desgoverno, com evidências de que a reeleição de Dilma Rousseff se deu por conta de dinheiro sujo extraído da Petrobras e de outras estatais, se deu com o PT uma total involução, perfeitamente explicável conforme as leis da botânica política. A frente aglutinada em torno do PT para se manter para sempre no poder está fadada à dispersão. E o PT perde forças, desidrata, como um gigante abatido.

O que aparece agora é o degrau profundo entre o anseio da sociedade e a fala hesitante de um Muhammad Ali que virou Maguila. Este Maguila está para subir ao ringue da luta decisiva.

Vem aí o teste fatal. O impeachment de Dilma Rousseff pode colocar o partido e seu cacique máximo, Lula, a nocaute. Agora, tem contra si as forças que gravitaram ao seu redor e tiraram grande proveito da aliança para governar. A começar pelo PMDB, que compôs a chapa principal, com Michel Temer na vice, suspendeu Dilma da presidência e articula forças para impor o impeachment no Senado da República. Com o PMDB desgarraram-se o PP, o PROS e mais uma penca de siglas que, sem nenhum pudor, negociaram seus espaços num governo agora liderado pelo PMDB.

Vem aí o teste fatal. O impeachment de Dilma Rousseff pode colocar o partido e seu cacique máximo, Lula, a nocaute

As dificuldades do PT são gigantescas. O partido, com 1,58 milhão de filiados, perdeu militância e quase 15% dos 630 prefeitos que elegeu em 2012. E, ainda que tenha obtido algum espaço com a cantilena de “golpe” contra a presidente Dilma e do governo “ilegítimo” de Temer, jamais conseguirá explicar nem aos mais cegos e fiéis seguidores por que se atirou na lama da corrupção. Também é inexplicável o chorrilho de mentiras pré-eleitorais para conquistar uma vitória que agora é questionada em sua legitimidade.

 

As vísceras expostas

dilma-boxerA Lava Jato não só escancarou as relações indecentes do partido com o “grande capital” – que o PT escorraça de público e com ele se associou no particular –, mas chegou perigosa e ameaçadoramente perto do chefe supremo Lula, investigado em Brasília, São Paulo e, em breve, pela equipe de Curitiba. Algo constrangedor e improducente para os palanques que lulistas juram que ele frequentará durante a campanha.

As investigações também são o ponto frágil do PMDB, que tem líderes como o ex-ministro Romero Jucá e o presidente do Senado, Renan Calheiros, além do inimigo público nº 1, Eduardo Cunha, envolvidos em escândalos. Batem forte no PP, que em 2012 elegeu nada menos do que 474 prefeitos, e cutucam o passado do PSDB, legenda com quase 700 prefeitos eleitos e mais de 50 arrebanhados nos dois últimos anos. Mas é sobre o PT e seus governos que pesa a desastrosa sequência de delações premiadas de empreiteiros a contar como faziam para superfaturar obras e daí tirar as propinas (pixulecos, na linguagem petista) para financiar as campanhas petistas e, ao mesmo tempo, enriquecer os membros da cúpula e seus prepostos na administração das estatais sugadas até o osso, como a Petrobras e a Eletrobras, como se vê agora.

Mas nada é tão avassalador quanto a economia. É ela que dita o humor do eleitor. E o legado de Dilma e do PT não animam ninguém. Inflação e desemprego crescentes, recessão estarrecedora, roubalheira sem fim. Como se não bastasse o caos econômico, político e ético, 2016 é ano eleitoral, quando, tradicionalmente, tudo se agudiza. Na política e na economia.

Ainda que a devastação nas contas públicas tenha sido obra do PT, convencer o eleitor será parada dificílima para qualquer um. Até porque não há hipótese de sanar, em poucos meses, um rombo fiscal superior a R$ 170 bilhões, gerar empregos e crescer. Estados e municípios continuarão em colapso. E o espaço para mexer na qualidade dos serviços de que o cidadão mais precisa, como saúde, transportes e segurança, reduzidíssimo.

Como se não bastasse o caos econômico, político e ético, 2016 é ano eleitoral, quando, tradicionalmente, tudo se agudiza. Na política e na economia

PT sem tempo de recuperação

O PT ainda faz esforços comoventes para restaurar a imagem de Lula e dar-lhe o vigor que tinha nos tempos heroicos do estádio da Vila Euclides. O Instituto Lula, que, se seguisse o padrão normal de organizações dessa espécie, deveria ser um órgão dedicado a altos estudos de temas relevantes da realidade nacional, transformou-se no ventríloquo de seu boneco e um emissor de notas oficiais para tentar explicar as turbulentas andanças de seu chefe.

Em sociedade com Rui Falcão, o presidente do PT, os escribas do Instituto Lula estão queimando as pestanas para achar um caminho por onde seu inspirador possa caminhar sem tropeçar nas contradições que ele plantou em seu próprio caminho.
Em vez de vir a público e convocar uma entrevista coletiva em que tenha a coragem de submeter-se sem disfarces a todos os questionamentos a que for submetido pela imprensa independente, Lula prefere tediosas sessões onde repete o seu Sermão da Montanha à claque de fiéis já convertidos, como se ensinasse, monotonamente, o padre-nosso aos seus vigários.

Na falta de uma verdade comprovada, sólida e definida, Lula, com suas ambiguidades, deixa que as suspeitas vazem por todos os lados, como a água que escorre de ânfora rachada. Ele não tem nada com nada, como sempre, mas seu coroinha Gilberto Carvalho resolve ajudá-lo com uma frase cheia de segundos, terceiros e quartos sentidos.

Segundo Gilbertinho, é “a coisa mais natural do mundo” que uma empreiteira queira fazer um mimo a um ex-presidente. Não sabemos se ele se referia ao tríplex do Guarujá, ao sítio de Atibaia, a ambos ou a nenhum deles. E muito menos ao que ele quis dizer com essa “coisa mais natural do mundo”. Coisa mais natural onde, cara-pálida?

O ex-presidente, que nunca tem nada a ver com nada, deixa que essa ambiguidade paire no ar, não a desmonta com a devida firmeza, reluta em dizer claramente do que se trata essas, digamos, “operações imobiliárias” e, para aumentar as dúvidas que pairam no ar, diz num pronunciamento sobre os 36 anos do PT, que “cometemos erros e temos que pagar por eles”.

 

Mar de ambiguidades

lula-boxerO PT está se autodestruindo num mar de ambiguidades e não consegue sequer estruturar uma defesa convincente, baseada num projeto para o país que não seja a tediosa repetição de uma retórica balofa, vazia de sentido, desgastada, maltratando a inteligência do país com a repetição de slogans mais velhos que a Sé de Braga, que não empolgam mais nem a sua plateia mais infantilizada.

Sua única defesa é afirmar à exaustão que se trata de um golpe político para tirar Dilma e o PT do poder e instalar em seu lugar os neoliberais que conspiram contra o povo, a maioria.
Colocar a culpa de tudo nas elites brancas de olhos azuis que não gostam de pobres em avião, em filhas de empregadas na universidade, na imprensa golpista, na oposição, nos conservadores, nos que não se conformam com as “conquistas sociais”, é um mantra que já perdeu o prazo de validade e que começa, perigosamente, a beirar o ridículo, como qualquer slogan repetido à exaustão até a perda total de sentido.

Talvez o sonho de Lula e do PT seja o de lidar para todo o sempre com uma nação de imbecis, mas esse é mais um de seus sonhos impossíveis. Como aquele de achar que o seu líder está acima da lei. A verdade é que oito em cada dez brasileiros considera hoje o PT um partido de corruptos, que montou o maior sistema de corrupção já inventado neste mundo ocidental, cristão e democrático. Afinal, o rombo nas contas públicas, a destruição de uma empresa como a Petrobras, a sucessão de escândalos de corrupção em todas as áreas, transformaram o PT em partido desmoralizado.

A decadência de Lula, em torno do qual se ergue toda a estrutura e a força do PT e suas extensões na vida social, como o MST, a CUT e assemelhados, é fatal para qualquer pretensão petista.  É verdade que os petistas, especialmente depois que os seus principais quadros foram expulsos da vida pública pela Operação Lava Jato, com raras exceções individuais, mostraram-se provincianos, colonizados, culturalmente a navegar em mar raso. Pouco sabem das coisas do mundo porque não são contemporâneos do mundo. E não querem ser.

 

Os efeitos perversos

A crise econômica gera um desconforto geral na sociedade cujas causas são todas atribuídas ao PT. De sigla forte e que elegia os políticos mais despreparados, hoje é uma grife que causa medo e que desclassifica quem a usa. Por isso tanta gente deixou o partido na primeira oportunidade.

As previsões de que o PIB só deve voltar a crescer em 2018 também são péssimas notícias. Mas esses números muitas vezes não dão a real dimensão de como a crise atrapalha o cidadão comum. A recessão traz consigo as demissões e falências, que geram desemprego. O ciclo perverso leva à perda de renda e dificulta acesso a bens de consumo. O impacto é direto na vida de quase todos.

A renda média do trabalhador medida pela PNAD Contínua do IBGE diminuiu desde o início de 2015. O valor parece pequeno, mas não é tanto. No trimestre entre janeiro e março de 2015, o rendimento médio era de R$ 1.915, no fim do ano foi de R$ 1.851, uma queda nominal de 3,14%. A redução é ainda mais forte se considerarmos a inflação de cerca de 10% durante o período, o que corrói ainda mais o valor do dinheiro.

Os números da pesquisa do Serasa Experian mostram que 41% das pessoas entre 18 e 95 anos no Brasil têm pendências financeiras. A maior parte delas (77%) ganham até dois salários mínimos. Eram 60 milhões de pessoas no total em dezembro de 2015, frente a 54 milhões no mesmo mês de 2014.

Em 2015 foram vendidos 2,1 milhões de carros no Brasil. O número é 25% menor que no ano anterior, segundo dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). A consequência na queda das vendas pode ser vista no aumento do desemprego. O setor automotivo, parte importante da indústria brasileira, foi um dos que mais fechou postos de trabalho: mais de cem mil em 2015. E todos os números demonstram que as vendas serão ainda menores neste ano.

Outro desastre na vida do brasileiro é demonstrado por este número: 760 mil pessoas perderam seus planos de saúde em 2015. Os principais motivos são a perda do emprego e a falta de recursos para arcar com as despesas. Os dados da ANSS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que regula os planos de saúde, foram compilados pelo jornal “O Globo”. Um problema adicional que o dado mostra é a migração obrigatória dessas pessoas que não têm mais plano de saúde para o SUS (Sistema Único de Saúde) – o que pesa ainda mais nos cofres do governo.

A fórmula é ótima para os campeões de audiência, gente de mídia, comunicadores, comediantes, pastores, ases do esporte e todo tipo de celebridade que conta com exposição maciça

Há mais. Entre janeiro de 2015 e março de 2016, os brasileiros sacaram um volume recorde da caderneta de poupança. Só nos três primeiros meses de 2016, foram R$ 24 bilhões – o maior valor desde 1995. A diminuição de recursos na aplicação mais tradicional da economia brasileira mostra que as pessoas, além de não conseguirem investir nesses tempos difíceis, estão precisando resgatar o dinheiro investido para pagar as contas.

 

Eleições e desinteresse público

Diante do quadro, a população passou a detestar a política, os políticos e suas instituições. As eleições municipais deste ano tendem a continuar no fim da fila. Não têm o glamour dos jogos olímpicos que começam em agosto. Muito menos conseguem competir – por maior que sejam as rivalidades entre candidatos locais – com os argumentos inflamados dos pró e anti-Dilma. Mas é a partir delas que o país dirá se deseja ou não fazer a sua concertação política.

Ninguém sabe dizer exatamente como serão as campanhas eleitorais deste ano. Época em que, costumeiramente, se gasta algum verbo e muita verba a mais, lícitas e não contabilizadas, termo imortalizado pelo gênio da arrecadação petista, o ex-tesoureiro e mensaleiro condenado Delúbio Soares.

Na campanha eleitoral deste ano, os problemas serão ainda maiores. Não há dinheiro nem financiadores. Empresários escaldados por mensalões e petrolões, que já ficariam ressabiados em apoiar partidos e políticos, estão impedidos de qualquer doação. Pelo menos às claras.

O dinheiro oficial para as campanhas terá de vir de três fontes: público, via fundo partidário, de promoções dos partidos e de pessoas físicas, que não têm tradição de custear campanhas. E não será agora, quando o descrédito nos políticos atinge os píncaros, que elas começarão a fazê-lo.

A fórmula é ótima para os campeões de audiência, gente de mídia, comunicadores, comediantes, pastores, ases do esporte e todo tipo de celebridade que conta com exposição maciça. Até porque é difícil imaginar que alguns jantares, leilões, vendas de camisetas, shows e doações de militantes conseguirão fazer frente aos gastos milionários que as campanhas impõem.

Segundo o TSE, em 2012, últimas eleições municipais, só em São Paulo os candidatos a prefeito e a vereadores consumiram a bagatela de R$ 907 milhões, R$ 726 milhões bancados por doações empresariais. Em todo o país, os 15.100 candidatos a prefeito e os 419.900 a vereador queimaram mais de R$ 4,5 bilhões, 80% deles oriundos de CNPJs, proibidos de vez pelo Supremo e pela sanção da presidente Dilma Rousseff à minirreforma eleitoral, aprovada no Parlamento em 2015.

 

De onde então virá o dinheiro?

Dos impostos? Do caixa falido dos partidos? Há quem diga, um deles é o senador cassado Delcídio Amaral, que entende do riscado, que, ao contrário do que a maioria acredita, teremos uma das eleições mais eivadas de dinheiro sujo e de caixa dois de todas as que já se viram no país. Tudo bem, como dizem as almas parvas. Ainda que o fim do financiamento privado seja defensável, por mais uma vez aprovou-se um dispositivo sem ter o que colocar no lugar.

Ninguém perguntou ao cidadão se ele está disposto a custear campanhas políticas com o dinheiro de seus impostos. Até porque a resposta seria um sonoro e taxativo não. Agora, o monstro está aí. E ele ruge. Mostrou o afio das unhas nos R$ 819 milhões fincados no Orçamento da União, quase três vezes mais do que a proposta do governo. E que Dilma sancionou, temendo agredir sua fragilíssima base e, consequentemente, fermentar o impeachment.

Sem forças para encarar um rato, quanto mais uma fera, a presidente Dilma despejou dinheiro que o país não tem nos partidos políticos. O que de pouco adiantou para segurar-lhe no cargo. Hoje, a maioria está contra e o impeachment se aproxima, inexoravelmente.

Somados ao gasto obrigatório do TSE para realizar o pleito, algo que ultrapassa R$ 400 milhões, e ao ressarcimento da União em favor das emissoras de rádio e TV que transmitem o horário eleitoral falsamente dito gratuito – outros R$ 576 milhões –, o aporte de dinheiro público já dobrou a casa dos R$ 2 bilhões. E ainda assim será insuficiente.

Pior. Os que defenderam a mudança do financiamento, seja por razão, convicção, ideologia, credo ou oportunismo, sabem que criaram um monstrengo impossível de ser domado com o palavreado fácil de que a campanha será mais curta e mais barata, que as redes sociais serão definitivas, que o verbo será mais forte que a verba.

Criou-se a justa causa do dinheiro não contabilizado. Algo em que todos são responsáveis. Executivo, Judiciário, Legislativo. Governo e oposição. Se a lama depositada no fim do túnel pelo PT e aliados prende a besta do lado de cá e bloqueia a entrada de qualquer feixe de luz, não há, entre os opositores, nada que resplandeça. Nem ideias, muito menos saída.

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