Música Erudita. Ed. 177

bach

Incompreensível Bach

Johann Sebastian Bach não foi em vida (1685-1750) o centro musical na Alemanha. Foi famoso como grande organista e virtuose no cravo e no violino. Também era conhecido por cumprir pontualmente suas obrigações de “Kantor”, a escrever grande quantidade de música sacra que o culto luterano lhe exigia na época.

O criador da maior obra musical de todas as épocas era um místico, profeta musical de seu Credo e pai de 15 filhos, homem de Deus e burguês de vida confortável, para tanto se obrigava a calcular, com espírito materialista ordenados e emolumentos, tornando-se também homem irascível e sempre envolvido em brigas mesquinhas.

Como se vê, tinha pouco tempo e pouco interesse em preservar a sua obra. Os originais dos Concertos de Brandenburgo, que não tinha publicado, foram encontrados, décadas depois, como papel de embrulho numa loja comercial.

Há uma maneira de explicar  esse fenômeno. Bach não se julgava um gênio, no sentido em que se julgavam Beethoven ou Wagner e todos os artistas de hoje. Considerava-se um artesão que dominava completamente seu ofício. Nunca escreveu para exprimir-se, como fariam depois dele os românticos. Só escreveu por encomenda, para fins litúrgicos. Toda a semana, uma cantata, durante anos. Para a Corte e para o ensino. Quando executadas uma vez, iam para o arquivo ou se perdiam.

Isso explica porque Bach, além do ambiente mais íntimo da família e dos amigos, só foi admirado como virtuose no órgão e, depois da morte, rapidamente esquecido. No fim do século XVIII só se conhecia e apreciava o “Cravo bem temperado”, que circulava em cópias manuscritas para fins de ensino. Mozart conhecia também os motetos.

A ressurreição de Bach só aconteceu em 1829, em Berlim, com a execução da “Paixão segundo São Mateus”, sob a direção de Mendelssohn. O mesmo Mendelssohn foi o primeiro a ressuscitar os Concertos de Brandenburgo e as obras para violino. Só em 1852. 102 anos depois da morte do compositor, com o início da edição das Obras Completas pela Sociedade Bach de Leipzig começou a publicação das Cantatas.

A Igreja Luterana já não tinha uso para a obra de Bach em sua liturgia. A Igreja Católica passou a permitir, em seus templos, a execução de obras de Bach para órgão. Mas a Obra de Bach tinha perdido, para a posteridade, a significação religiosa. E pouco a pouco foi adquirindo a sua dimensão verdadeira. Sua obra é hoje o fundamento do nosso templo da música.

Equívocos, equívocos

Emílio Fabri

"O mio babbino caro”, da ópera Gianni Schichi, é a mais bela obra de Puccini. Traduzida é “Oh meu querido papai”. Lauretta, que está imensamente apaixonada por Rinuccio, pede ao seu pai que faça algo pelos Donatti. “Por essas pessoas?” questiona ele. “Nada! Não faço nadinha!” É quando Lauretta, com sua famosa ária “O mio babbino caro” amolece o coração do seu pai, Gianni.

Ora, pois, por aqui ela é usada, inclusive em propaganda, como se fosse declaração ao amado. Pois, pois, como diria o Fábio Campana, a ignorância gera equívocos e prega peças em quem não sabe o que está a fazer. Vejam a letra e a tradução:

“O mio babbino caro,
Mi piace è bello, bello;
Vo’andare in Porta Rossa
A comperar l’anello!
Sì, sì, ci voglio andare!
E se l’amassi indarno,
Andrei sul Ponte Vecchio,
Ma per buttarmi in Arno!
Mi struggo e mi tormento!
O Dio, vorrei morir!
 
Babbo, pietà, pietà!
Babbo, pietà, pietà”

Tradução:

Oh, meu paizinho querido!

 
“Oh meu paizinho querido
Eu amo-o, ele é tão belo;
quero ir até Porta Rossa
Para comprar o anel!
Sim, sim, eu quero!
E se o meu amor fosse em vão,
eu iria até Ponte Vecchio,
e me atiraria ao rio Arno!
Eu choro e sofro tormentas!
Oh Deus, preferia morrer!

Pai, tende piedade, tende piedade;
Pai, tende piedade, tende piedade!

Tudo bem, um publicitário talentoso certamente encontraria  a maneira de justificar o uso tão impreciso de Puccini, com a vantagem de não mais pagar direitos autorais, o que permite um ganho extra pela pouca criatividade.

Mas há equívocos mais grotescos. Um programa de Igreja Pentecostal, dessas que vivem de exorcizar o demônio e oferecer a felicidade divina ainda na vida terrena do crente, usa “Carmina Burana” de Carl Orff, como trilha sonora de seu proselitismo na televisão. Pois os pastores universais não sabem que a obra de Orff consiste da reunião das canções profanas da Idade Média. Belíssimas, mas mais dedicadas ao Diabo que a Deus.

Assim como as frases de autores famosos são repetidas à exaustão na internet, trechos da grande música são explorados da mesma forma. E muitas vezes, ou na maioria, com referências equivocadas, como o de um trecho de Réquiem para uma alegre cena de amor carnal. 

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