Não há santos sobre os altares

santos-177

As delações premiadas da Lava Jato mostram que a corrupção na política brasileira foi ampla, geral e irrestrita. Já não há santos sobre os altares. Todos os nomes referenciais da vida pública são citados. Os ex-presidentes vivos, de José Sarney, passando por Collor de Mello e Lula, até Dilma Rousseff, e o atual, Michel Temer, estão na lista. A exceção é Fernando Henrique Cardoso, até agora incólume. Pois, pois, louvemos a obra e a coragem de um juiz, o paranaense Sérgio Moro.

Vejam os senadores do Paraná. Os três foram delatados. Gleisi Hoffmann, do PT, por levar um troco do petrolão, segundo os depoimentos do doleiro Alberto Yousseff e do ex-dirigente da Petrobras Paulo Roberto Costa. Requião, indicado por Sergio Machado, também se beneficiou de um repasse feito pela Friboi. Alvaro Dias reaparece no noticiário por conta da delação de Pedro Correa.

A sensação é de que tudo está dominado pela corrupção, que foi elevada à condição de método e sistema pelos governos do PT e seus aliados, o que aprofundou os piores vícios da vida brasileira sob o regime do Estado patrimonialista, que não permite separar os interesses públicos dos privados.

Os petistas foram os primeiros denunciados e condenados, a partir do mensalão. Agora sobram denúncias para os ex-aliados do lulopetismo, e de quebra para quem, antes na oposição – como os tucanos –, é acusado agora de ter-se comportado exatamente “como todo mundo”.

A delação de Sérgio Machado não contou nenhuma novidade. Confirmou a esbórnia e aumentou a lista dos acusados que sempre frequentaram a política brasileira e se tornaram mais conspícuos desde que a corrupção foi elevada à condição de método pelos governos do PT e seus aliados. As delações da Odebrecht e da OAS, esperadas para logo, prometem amplitude ainda maior.

A população aplaude. A evidência de que pelo menos esse grave problema nacional – a corrupção na vida pública – começa a ser enfrentado com determinação e eficiência. A exacerbação do sentimento de impunidade dos corruptos teve o efeito positivo de estimular o país a reagir homogeneamente. A Operação Lava Jato simboliza esse fenômeno. Por essa razão, ela é intocável. Embora todos os políticos, mesmo a maioria daqueles que em público a defendem, queiram acabar o quanto antes com essa investigação.

Vai sobrar muito pouco da elite política nacional e ninguém sabe o que poderá vir depois. Mas o importante é que o processo de corrupção está sendo revelado. E outras lideranças deverão surgir para substituir os que agora são rejeitados pela população. Levantamento do instituto Paraná Pesquisas avaliou que os possíveis candidatos a presidente em 2018 são rejeitados, em média, por 62,6% dos eleitores. A pesquisa atesta: 73,4% disseram não votar “de jeito nenhum” em Lula, fazendo do petista o mais rejeitado dos candidatos; 62% não votam em Geraldo Alckmin (PSDB); 61,9% em Aécio Neves (PSDB); 58,2% em José Serra (PSDB) e 57,5% em Marina (Rede).

Lula, que há um ano parecia imbatível, tem o menor “potencial de votos”: apenas 13,9% disseram “poder votar” no ex-presidente. Serra tem 32,2%, Marina 30% e Aécio 26,8%.
Paraná Pesquisas aponta que 63,2% dos brasileiros preferem novas eleições ante 24,4% que opinaram pela permanência do presidente Michel Temer (PMDB) e 9,6% pela volta da presidente Dilma Rousseff (PT). Para 75,8%, Dilma foi vítima dos seus próprios erros e 21,2% afirmaram que a petista foi vítima de um golpe. E para 81,6%, o ex-presidente Lula (PT) fez mal ao aceitar que as empreiteiras reformassem de graça o apartamento no Guarujá e o sítio em Atibaia (SP) enquanto para 7,3%, o petista fez bem em aceitar as reformas.

Estamos longe de ter alcançado a contemporaneidade do mundo. A condição para que a modernidade aflore em países como o nosso, que foram sujeitados a processos de modernização estaria em reconhecer que ela não admite atalhos, saltos, vantagens do atraso, intervenções “pelo alto”, mesmo as bem intencionadas – “o relógio da história, diz Raimundo Faoro, não se deixa acelerar”. Seu caminho é difícil e importa em recusar, num país como o Brasil, a hipoteca de séculos de patrimonialismo.

Leia mais

Deixe uma resposta