O começo do fim de Eduardo Cunha

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Caiu mais um cardeal da política brasileira. Sua ascensão foi planejada e rápida. Começou nas eleições de 2014. Eduardo Cunha ajudou a financiar candidaturas de seus fiéis em todo o Brasil. Teve a colaboração decisiva de igrejas evangélicas. Conseguiu constituir uma bancada de 150 deputados federais instalados em partidos de diversas siglas e cataduras. Tornou-se assim um dos políticos mais fortes do país. O passo seguinte foi eleger-se presidente da Câmara Federal. No cargo, com inteligência e habilidade, passou a dominar a cena política brasileira.

Deu-se o inevitável. Seu apetite pelo poder levou-o a tentar subordinar o governo para fazer valer os seus interesses e a resposta veio rápida. A reação do governo Dilma Rousseff, e do PT, passou de ambígua, de alianças pontuais, para um confronto radical. O rompimento final se deu no Conselho de Ética da Câmara, onde corria um pedido de cassação do mandato de Cunha. Se o PT votasse a seu favor, o pedido seria arquivado. Mas Cunha teve três votos petistas contra ele. Em represália, no dia seguinte colocou em pauta o pedido de impeachment de Dilma Rousseff. E proclamou:
– Ela vai cair antes do que eu.

Dilma está afastada, com o cargo suspenso e tem chances menos do que mínimas de voltar. Eduardo Cunha, depois de driblar o Conselho de Ética por 8 meses, teve sua denúncia de que mentiu ao não admitir que tem contas no exterior, aprovada. Agora, ela deságua no plenário da Câmara e suas chances de barrá-la também são mínimas.

Sua vida está mais enrolada do que aparece no processo movido contra ele na Câmara. Eduardo Cunha foi afastado da presidência e ao mesmo tempo responde a uma longa lista de acusações no âmbito das investigações da Operação Lava Jato. A mulher dele, a jornalista Claudia Cruz, também é ré no mesmo caso. Cunha, cujo pedido de cassação vai a plenário, nega que tenha cometido qualquer irregularidade.

O deputado é réu no STF num processo que aponta recebimento de 5 milhões de dólares pagos como propina para liberar contrato do estaleiro Samsung Heavy com a Petrobras. A Procuradoria Geral da República, conduzida por Rodrigo Janot, que chegou a pedir a prisão de Cunha, protocolou denúncia contra ele por recebimento de propina de 52 milhões de reais em obras no Porto Maravilha.

De acordo com o Ministério Público, Cunha também se utilizou de requerimentos parlamentares para pressionar donos do grupo Schahin para manter contratos com o doleiro Lúcio Funaro. A Procuradoria-geral da República sustenta que o deputado interferiu para que a CPI da Petrobras contratasse a empresa de arapongas Kroll, com o objetivo de desmentir o que estava sendo dito por delatores da Lava Jato.

Janot, quando pediu que o STF o afastasse do cargo, disse que ele fez “manobras espúrias” para evitar investigação na Câmara com obstrução da pauta com intuito de se beneficiar. Ameaçou o deputado Fausto Pinato, ex-relator do processo de cassação no Conselho de Ética da Câmara.

Sua esposa, Cláudia Cruz, e a filha, Danielle Dytz, foram acusadas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. As duas estão na mira da Operação Lava Jato. Cláudia e Danielle movimentaram 1 milhão de dólares com um cartão de crédito ligado à conta offshore “Köpek”, na Suíça, da qual Cláudia é a única controladora. Ela se transformou em ré e deve ser julgada pelo juiz Sérgio Moro.

A maior parte do dinheiro da Köpek vem de três contas offshore de titularidade de Cunha, chamadas Triumph, Netherton e Orion.
Essas contas ficaram famosas após o deputado afirmar, na CPI da Petrobras, que não tinha contas no exterior. Quando surgiram os documentos suíços, Cunha foi acusado de mentir e de, portanto, quebrar o decoro parlamentar.

A força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba, protocolou ação civil pública de improbidade administrativa contra Cunha por ele ter se beneficiado do esquema de corrupção na Diretoria Internacional da Petrobras. Os procuradores pedem a suspensão dos direitos políticos de Cunha por dez anos e pedem que ele pague uma multa de 270 milhões de reais. Por ser uma ação civil pública, o processo corre na primeira instância na Justiça, mesmo Cunha tendo a prerrogativa de foro privilegiado.

Em resposta a essa ação, um juiz do Paraná congelou os bens de Cunha e de sua mulher, Cláudia Cruz. Autorizou ainda a quebra de sigilo bancário de Cunha desde 2007. O deputado afastado anunciou que vai recorrer.

Como se vê, não é fácil a situação de Eduardo Cunha. Ele se transformou em figura emblemática da política brasileira e seus vícios. Ainda exerce comando sobre uma parte da bancada que elegeu. Mas hoje, nove em cada dez políticos brasileiros apostam em sua cassação. E, também que, na condição de réu comum, terá uma pena lavrada pelo juiz Sérgio Moro, o homem que Eduardo Cunha quer evitar a qualquer preço.

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