Para desespero do neófobo

paulo-177

Sou inegavelmente um neófobo. Não me orgulho disso. Aprendi a ser assim depois de inúmeras decepções com jovens gênios, promessas, supostos virtuoses das letras e coisas afins. É uma pena, eu sei. Provavelmente ando perdendo a oportunidade de ler muitas coisas boas.

Neófobo que sou, pois, foi com aquele olhar meio constrangido que recebi toda prosa (assim, em minúsculas mesmo), de Adriana Sydor. Aquele sorriso amarelo. E aquela certeza de que jamais perderia meu tempo lendo o livro de uma autora desconhecida.

No táxi a caminho de casa, porém, eis que me vejo tomado subitamente pela vontade de saber o que andam escrevendo os “novos”. Não é uma sensação elevada porque, confesso, o que espero encontrar é algo que reforce minha antevisão pessimista quanto à literatura brasileira contemporânea. Me senti meio masoquista abrindo o livro. Como se precisasse dos defeitos de sempre (a pontuação mal feita, rimas, cacófatos) para me sentir superior – ainda que inegavelmente infeliz e literariamente solitário.

Eis que abro o livro de crônicas a esmo, leio um parágrafo qualquer e fico pasmo. Nada menos do que pasmo. Porque há anos não lia nada tão bom quanto a prosa de Adriana Sydor. Fico tão perplexo que sou obrigado a reler o parágrafo. E tresler. Meu lado mais pessimista (um que raramente prevalece, mas) me manda abrir o livro em outro trecho, na crença de que o bom texto é exceção, não regra.

Mas felizmente me engano de novo. E, ao chegar em casa, me ponho a ler as crônicas todas, vendo derrubadas todas as minhas reservas neófobas. A cada parágrafo, uma boa surpresa: aquele adjetivo bem colocado, aquela imagem surpreendente, os pontos nos lugares certos, o ritmo constante. E o melhor: o equilíbrio entre a norma culta e a coloquialidade.

Aos poucos, porém, o entusiasmo cede ao rigor. E aqui talvez seja necessário diferenciar o rigor de um leitor exigente da neofobia já expressada. A neofobia é perniciosa. O neófobo não chega nem perto do objeto de sua fobia e, se por acaso tem contato com ele, sua aversão é imediata. E principalmente irracional. Já o rigor só faz bem ao leitor (e ao escritor). O rigor é um sinal de deferência. Hoje em dia só sou rigoroso com os raros escritores contemporâneos que respeito.

O que mais incomoda na prosa de Adriana Sydor é a sujeição exacerbada da forma ao prosaísmo próprio da crônica. Isso está mais evidente no uso indiscriminado das letras minúsculas – o que já começa no título. O que parece só um capricho ou até mesmo uma excentricidade é tão-somente um recurso infantil que tenta reforçar o elo entre o texto impresso e a Internet, ao mesmo tempo enfatizando artificialmente a coloquialidade do texto. A verdade, porém, é que as letras minúsculas, bem como a falta de uma marcação clara dos parágrafos, tiram a atenção do leitor para o que o livro tem de melhor: o texto primoroso.

Outro senão (ainda que um senãozinho) fica por conta do prosaísmo do conjunto de crônicas que compõem o volume. Sydor fala do quartinho dos fundos, do frio, da chegada da primavera, de conversas a esmo, e por aí vai. Talvez seja um defeito próprio da crônica contemporânea, perdida entre a necessidade de expressar o cotidiano e a completa banalização deste mesmo cotidiano. Há, claro, certa beleza nestas banalidades do dia a dia. Mas a sucessão de não-acontecimentos cansa até mesmo os olhos mais generosos.

Rigores de leitor à parte, o que fica da prosa de Adriana Sydor é o domínio da linguagem, a capacidade de transmitir com beleza as imagens que lhe ocorrem, o coloquialismo natural e gracioso. Agora só resta me esperar que a escritora ambicione mergulhar um pouco mais na alma humana. Para usar a referência gasta do conselho de Guimarães Rosa a Fernando Sabino, e obviamente desvirtuando a sisudez do primeiro, diria que espero que, em breve, Sydor construa uma pirâmide sólida feita de gostosos biscoitos.

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