Tainha recheada

TAINHA-RECHEADA-ASSADA-H

Meu improvável turismo aconteceu no outono do ano passado quando aceitei convite de um amigo para aventura pela baía. Embora não tenha aptidões náuticas, está em mim certa sedução em largar terra firme vez ou outra, a começar pelo rum, que sempre está presente nesse tipo de passeio.

Embarcados, acompanhados por capitão e copeira, passeamos pela Baía de Paranaguá por um tempo que não sei precisar, porque o mar faz isso, permite o desligamento da vida prática. Tive o contentamento de ver raias voadoras e cardumes de golfinhos num dia de semana em que escritórios fervem de gente e as ruas estão apinhadas de automóveis e buzinas. Na medida em que navegávamos as surpresas se revelavam milagrosas em nossa frente.

Mais por sugestão do capitão do que por iniciativa nossa, aceitamos convite para ancorar no pequeno povoado, onde nos garantiu, entusiasmado, que almoçaríamos com tranquilidade e conforto.

A Ilha do Teixeira é um pequeno paraíso perdido e largado entre Antonina e Paranaguá, mais para Antonina, embora pertença à agenda do outro município. Um pouco mais que cinquenta famílias vivem lá e se sustentam pela pesca e a criação de mariscos. Ao perceber aquele cotidiano tão simples não pude deixar de lembrar das palavras de James Salter em “Um esporte e um passatempo”: É nas cidades pequenas que a gente descobre um país, naquele tipo de conhecimento que se adquire com os dias e noites sem importância…

De fato minhas viagens pelo mundo sempre me mostraram que é no interior que a vida se mostra ainda com alguma característica intrínseca, sem a contaminação de modelos globais ou a vontade de se parecer com tudo que não tem marca própria. Os costumes na Ilha do Teixeira ainda obedecem àquelas ingenuidades de vilarejos. Gosto muito disso, sou um homem do mundo, mas tenho forte a comoção de minhas raízes interioranas e até, perdoe leitor, uma melancolia inacabável ao pensar nisso.

Voltando ao dia, que é o que importa aqui, foi num endereço muito simples que experimentei a tainha recheada que agora indico nesse repositório de receitas.

Imaginei que seria servida uma tainha na brasa, mas para minha sorte, no dia e futura, o prato foi assado no forno, reproduzi muitas vezes em casa e, garanto, não há mistérios que impeçam você também de fazê-lo, o segredo maior está na escolha do peixe, que tem que ser fresco e como vocês podem imaginar, saí da Ilha do Teixeira com o melhor contato de fornecedor.

 

Ingredientes

• 1 tainha inteira e limpa
• 500 g de camarão sete barbas
sem casacas
• farinha fina de mandioca
• limão
• sal
• azeite de oliva
• cheiro verde
• alfavaca
• 1 cebola
• 3 tomates sem pele e sem semente
• colorau
• palitos de dente
• papel laminado

Preparo

Meio limão é o que basta para que você dispare na tainha um aroma essencial. Eu passo a rodela em todo seu corpo, é um movimento leve feito em dois tempos, na medida em que o limão desliza, espremo-o para que o suco saia por igual. Depois, um pouquinho de sal e ela descansa enquanto preparo o recheio.

Um pouco de azeite de oliva na panela, douro a cebola e depois junto os tomates, que no calor se dissolvem e derretem para formar uma cama quentinha e dourada para os camarões.

O tempo dos camarões é curto, apenas para misturá-los e dar-lhes um pouco de cor, em seguida, água e farinha de mandioca. É importante mexer o pirão o tempo todo, para que não grude no fundo nem crie pelotas. Eu não gosto de recheio com pouca cor, então adiciono colorau até que fique esteticamente perfeito. O ponto para que você pare é quando a farinha já está cozida e perdeu a textura de areia e a papa bem grossa, firme, rígida. Desligo a panela e acrescento o tempero verde: salsinha, cebolinha e alfavaca. Há quem goste de utilizar pimenta nesse preparo, mas prefiro deixar que os convidados a acrescentem à gosto, na mesa.

Rechear a tainha é tarefa simples e nem preciso comentar, basta colocar o pirão em sua barriga e fechá-la, faço isso usando palitos. Tem gente mais paciente e habilidosa que a costura com linha de nylon e agulha.

Unto o papel laminado com azeite de oliva e envolvo toda a tainha com ele. No forno baixo, a depender do seu tamanho, leva em média uma hora para que fique no ponto de tirá-la do alumínio. Gosto de, depois disso, ainda deixa-la por mais uns 20 minutos ardendo no forno, para que perca um pouco de água e gordura.

Para servi-la, faço uma cama com ervas frescas, além do cheiro-verde e da alfavaca, coentro e alecrim, que emprestam um gosto leve e delicado ao peixe.

Assim, sem grandes esforços, é que aprendi a fazer e que gosto de servir aqui em casa. Na Ilha Teixeira, nos acompanhou caipirinha, em meus jantares sirvo junto um Barolo da província de Cuneo, com envelhecimento mínimo de três anos.

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