Vaia, um direito gutural

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Como o bebê ao nascer dá o seu sinal de vida com o choro alentador para os pais, realçando-lhe a saúde e a bem-aventurança, a vaia em atos políticos é a contestação mais forte e instintiva nessas situações, e também nas artísticas. Aí se incluem as vaias a cantores clássicos como teria ocorrido com o genial Luciano Pavarotti (imaginem a sofisticação do contestante ao captar falhas numa ária) e também aquelas mais aristocráticas à boca fechada, rumor mais delicado e, talvez por isso mesmo, de maior impacto ofensivo. Ou ainda no plano artístico aquela cena de um dos festivais da TV Record com o Sergio Ricardo quebrando o violão e atirando-o no público.

Raramente se vai ao teatro para vaiar, posto que isso seja mais adequado em estádios de futebol como se deu, de forma cabal, com Dilma Rousseff na Copa do Mundo. O maior dos líderes populistas deste Brasil, Getúlio Vargas, foi vaiado em um 1º de Maio no Pacaembu, isso pela plebe, e no hipódromo do Rio de Janeiro, num Grande Prêmio Brasil, pelos bacanas. No futebol vaia-se, sem constrangimento, até minuto de silêncio.

Aqui no Paraná tivemos duas situações no Guairão, uma com Jaime Lerner, essa mais delicada porque feita à “bocca chiusa”; outra, essa grandiloquente, atingindo o então governador Roberto Requião e, o que foi pior para ele, na presença do seu ídolo bolivariano Hugo Chavez, governante da Venezuela.

Requião indignou-se com uma faixa assentada perto do palco que o acusava do óbvio nepotismo (um irmão na pasta da Educação, outro cuidando do Porto e a esposa, dona Maristela, o Museu Oscar Niemeyer, isso sem falar na irmã, Lúcia, no Provopar), que era objeto de uma PEC, Proposta de Emenda Constitucional, do deputado Tadeu Veneri. Como de costume o governador agrediu os autores da faixa e teve como resposta uma vaia ciclópica, daquelas raramente vistas em situações análogas.

Há situações em que a autoridade se sente, mesmo no interior do palácio legislativo, sob o constrangimento das galerias barulhentas. Isso se deu nos anos 1950 com os operários (a maioria nordestinos sofrendo a quase impossível convivência com o frio curitibano, geadas quase diárias) do Centro Cívico em protesto contra ações policiais quando presidia a Casa o deputado Antonio Anibelli, avô do Anibellinho de agora. Como o alarido persistia, o presidente fez a advertência de que se a perturbação persistisse, ele faria soar os tímpanos e, em seguida, determinaria a evacuação das galerias.

No meio do comitê de imprensa estava o Gamaliel Bueno Galvão, PTB de linha obreira, que se dirigiu ao correligionário presidente como se estivesse numa convenção partidária e, simulando postura de deputado, pediu-lhe um insólito aparte.
– Vo-vo-vossa Exce-exce-excelência permite um aparte?

Espantado com aquela interferência, Anibelli, como se tivesse consentido o aparte, ainda teve que ouvir a gaguejante peroração do Gamaliel “Vo-vo-vossa Excelência é um tra-tra-traidor fi-fi-filho da ma-mãe!” Vaia, isolada, também é vaia, o aplauso de quem não concorda como sugere Roberto Campos, o Bob Fields. Do Gamaliel há outras como deputado federal quando, lá do meio do plenário, ao ouvir um discurso do Jarbas Passarinho, o chamava de fa-fa-fascista e se escondia entre os colegas parlamentares, uma reencarnação do Pedro Malazarte.

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