Vem cá, meu bem

bem-177

(Ou de como os políticos brasileiros se dedicam ao toma lá, dá cá)

 

Vem cá, meu bem é expressão corrente no mundo político como chamado para acertos de propinas em troca de voto e apoio político. Há outras. O ex-tesoureiro do PT, João Vaccari, ligava para empreiteiros e banqueiros para exigir o “pixuleco” do PT. Há as antigas. Políticos que ainda pedem o jabá, o michê, o cascalho, o mel, o me faz feliz. Tudo significa a mesma coisa: dinheiro da corrupção. Prática tão estabelecida e agora tão extensa e sofisticada depois dos aperfeiçoamentos feitos por Lula e pelo PT, que um senador mais cínico justifica com a frase de São Francisco de Assis: “é dando que se recebe”.

Chegamos a tamanho descalabro moral que um dos principais homens do petismo, o paranaense Gilbertinho Carvalho, ex-ministro de Lula e de Dilma Rousseff, membro da alta cúpula do PT, que de sacristão passou a pulha, afirmou que é “a coisa mais natural do mundo” que empreiteiras prestem favor a governantes e ex-governantes, e onde fraudar contratos de merenda escolar e enfiar uma parte do dinheiro no bolso é uma prática aceita com um olhar complacente? É a moral do “Vem cá, meu bem, leva essa grana e em troca apoie mais falcatruas.”

Por essas e outras, nove em cada dez brasileiros não confiam em político, partidos políticos e demais instituições políticas. A Lava Jato abriu as entranhas do sistema e flagrou a sujeira. Além dos já indiciados e investigados por corrupção, não há, a rigor, ninguém acima de qualquer suspeita. Nunca, antes, como diria Lula, chegamos a tanto.

Mas tudo isso, enfim, seria pouco se os nossos governantes e os nossos políticos não fossem, quase todos, dotados de uma ambição de mando, uma sede de poder e de riqueza absolutamente desproporcionais ao seu talento para governar. O país está enfiado numa crise econômica sem precedentes. Um rombo de R$ 190 bilhões de reais nas contas públicas. E subindo.

De maus bofes, o brasileiro comum espia o futuro próximo e se apavora. Enxerga o desemprego crescente, a inflação, o salário corroído pela alta dos preços, a pobreza que aumenta, os serviços públicos deteriorados. Muitos já viram esse filme e sabem como é trágico viver nessa situação. Sem esperanças.

Foi mais uma decepção. Lula e o PT representavam a grande chance de, enfim, superarmos nosso atraso político, social, mental e tudo mais. O fracasso é isso que estamos a ver e experimentar. A história tem sido madrasta.

Saímos do regime fardado com o coração cheio de esperanças e de ilusões. Quando Ulysses Guimarães saudou de braços abertos a “Constituição Cidadã” de 1988, parecia que o país tinha encontrado finalmente a terra onde correm os rios de leite e mel. Uma penca graúda de direitos saltou da Constituição como se o Brasil tivesse descoberto o reino da social-democracia perfeita: muitos direitos, alguns deveres e a felicidade, o bem-estar e a imortalidade garantidas por lei.

Falhou, é claro. Não há almoço grátis. Elegemos Tancredo, morreu Tancredo, veio José Sarney, o Plano Cruzado, um pequeno momento de prosperidade e bem-estar. Depois, o caos. Vieram os anos de remendos e de reconstrução do Plano Real, quando se tentou construir uma plataforma de relançamento de um país mais responsável e com os pés no chão, assentado sobre uma moeda que tinha deixado de ser a caricatura que foi durante todos os anos em que mudou de cara, de nome e de valor, até virar uma piada de mau gosto, que em 29 anos perdeu 1.142.332.741.811.850% de seu valor. Isso mesmo: um quatrilhão e alguns quebrados.

Nova esperança fajuta. O primeiro presidente eleito pelo povo depois da ditadura foi afastado por impeachment. Collor de Mello não passava de um aventureiro carreirista que pensava mais em seus jardins do que em seu País. Um malandro falsamente sofisticado, com ares de finório, vulgar como um novo-rico, colecionador de Lamborghinis e uma vocação de estroina.
Sucedeu-lhe Itamar Franco, que se ocupou de pôr a casa em ordem com a ajuda de cabeças melhores, especialmente a de Fernando Henrique Cardoso, que acabou por se eleger presidente por duas vezes. O patrimonialismo e o populismo tão arraigados na alma brasileira tiveram um breve descanso, até que voltamos de repente aos rios de leite e mel, só que sem leite e sem mel. FHC, depois de oito anos, deixou inflação em patamar alto e uma sociedade ávida por reformas e programas que lhe proporcionassem condições de vida melhores.

Fernando Henrique Cardoso foi um acidente na vida pública brasileira. Preparado, com capacidade de comando, exerceu liderança positiva. Mas não conseguiu escapar dos efeitos perversos que uma reeleição impõem, muito menos fazer o seu sucessor.
Foi então que o Brasil pegou o atalho errado na encruzilhada da estrada e colocou todas as suas esperanças no metalúrgico Lula e no PT. Superados os medos da radicalização à esquerda, de um projeto socializante e coisas tais, prometeu ponderação e adoção de um vasto programa que em cabeças mais fornidas evidencia o que se passou a chamar no mundo de neoliberal.

Lula e o PT representavam a grande chance de, enfim, superarmos nosso atraso político, social, mental e tudo mais. O fracasso é isso que estamos a ver e experimentar

Lula abrigou à sua sombra o que de pior tínhamos na política para estabelecer uma base de apoio suficiente no parlamento. E não imaginou outra fórmula que não fosse a de sempre: corromper o maior número de políticos propensos a aceitar benesses, sinecuras, emendas e, é claro, propinas. Tudo em nome da causa, é claro. Não esqueceu de corromper uma parte significativa da mídia.

Assim colocou seu partido e sua banda no sistema da troca de votos, de apoios, por dinheiro que teve de sair de estatais e do erário, por vias nada republicanas, para comprar quem estivesse disposto a ceder sua dignidade, sua honra e, principalmente, seu voto.
Deu no que deu. Os corruptores perceberam que podiam também se corromper e fruir das benesses do dinheiro desviado através do superfaturamento de obras e de serviços. Até que o esquema se complicou, quando um dos negociantes entrou em divergências por dinheiro e interesses e pôs a boca no trombone. Roberto Jefferson levantou a ponta do tapete e mostrou toda a sujeira acumulada. Foi o mensalão.

Outra ponta foi levantada quando o doleiro Alberto Yousseff, investigado por lavagem de dinheiro, abriu a grossa falcatrua que operava para políticos do PT. Foi a derrocada que ainda não terminou. Todos os dias temos novidades sobre a roubalheira. A República, já com aparência de velha e caquética, apresenta rugas de senilidade precoce, mergulha num mar de incompetência e chafurda num universo moral mais parecido com o de uma cloaca do que o de um país jovem, cheio de potencial e de um futuro brilhante pela frente.

Os sinais de fracasso estão em toda parte, no Executivo, no Parlamento, no Judiciário, nos partidos políticos, nas universidades, nas escolas, nos vários segmentos sociais atingidos pelo desalento da falta de um mísero sinal de luz no fim do túnel.

Leia mais

Deixe uma resposta