Cem anos depois, contesto um faroeste

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É ou não é o cenário perfeito para um faroeste? Se eu fosse alguém importante, entregaria a história para Sérgio Leone – óbvio que eu penso num tempo em que ele estaria vivo. Nada contra o John Ford, mas o italiano fez filmes de western na Itália e nós, meros espectadores, acreditamos se tratar do legítimo Oeste americano. E o Tarantino, o único dos três que ainda respira, gosta muito de sangue e disse que se aposentou. Como podemos ver, é também mentiroso, tratar com tratante é complicado.

Eis a história:
Tópico um: havia uma disputa de terra, coisa que o Estado incompetente não conseguiu resolver. O caso foi parar na Suprema Corte e por lá ficou durante anos.

Tópico dois: havia uma gente meio pobre, uma gente meio rica. Fazendeiros. Todos viviam do que a terra dava. Para dar mais veracidade a este western, chamemos as fazendas de ranchos.

Tópico três: este tópico poderia ser acoplado ao um. Merece o título de western, pois de fato aconteceu no oeste. Oeste catarinense, sudoeste paranaense. Como não existem south-westerns, fiquemos só com oeste paranaense.

Tópico quatro: acreditem se quiser, mas também havia uma companhia de trem chegando à região. Lembram em “Era uma vez no Oeste” quando Brett Mc Bain (Frank Wolff) compra uma terra longe, muito longe esperando o dia em que a estrada de ferro chegasse? É mais ou menos isso.

Tópico cinco: havia os rebeldes. Não são mexicanos, mas também falam espanhol.
É perfeito! Este filme só não vai sair porque o Leone morreu e o Tarantino é um mentiroso.
Ah! Tópico seis: é uma longa história, com várias perspectivas. E nisto seria bom ter o tratante do Tarantino por perto, saberia como encaixar perfeitamente os fatos, assim como fez em “Pulp Fiction” e “Cães de aluguel”.

Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.

Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.

A história real

Neste mês de agosto, faz cem anos que Adeodato Manuel de Ramos foi capturado, pondo fim à Guerra do Contestado. E claro que não é com essa displicência a querer realizar um sonho de criança, fazer um western, que a história deve ser tratada.
Milhares de pessoas morreram ou desapareceram, os dados não são convergentes, mas podemos citar oito mil. Também são oito mil pessoas que ficaram desempregadas depois que a Brazil Railway Company concluiu a construção da ferrovia que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul. O empreendimento foi faraônico, pessoas de todo o país foram recrutadas para trabalhar na ferrovia.
“Em 1916, quando o total das vias férreas em exploração no Brasil somavam 23.491 km, a Brazil Railway já dominava quase a metade, ou seja, 11.064 km”, informa o historiador Nilson Thomé.

O acerto com os americanos era que a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, empresa madeireira associada da Brazil Railway, tomaria posse de todas as terras a 15 km para um lado e 15 km para o outro da ferrovia. Pessoas perderam suas terras, e foram elas que, guiadas por José Maria no início, lutaram no Contestado.
Em paralelo, Santa Catarina e Paraná disputavam no STF 48.000 km², justamente a área que os sertanejos perderam em decorrência do acordo com a Lumber.

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O “monge” José Maria, que reuniu os fanáticos em 1912 e que foi morto no Irani, pelas tropas do Paraná. Na foto, o “monge” está rodeado por três “virgens” conforme a crença local.

José Maria

Durante o Segundo Reinado, catarinenses e paranaenses tomaram conhecimento das andanças de um monge italiano, João Maria de Agostini, que viveu por anos com os caboclos da região do Contestado. Pregava um catolicismo rudimentar de muita valia para o contexto local. João Maria ganhou fama, pessoas o veneravam e a prática do milagre foi-lhe atribuída. Da mesma forma que apareceu, sumiu. Mas o amor por João Maria permaneceu.

Depois da conclusão da estrada de ferro, em 1910, surgiu na região Miguel Lucena de Boaventura, um desertor do exército e da polícia paranaense. Sabendo da história de João Maria, não titubeou e intitulou-se José Maria de Santo Agostinho, o sobrinho de João Maria.
José Maria era curandeiro, profeta e defensor da restauração da monarquia, tudo que aquela gente precisava.

A guarda de segurança da Lumber, organização sempre ameaçada pelos jagunços e fanáticos.

A guarda de segurança da Lumber, organização sempre ameaçada pelos jagunços e fanáticos.

Em 1912 ele conseguiu reunir grande número de seguidores, principalmente as pessoas que haviam sido expulsas de suas terras pela Lumber, mas também os que acreditavam que ele era sucessor de João Maria, os que queriam a volta da monarquia e os desempregados.
José Maria e seus seguidores saíram de Taquaruçu, atravessaram o rio do Peixe e adentraram na zona do Contestado. O governo paranaense, vendo aquela movimentação toda, achou por bem expulsá-los. O Coronel João Gualberto, comandante do Regimento de Segurança do Paraná, convocou José Maria a se apresentar para as tropas, o que não aconteceu. Em 22 de outubro de 1912, os soldados invadiram o acampamento dos caboclos para pôr fim à história. João Gualberto matou José Maria e por isso foi morto a facões. As forças paranaenses perderam a primeira batalha, sendo um escândalo em todo o país.

Grupo de fanáticos comendo churrasco após se apresentarem às autoridades locais em Canoinhas.

Grupo de fanáticos comendo churrasco após se apresentarem às autoridades locais em Canoinhas.

Depois da morte de José Maria, seus seguidores ficaram meio que sem rumo, sem saber por que lutavam. Profissionalizaram-se guerrilheiros, dividiram-se em vários grupos. Foi preciso que o governo federal interviesse para pôr fim à guerra, e mesmo depois, com a presença do General Fernando Setembrino de Carvalho, o conflito se estendeu por mais dois anos. As forças caboclas vieram perdendo ânimo no ano de 1915. Em 1916 restou apenas o grupo de Adeodato, capturado em agosto de 1916.

Este é um Contestado. O sangrento. Violento. Heroico. O outro é o político. Santa Catarina e Paraná assinaram um acordo dividindo os territórios em 20 de outubro do mesmo ano. Afonso Camargo – presidente do Paraná – e Filipe Schmidt – presidente de Santa Catarina –, junto com o presidente da República, Wenceslau Braz, chegaram à conclusão de que dos 48 mil km², 20 mil seriam do Paraná e 28 mil de Santa Catarina.

Trincheira de defesa da Lumber em Três Barras. A proteção era feita com dormentes da linha ferroviária.

Trincheira de defesa da Lumber em Três Barras. A proteção era feita com dormentes da linha ferroviária.

Contesto um faroeste

Esta é uma história muito rica em detalhes. Livros e mais livros já foram escritos para contá-la. Lamenta-se que o Contestado não tivera um Euclides da Cunha, como em Canudos. Mas é uma lamentação anacrônica, historiadores já conseguiram contar esta história.
O que não vi – e pode muito bem ser ignorância minha – é um faroeste do Sérgio Leone sobre o Contestado. Se ele não fez, é uma lamentação pertinente e atual. Portanto, se por acaso o Tarantino ler a matéria e se interessar, podemos negociar de trabalhar juntos.
Me incomoda não conseguir achar espaço para o Clint Eastwood. Acho que ele vai ficar para o faroeste da Revolução Federalista. Ou podemos fazer uma franquia como Velozes e Furiosos, que aparentemente nunca terá fim, e encaixá-lo em algum papel.

Revista passada ao 56º Batalhão de Infantaria pelo General Setembrino de Carvalho – janeiro de 1915.

Revista passada ao 56º Batalhão de Infantaria pelo General Setembrino de Carvalho – janeiro de 1915.

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