Corrupção e o elixir da ideologia

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Volta e meia quando os políticos são denunciados pela prática de corrupção a reação é inevitável, como se viu com Lula e Dilma, lembrando da extinta UDN, União Democrática Nacional, que explorava o tema de uma forma genérica e sem clara fundamentação. Numa delas a carga contra Getúlio Vargas, por supostos ganhos de aliados nos impostos da nossa barreira alfandegária das importações, rendeu um processo de impeachment derrotado por ampla maioria.

Não dá pra comparar a corrupção num país pré-industrial, com a Petrobras ainda engatinhando e a Eletrobras sendo anunciada, em discurso de Vargas num encontro da CIBPU, Comissão Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai, no centenário do Paraná, em 1953, com a ocupação e espoliação das estatais de agora já crescedinhas e turbinadas e com um campo de atuação muito maior, inclusive com o avanço da tecnologia de exploração no fundo do mar.

Abra-se aqui um parêntese para explicitar esse lance que testemunhei no salão nobre do Novo Ateneu, mais tarde Faculdade de Direito de Curitiba, em meio às celebrações do centenário: a CIBPU era um órgão que reunia os Estados que compunham a bacia hidrográfica e lá estavam, entre outros, Lucas Nogueira Garcez, de São Paulo, e Juscelino Kubitschek, de Minas. No discurso, Getulio se referiu a conspirações contra a Petrobras e que certamente se dariam com a criação da Eletrobras naquele momento anunciada como peças do seu programa nacional-desenvolvimentista centrado na substituição das importações. No dia seguinte o cartel das empresas internacionais, através de um presidente, que pescava trutas no Canadá, desafiou o dirigente brasileiro a criar a estatal e “dançou”.

Tenta-se sugerir a existência de uma corrupção virtuosa por parte de grandes figuras do PT como seu “premier” Zé Dirceu, isso desde o mensalão e mesmo, depois de preso (lembram daquela saudação vitoriosa dele e depois repetida por outro presidiário André Vargas diante da figura simbólica e desbravadora do presidente do STF, Joaquim Barbosa?) já no espaço do avanço no Petrolão. Não se explica se esse afano era para atender angústias populares ou pessoais, mas de qualquer forma o timbram como decorrente de causa revolucionária, ainda que claudicante e imprecisa não se explicando o sentido da relação associada com as gigantes empreiteiras em tramóias sórdidas, expressões do capitalismo abominado.

Chegamos, portanto, a um divisor, caro ao maniqueísmo do momento, aquele que levou Marilena Chauí, filósofa petista, a ver em Sergio Moro um agente da CIA montado para tirar o pré-sal da soberania nacional em favor dos grupos internacionais. A teoria conspiratória visa ocultar ou tirar a densidade das evidências do assalto por parte de malandros que tentam travestir-se em combatentes das causas brasileiras.

Como o esquerdismo é uma virtude incontestável essa corrupção nada tem daquela exercida pela direita ou pelos neoliberais: ela é popular e democrática, visa a redenção dos brasileiros e por isso é do bem, já que entre outras coisas nos liberta do jugo internacional e nos prepara para um amanhã socialista e com a remissão das massas, o que não aconteceu nas obtidas com esforço revolucionário e a ditadura do proletariado. É esse tom beatífico, que repele a razão, que fundamenta o esperneio que justifica a corrupção bem intencionada. É a ideologia santificando o ato de botar a mão no jarro.

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