Editorial. Ed. 178

A internet está coalhada de textos, animações, tirinhas e todo tipo de piada sobre as modalidades em que o Brasil poderia ser campeão nos Jogos Olímpicos. De nado com obstáculos a corrida de bala perdida, passando por boxe com batedor de carteira até a novíssima e com muitos campeões argolas, algemas e tornozeleiras, são muitas as anedotas que tomam conta deste momento. Claro, somos o país da piada pronta e nada mais natural que ergamos nosso troféu já que as medalhas são poucas.

O Brasil iniciou seu caminhar pelas Olimpíadas em 1920, lá na Antuérpia, na Bélgica. Começamos com o pé direito. Primeira participação e um honroso 15º lugar em número de medalhas. De lá para cá aumentamos consideravelmente a população, construímos estádios, pistas, velódromos, aceitamos novas tecnologias, reconhecemos talentos e nos exibimos para o mundo. Resultado? Ah!, que saudade dos bons tempos de Antuérpia, nossa melhor colocação até hoje.

No Brasil que falta tudo e sobra muita coisa, o primeiro item a descer a ladeira do descaso é o investimento. As crianças crescem fazendo aulas de educação física que têm jeitão de recreação. Qualquer matrícula em alguma atividade que pareça mais séria e próxima de um esporte de verdade pode ter que fazer pais optarem por pagar a atividade ou comprar o pão de amanhã. Tem atleta que supera tanta dificuldade que treina descalço, que improvisa aparelhos, que pede favores na comunidade, que faz vaquinha para poder comprar material.
O esporte não é investimento em nenhuma modalidade: nem na saúde nem na educação, nem nas competições mundiais. O esporte por aqui é um hobbie para poucos e assunto para muitos em época eleitoral e em tempo de exibicionismo internacional.

Mas veja só, o tiro saiu pela culatra. Os editoriais do mundo expõem nossas capacidades anfitriãs. Não estamos restritos aos cadernos esportivos, passeamos por vários assuntos exibindo a realidade de país subdesenvolvido que se mete a besta. Somos um Brasil esfarrapado que tenta se enfiar numa roupa chique para participar de festa de gala. Não dá certo. A Austrália bate três vezes na madeira ao ver nossa bandeira, teve atleta assaltado por policial, deboche de governante sobre a estrutura de suas acomodações e ciclistas se espatifando na sujeira do velódromo. Os chineses publicaram fotos de suas instalações: pias quebradas, instalação de cortinas em box de banheiro, ralos entupidos e uma série de coisas que se multiplica de acordo com a experiência de cada atleta, dentro ou fora da Vila Olímpica.

O pessoal de uma TV da Alemanha teve equipamentos roubados – algumas câmeras e microfones? Não! Dois contêineres inteiros, na Avenida Brasil. Alguns atletas ingleses não souberem responder se têm mais medo de mosquito ou dos detritos da baía de Guanabara.
Parece que o Brasil não se cansa de bater recordes, mais uma vez o mundo se curva diante de nós. Curva-se de rir. Somos medalhistas insuperáveis no deboche internacional.

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