Muito Brasil, pouca medalha

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Vicente Ferreira, enviado especial ao Rio.

 

Preparem os seus corações. Chegou o tempo dos Jogos Olímpicos do Rio. Até parece que esperamos apaixonadamente por este dia. Os locutores de rádio e TV estão aí para nos dizer que finalmente temos o que desejamos anos a fio. Mas começamos mal, muito mal. Em quatro anos não conseguimos nos preparar para receber as delegações do mundo para o evento. Dinheiro não foi o problema. Sobrou o suficiente para fazer muito mais, o que deixa supor que boa parte foi pelo ralo. O TCU investiga, a Polícia Federal está de olho, o Ministério Público também. Fosse aqui, no território do juiz Sérgio Moro, e os responsáveis pela bandalheira já estariam em maus lençóis. Ou presos. Veremos o que acontecerá depois das Olimpíadas e das investigações.
Por enquanto, driblamos o vexame. Os australianos mal se instalaram e pediram para sair.

Mesmo com obras interminadas e a baía da Guanabara fedendo mais que uma cloaca romana da época dos Bórgias, os jogos vão acontecer e espera-se que a segurança funcione

Voluntários e integrantes da missão decidiram fazer um teste e simularam uma situação real na qual muitas pessoas usaram as instalações ao mesmo tempo. Abriram torneiras, chuveiros e acenderam as luzes. O resultado foi um caos: houve vazamento de gás, abriu-se um buraco no teto e saiu muita fumaça. “Nunca vi uma Vila Olímpica nesse estado. Está inabitável”, disse a chefe da missão Kitty Chiller, que decidiu manter os atletas em quartos de hotel até que fossem feitos os reparos. Imagens divulgadas pela imprensa local mostraram fios à mostra, pisos imundos, goteiras, baldes nos corredores, vasos sanitários entupidos.
Chiller não foi a única que teve que arregaçar as mangas. As delegações dos Estados Unidos, Itália e Holanda contrataram, com seu próprio dinheiro, várias equipes de pedreiros para melhorar os acabamentos de seus apartamentos. A delegação da Finlândia reclamou que os chuveiros não funcionam. Cerca de 20% dos 3.600 apartamentos têm problemas de acabamento, de goteiras ao reboco das paredes caindo aos pedaços.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, tentou minimizar a vergonha fazendo piada, um vício bem brasileiro. O problema é que Paes tem um humor de péssima extração. Ridículo. Disse que providenciaria um canguru para os australianos, que não entraram na dele e responderam que dispensavam o canguru, queriam encanadores.

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Bem, apesar de tudo, mesmo com obras interminadas e a baía da Guanabara fedendo mais que uma cloaca romana da época dos Bórgias, os jogos vão acontecer e espera-se que a segurança, que mobilizou cerca de 50 mil homens de todas as forças armadas, funcione. Para que não ocorram mais casos como o do lutador de jiu-jítsu da Nova Zelândia que sofreu um sequestro relâmpago por homens em farda policial no Rio. Jayson (Jay) Lee foi obrigado a entrar em um carro e a rodar por caixas eletrônicos para sacar dinheiro.

Tudo bem, vamos às Olimpíadas deste Brasil, brasileiro, abençoado por Deus, bonito por natureza e governado por pulhas e assemelhados. Enfarados das notícias policiais da política, agora podemos descobrir todos os encantos das provas de adestramento, canoagem, arco e flecha. Agora aprenderemos a manejar o sabre e a lançar o dardo. Mergulharemos nas emoções dos grandes eventos e daremos uma pausa na amarga sucessão de matérias sobre aquilo em que estamos no topo mundial, a capacidade para a corrupção.

Nossa mania de grandeza uivou de alegria com a indicação do Rio de Janeiro para sede dos Jogos deste ano. Estávamos preparados? Tudo diz que não

Que bom, a tevê vai transformar a nossa casa em uma dependência da Vila Olímpica. Quem sabe, num dia desses, tomamos o caminho do trabalho calçando sapatilhas de prego, ou substituímos a modorra matinal pela prática do arremesso do martelo na sala de estar.

Será difícil, mesmo para cidadãos desatentos, deixar de participar das Olimpíadas, a primeira no Brasil. Nem por isso, estaremos preparados para curvar o mundo sob nossa grandeza. O Brasil comparece com uma representação jornalística imponente e com uma delegação idem, dignas uma e outra de um país rico e muito saudável. É assim mesmo. Aquele pedaço de Brasil que rivaliza com a Bélgica gosta de ostentar a sua pujança, mesmo na maior crise da história desta imensa republiqueta enquanto a outra parte vive muito pior que, por exemplo, as camadas mais pobres da Índia.

Tudo bem, dizem as almas parvas. O Brasil confirmará no Rio de Janeiro, abençoado por Deus, bonito por natureza e mais sujo que o Ganges, a sua condição de país secundário, no esporte e em outros domínios, apesar das suas manias de grandeza. Mais de 300 atletas brasileiros não colherão muitas medalhas, mas nada disso prova que sejamos um povo inabilidoso para o esporte. Pelo contrário, a mistura de raças poderia ter multiplicado a aptidão para as práticas mais diversas – e não se deu por acaso que o traço mais marcante do futebol brasileiro fosse, e seja ainda, a habilidade individual.

De resto, a medicina esportiva e do treinamento cada vez mais específico demonstraram ser possível tornar superatletas não somente os talentosos, mas também os aplicados. E as estatísticas provam que a chance de medalhas olímpicas corresponde, quase matematicamente, ao número de praticantes. Algo assim como uma medalha de bronze a cada 10 mil, de prata a cada 50 mil, de ouro a cada 100 mil.

Nossa mania de grandeza uivou de alegria com a indicação do Rio de Janeiro para sede dos Jogos deste ano. Estávamos preparados? Tudo diz que não. As Olimpíadas vão seguir sem que todas as obras projetadas estejam prontas. Fora as gambiarras, aqui e ali, a baía de Guanabara mais suja que o Congresso Nacional, a ponto de países recomendarem aos seus atletas náuticos a desistir do evento para evitar contaminações. Pois, pois, há denúncias de rombos e falcatruas no dinheiro que acabou apor faltar no final, o que obrigou o Rio de Janeiro a decretar estado de calamidade pública, uma espécie de reconhecimento legal de uma situação anormal, normalmente provocada por desastres que causam sérios danos à comunidade afetada. O principal objetivo desse decreto foi conseguir mais empréstimos para a conclusão de obras e pagamento de serviços ligados aos Jogos Olímpicos.

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E a segurança? Todos torcemos para que nada de extraordinário aconteça. Começamos mal. Logo no inicio de julho dois contêineres com equipamentos de transmissão de uma TV alemã para cobrir a Olimpíada foram roubados. Na mão grande. Na avenida Brasil. Os equipamentos chegaram de navio no porto do Rio e seriam levados em direção ao Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Imaginem a repercussão na Europa e no mundo civilizado, onde a imprensa já andava a assustar cidadãos que poderiam vir ao Rio batendo diariamente nas notícias sobre a violência, assaltos, balas perdidas e, para finalizar, a zika, a dengue, a chicungunha e outras epidemias.

Tudo bem, os turistas estão no Rio. Voltemos ao drama do esporte nacional. O problema do esporte brasileiro é obviamente social. Começa na carência de proteínas e acaba na miséria de boa parte. Há quem vibre com vitórias brasileiras, do futebol ao atletismo – e se ganhássemos no tiro ao pombo também ficaríamos eufóricos. No entanto, a vitória mais notável teríamos de consegui-la é contra o atraso e a ignorância. Quer dizer, contra nós mesmos, estabelecidos na porção belga, digamos assim, e que não ligamos a mínima para os habitantes da outra porção. Embora cruzemos com eles todos os dias.

As Olimpíadas, como outros torneios e campeonatos, são eventos grandiosos, belos e emocionantes, inclusive porque neles palpita a chama do conflito. O inventor dos Jogos, o Barão de Coubertin, dizia que o importante é competir. Não se sabe se primava pela ingenuidade ou pela hipocrisia. Importante é ganhar, está claro. Há, porém entendimentos diversos a respeito da vitória. Uma posição pouco recomendável, embora a mais comum, enxerga a honra nacional nos pés de um velocista ou nos traços de um nadador.

As plateias dos estádios e dos ginásios não costumam ser frequentadas por estetas em busca de espetáculos e requinte, ou por comovidos crentes na perfectibilidade do homem. Ao contrário, são tomadas por torcedores escassamente inclinados a aceitar olimpicamente a derrota dos seus heróis. Torcer é uma excelente forma de soltar a rédea dos recalques, o que pode significar rezar para que o adversário sofra uma entorse e, se for preciso, quebre a perna. As torcidas são naturalmente facciosas, bairristas, chauvinistas, e não é por aí que se iluminam as almas.

Mas piores que os sentimentos que movem as torcidas, muito piores, são os interesses políticos eventualmente desenrolados atrás de grandes acontecimentos esportivos como as Olimpíadas. A imprensa farta-se de contar aventuras de notórios exploradores da paixão esportiva, como Hitler e Mussolini. Qualquer um percebe, além disso que os países com vocação imperial, como EUA e China, vão às Olimpíadas para demonstrar algo mais que o vigor de sua mocidade.

Há o esporte em si, e há a propaganda do esporte e ela alveja um fim que pretende justificar péssimos meios. Dentro dos nossos limites provincianos, a história do esporte brasileiro está longe de ser edificante, até porque é um capítulo eivado de prepotências e parcos resultados. A história não acabou, como se verifica neste momento em que o noticiário dos Jogos tão próximos, ali no Rio de Janeiro, assoberba o país. No mínimo pode-se comentar que nestas Olimpíadas, mais uma vez, há brasileiros demais para poucas medalhas.

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