Música Erudita. Ed. 178 – Scott Joplin e Erik Satie

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Ouvi agora este cd que ganhei há anos e o deixei na pilha dos meus preconceitos. Pois, pois, gostei. No lado A, duas peças de Erik Satie – Satie, o compositor erudito, que exerceu influência sobre Debussy, Ravel e Stravinsky, um músico sofisticado, amigo de Jean Cocteau e Pablo Picasso, autor de uma obra que surgiu em meio às experiências impressionistas e cubistas na refinada França do início do século. No lado B, sete curtas composições de Scott Joplin – Joplin, negro do então pouco desenvolvido Sul dos Estados Unidos, filho de um ex-escravo, e que morreria num asilo de doentes mentais, autor de ragtimes, a música que era considerada pela fina sociedade norte-americana como vulgar e imoral, música de divertimento, feita para ser tocada em bordéis, bares e casas de jogos.

Apressei-me a ler sobre Clara Sverner, uma das mais conceituadas e conhecidas pianistas eruditas do Brasil, que tem uma discografia recheada de originalidades. Com uma sólida formação clássica. Foi discípula de José Kliass, com curso de aperfeiçoamento em Genebra (onde ganhou medalha de ouro em 1957) e passagem pelo Mannes College of Music de Nova York, prêmios e reconhecimento internacionais, é paulista radicada há muitos anos no Rio de Janeiro, inteligente e de bom gosto como se vê.

O diretor do Conservatório de Genebra, depois de elogiar seu talento, advertiu-a de que ela gostava de tocar “muita coisa moderna”, Clara Sverner foi, por exemplo, a primeira brasileira a gravar aqui obras dos eruditos contemporâneos Alban Berg e Anton Webern (em seu terceiro LP, de 1974). Foi também a primeira instrumentista a gravar um LP só com obras do ainda pouquíssimo conhecido, entre o grande público, Glauco Velásquez (1882-1914), um carioca nascido em Nápoles (em seu quarto LP, de 1977). Foi dos pouquíssimos instrumentistas eruditos a gravar LPs só com música popular brasileira – primeiro no LP Rio de Janeiro – Álbum Pitoresco-Musical, e depois nos dois volumes de O Piano de Chiquinha Gonzaga, lançados, em 1980 e 1981, com um extraordinário sucesso (cada um dos dois LPs vendeu cerca de 15 mil cópias, quando em geral um disco de instrumentista erudito no Brasil não chegava a vender mais que duas mil cópias).

O encontro do piano erudito com o saxofone jazzístico, promovido no LP de 1983, havia sido primeiramente imaginado por Clara Sverner para se realizar com Victor Assis Brasil. Em 1980 os dois já haviam inclusive escolhido parte do repertório do disco que gravariam juntos – mas o projeto foi destruído pela prematura morte do saxofonista, em 1981. Clara já havia começado a tocar em dueto com Paulo Moura quando, em 1982, iniciou nova parceria, justamente com o irmão gêmeo de Victor, o pianista erudito João Carlos Assis Brasil, aluno de Jacques Klein, com cursos de aperfeiçoamento em Paris, Viena e Londres, e uma sólida reputação como concertista em vários países europeus.

O poeta Augusto de Campos, no seu texto do encarte do LP Joplin – Satie, fala de acasos e contatos, e afirma: “A saúde das artes exige, de quando em vez, para o ar rarefeito das elucubrações e das pesquisas sem tréguas, o oxigênio generoso da intuição e da informalidade. Daí a dialética interpenetração dos avessos que a música experimenta, para além dos rótulos e compartimentos”.

O popular Joplin aspirava um lugar de destaque, dentro da música “culta”, para o seu ragtime – e foi o fracasso de sua ambiciosa ópera “Treemonisha” que agravou a depressão nervosa que o levou ao hospício. O erudito Satie gostava de se divertir com a música dita séria – e inclui, na versão orquestrada da peça “Parade” (apresentada neste LP em versão para dois pianos), ruídos de sirenes, tiros de revólver e máquina de escrever.

Um trecho da composição “Parade” é um ragtime, o estilo de que Joplin foi o grande expoente. Foi o primeiro ragtime composto na Europa como música de concerto.
Satie, aliás, como lembra Augusto de Campos, gostava de tocar ao piano os ragtimes de Jelly Roll Morton. Morton, sabe-se, foi profundamente influenciado por Scott Joplin.

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