O que você falou?

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Os códigos na MPB

 

Há na MPB um mar sem fim de letras que competem com grandes textos literários. A poética é rica e cheia de possibilidades, sabemos bem. Quem teve Vinícius de Moraes, erudito e preparadérrimo escritor a serviço da canção, não tem do que se queixar. As sacadas e construções que nomes como Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Fernando Brant, só para citar alguns letristas, emprestaram às rádios do país um status diferente ao que poderia ser só música.

Boa parte do que temos hoje como um grande legado que ainda serve de inspiração e guia para muitos foi feita por pessoas competentíssimas de ideias e maneiras de distribuí-las de um jeito simples e inteligível para o público comum. Como não se espantar diante da maneira como, por exemplo, Nelson Motta traduziu o pensamento de Heráclito, que esteve por aqui lá pelo século VI a.C.? O filósofo afirmou que “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Ele dispersa-se e reúne-se, avança e se retira”, que saindo da metáfora e traduzindo para termos mais práticos, significa que tudo muda, a vida se transforma, os movimentos que cada acontecimento causa não permitem uma realidade estática. E o amigo Motta tratou disso tudo em “Como uma onda”: “Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa, tudo sempre passará / A vida vem em ondas, como um mar / Num indo e vindo infinito / Tudo que se vê não é / Igual ao que a gente viu a um segundo”. É emocionante ouvir música e sacar mensagens tão simples e por isso mesmo tão geniais, concorda comigo?

Mas há também uma parcela que canta versos que colam na memória e é preciso muito esforço para decifrá-los. E, perdoe a ignorância, leitor, é sobre eles que quero falar hoje, com a intenção pura e deslavada de receber alguma luz e entender o que significam.

dj2Para abrir a edição sobre o que não entendo, Djavan: “Açaí”, música que estampou o quinto álbum do compositor em 1982: “Açaí, guardiã / Zum de besouro um ímã / Branca é a tez da manhã”. Optei por esta, porque já se tornou uma piada que corre solta por aí, mas ela não perderia para outras do compositor que é mestre, mais da sonoridade que do significado. Dia desses vi na internet uma espécie de concurso para decifrar Djavan e também ele é um dos preferidos da turma do Piauí Herald, que tem em suas letras vasto material para tiração de sarro. Mas que fique claro: eu adoro o Djavan, mesmo sem entendê-lo direito.

Acho que o campeão do surrealismo, Zé Ramalho, tem em sua “Frevo mulher” o seu ponto máximo. A música foi composta em 1980, num quarto do Hotel Plaza no Rio de Janeiro (acho que valeria uma plaquinha lá “Nesta suíte Zé Ramalho escreveu ‘Frevo mulher’” – ficaria bonitinho). Foi escrita para entrar no repertório de Amelinha, com quem Zé iniciava um romance. A gravadora não botou fé, decerto o pessoal de lá ficou tão confuso quanto eu e não sacou o potencial da composição, mas mesmo assim, Amelinha gravou. E foi um sucesso. E tem sido um sucesso, ainda que não haja jeito de decodificar: “É quando o tempo sacode / A cabeleira / A trança toda vermelha / Um olho cego vagueia / Procurando por um”.

zr3E o Caetano? Aquelas coisas inteligentes dele nem sempre são muito claras. Ou não. Veja bem, isso não é uma crítica, é só uma constatação que meus neurônios nem sempre são atingidos com sua performance incrível de combinar palavras, caso de “Qualquer coisa”: “Não se avexe não baião de dois / Deixe de manha, deixe de manha / Pois, sem essa aranha, sem essa aranha, / sem essa aranha / Nem a sanha arranha o carro / Nem o sarro arranha a Espanha/ Meça tamanha, meça tamanha, / Esse papo seu já tá de manhã”.

1968, o Brasil dos bons surfava na onda da boa música. O Brasil internacional se esbaldava na mistura com o jazz. Nessa época, João Donato morava na Califórnia, tocava com gente do calibre de Chet Baker. Era reconhecidamente, público, crítica e companheiros de ofício, um grande pianista. Sérgio Mendes fazia estrondoso sucesso por lá acompanhado de seu grupo Brasil 66. Pois Donato, munido de seus instintos masculinos, numa noite improvisou a desculpa de que não havia água em sua casa e pediu para tomar banho no apartamento de uma das cantoras do Brasil 66. Permissão concedida, Donato banhado puxou o violão e começou a tocar a sua “A Rã”, como se estivesse num surto de inspiração. A moça ficou impressionada com o virtuosismo e cedeu aos encantos do sedutor: quarto e gravadora. Sergio Mendes & Brasil 66 entraram em estúdio para tratar do tema alguns dias depois. A história poderia parar por aí, porque “The Frog” e depois “O Sapo”, na execução de João Gilberto, foi um sucesso. Mas quatro anos mais tarde, quando o músico já estava no Brasil, quem resolveu substituir os sons do coaxar de sapos por letra? Caetano Veloso! E lá vamos nós para outros versos, onde o principal é o ouvido, não a mensagem: “Coro de cor / Sombra de som de cor / De mal me quer / De mal me quer / De bem de bem me diz / De me dizendo assim / Serei feliz / Serei feliz de flor / De flor em flor”.

cv1Vez ou outra, um esforço em torno de nossa língua pode nos tirar do limbo. Esclareci os códigos de “W/Brasil” de Jorge Ben Jor com a ajuda da coluna Oráculo da Super Interessante. Uma estrofe inteira da música, de repente passou a fazer sentido: “… Também se refere ao tráfico de drogas, gírias para entregadores (‘avião’), policiais (‘disco voador’) e uma menção ao traficante Escadinha (‘tire essa escada daí’)”. Com uma pequena observação sobre o lance da escada: uma vez Ben Jor disse no programa do Jô, que não era referência ao Escadinha, se tratava mesmo de escada-objeto, que ficava no meio do caminho e atrapalhava Tim Maia onde morava, vai saber: “Jacarezinho, avião / Cuidado com o disco voador / Tira essa escada daí / Essa escada é pra ficar / Aqui fora”. E tem também a surpreendente revelação: “… trata da situação política em 1990/91. Ele ironiza episódios como o romance dos ministros Bernardo Cabral e Zélia Cardoso e o confisco da poupança no governo Collor. O ex-presidente é comparado ao rei português d. Fernando I, conhecido pela beleza, imoralidade e vaidade”: “Deu no New York Times / Fernando, o Belo / Não sabe se vai participar / Do próximo campeonato / De surf ferroviário […] Deu no New York Times / Dizem que Cabral 1 / Descobriu a filial / Dizem que Cabral 2 / Tentou e se deu mal […] Amor! Dor! Dor! / Lá da rampa mandaram avisar / Que todo dinheiro será devolvido / Quando setembro chegar / Num envelope azul indigo”. E como contribuição própria, só conto o óbvio: Tim Maia, imagine a zorra, foi síndico de um condomínio e W/Brasil é a agência de Washington Olivetto, aquele mesmo que o Ben Jor citou na tão difícil quanto “Engenho de Dentro”: “A cabeça do Olivetto é  igual a uma cabeça de negro / Muito QI e TNT / Do lado esquerdo… / O tiranossaurus rex / Mandou avisar / Que pra acabar / Com a malandragem / Tem que prender / E comer todos os otários…”.

tm2E quando a poesia concreta encontrou a MPB? “Batmacumbaiêiê batmacumbaoba”, sem mais.

Sim, eu sei que nem tudo precisa de compreensão literal, de saque imediato, de entendimento a queima-roupa. O conjunto da música também fala através da melodia, do ritmo, do vocalize, da metáfora. Não é necessário que tudo esteja explicadinho como num fado ou numa letra de Chico, mas às vezes é desesperador ouvir e não sacar do que se trata, repetir sem saber, como se estivesse cantando em outra língua. Fico um pouco incomodada com isso porque sou amante da música instrumental e penso que se a composição tiver o complemento de letra, os versos precisam me contar alguma coisa e é justamente atrás desse rastro que às vezes me perco e me desespero, principalmente quando me pego cantarolando coisas sedutoramente sem sentido. Ou talvez eu sempre espere o que Quintana sonhou em seu “De Gramática e de Linguagem”:

“… Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

Ainda mais:

Eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor

Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:

Basta provares o seu gosto”.

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