Par Terre – Rui Calçada Bastos

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No Ensaio Fotográfico foram publicados, além de brasileiros, fotógrafos de alguns países: Alemanha, Lituânia, Estados Unidos, Itália, Suécia, Rússia, Indonésia, Japão. E Portugal, país irmão, onde eu e Carmen Lúcia moramos por oito anos? Pois é, imperdoável falta. Mas graças aos amigos Álvaro Carrilho e Clara Pires, publicitários de Lisboa, consegui o contato de Rui Calçada Bastos, um excelente e criativo fotógrafo português.

Rui, antes da fotografia, estudou pintura na Belas Artes. Mas a pintura não era bem o que queria. Seu olhar foi atraído para a fotografia e para o vídeo. Morou durante 10 anos, entre 1984 e 1994, em Macau, China. Com a bolsa João Hogan de residência artística da Fundação Calouste Gulbenkian, foi para Berlim em 2002 para passar um ano. Neste primeiro ano descobriu que era lá que queria viver e trabalhar. E lá ficou 14 anos. Um parêntese: trajetória parecida com a nossa que, em 1990, fomos passar um ano em Portugal e ficamos oito.
Com outros artistas abriu uma galeria, em 2004, a Invaliden1 Galerie, que fechou as portas no final de 2015. O site www.invaliden1.com/impressum, porém, está disponível para visitas.
Muito da produção de seu trabalho tem a ver com a ideia de viagem. Rui, durante nossa conversa via Skype, sugeriu a publicação de um trabalho que fez em Bruxelas, na Bélgica. Porém fez questão de me deixar livre para escolher qualquer outro trabalho em seu site www.ruicalcadabastos.com, que vale uma atenta visita.

Em 2012, a andar pela Place du Jeu de Balle, um mercado de coisas usadas, uma espécie de Feira da Ladra de Lisboa em Bruxelas, ao ver no fim da feira os mais diversos objetos no chão, teve a ideia. Neste desmonte do mercado viu um livro sujo, maltratado, ao chão. Começou, então, a dirigir o seu olhar com olhos de ver para descobrir objetos, coisas as mais variadas, arruinadas, espezinhadas. Molduras de quadros, livros, cabide, pião, pedaços de vidros, prato quebrado, um impresso com o rosto do escritor Victor Hugo, um bric-à-brac incrível, um cafarnaum. E aí o olho treinado do Rui selecionou e fotografou aquele abandono, o acabado, o por terra, o Par Terre. Fotos em preto e branco com uma única a cores: um lenço de papel com mancha de sangue.

Este mercado fica em frente ao Palais de Justice e um dos livros jogado ao chão tem o título de “Droit et Justice”. (Em outubro de 1985 Carmen Lucia e eu estivemos nesta feira e tomamos uma sopa de mariscos, deliciosa, acompanhada de cerveja belga que era distribuída de graça a quem quisesse, tudo na mais perfeita ordem e civilidade. Penso o pandemônio que seria por cá).

O Rui expõe seu trabalho em vários países e tem uma ligação próxima com o Brasil. Seu curador em São Paulo, Emanuel Araújo, se interessou em fazer uma exposição deste forte e instigante trabalho. As fotografias podem ser vistas, entre os dias 8 de setembro e 8 de janeiro de 2017 no Museu Afro Brasil – Avenida Pedro Álvares Cabral, Portão 10, no Parque Ibirapuera – São Paulo (SP), CEP 04094-050, Tel.: (11) 3320-8900. Para quem estiver na cidade de São Paulo, recomendo vivamente a visita.

1)_Sangue

 

2)_placadevidro

 

3)_Moldura

 

4)_Oculospartidos

 

5)_Deutsch-Englisch

 

6)_livro2

 

7)_livro1

 

8)_Livro_figures

 

9)_pinturadacaveira

 

10)_Espelho_ceu

 

11)_Cacosdevidro1

 

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