Reflexões sobre o homem

Flammarion-148

O que é, verdadeiramente, o Homem? Embora ele seja “aquilo que todos nós sabemos que ele é”, como disse há mais de vinte séculos Demócrito, será que nós sabemos de fato, com certeza e rigor, o que é ele? Penso que não. Para o Filósofo da Academia, ele nada mais é do que um insignificante bípede implume. Na esteira do pensamento platônico, o estagirita considera-o um mero animal político dotado de palavras e pensamentos (zoonpolitikonlogon, echon). Já Protágoras, mais ambicioso, vê nele o centro e a medida de todas as coisas. Pascal, por seu turno, nas suas lúcidas e profundas meditações metafísicas, vislumbra no homem um caniço pensante que se agita ao sabor da brisa. Definição que não anda muito longe da colocação de Descartes, que o considera simplesmente une chose qui pense – uma coisa que pensa.

De Bonald considera o homem uma inteligência servida por órgãos. Mas, se o aspecto intelectual do ser humano é enfatizado pelos maiores pensadores da humanidade, o seu lado animal merece também especial consideração. Assim é que, para Fénelon, o homem não passa de uma fera que se agita, e para Hobbes, repetindo de certo modo Plotino, ele é o lobo do homem. Animal que joga, segundo Lamb, animal que ri, conforme Whitehead, animal religioso, de acordo com Burke, mero fabricante de brinquedos, como pretende Franklin, pêndulo a oscilar perpetuamente entre o prazer e a dor, pela ótica poética de Byron, o homem é certamente tudo isso. Mas é mais do que isso.

Sapiens, ludens, laborans, economicus, faber – o homo é sobretudo um ser em expansão. Ele está se construindo permanentemente. E é nesse processo incessante de autoconstrução, que vem das cavernas imemoriais do Paleolítico até este limiar da conquista dos astros, que o homem pode ser considerado, como pretende Ponge, o futuro do homem.

Uma coisa é indubitável: trata-se de um ser único, feito de luz que cega e de escuridão impenetrável. Ele é sem dúvida aquela “oficina de todas as criaturas” a que se referiu Escoto Erigena, o “algo que se situa entre os deuses e as feras”, de que falou Plotino. Multifacetado, polimorfo, proteico, pode ser tudo. Pode mostrar a face radiante, apolínea, de Ariel e os esgares noturnos, dionisíacos, de Caliban. Pode ser – e é, muitas vezes – Caim e Abel, Nero e Francisco de Assis, Hitler e Mozart, poço anônimo de ignorância e Einstein. Descobre a penicilina e a bomba atômica, a arte de salvar vidas e a ciência de matar por atacado. Consegue atingir a face oculta da Lua e sabe chafurdar superiormente nos pântanos ecumênicos da iniquidade, da aberração e do crime.

É com ela (ALMA) – nela e através dela – que o ser humano adquire, em toda a plenitude, o perfil exato, a estatura definitiva. Frente a frente com o universo. Porém, maior do que o universo. Pois só o espectador tem ciência do espetáculo

Animal simbólico (Cassirer), aquele que avalia e jamais se define (Nietzsche), o homem é sobretudo uma criatura em busca do Criador. É um animal que tende para Deus, inexoravelmente. O ateísmo humano é por isso mesmo um anacronismo paradoxal, uma contradição em termos. O ser que possui a consciência de ser não pode deixar de preocupar-se com o Ser. Feito pelo Sumo Artífice à Sua imagem e semelhança, secundo Scripturas, o homem surge no planeta para cumprir um destino superior. Pedaço de lama iluminada, na lição pascaliana, o homem é um animal peculiar: carrega no seu âmago uma chama que brilha, que cintila – a alma. É com ela – nela e através dela – que o ser humano adquire, em toda a plenitude, o perfil exato, a estatura definitiva. Frente a frente com o universo. Porém, maior do que o universo. Pois só o espectador tem ciência do espetáculo. No sentido inverso, essa operação é impossível. Impensável.

Torre de carne e sangue e ossos, mas também de dúvidas, angústias e perplexidades, de sonhos e esperanças cuja cidadela o desespero às vezes sitia, numa guerra sem tréguas, o homem é uma seta arremessada do animal para o anjo, um dardo vivo de sangue e luz lançado nos latifúndios do espaço e do tempo. A sua própria postura o mostra como um traço de união – vertical – entre a terra e o céu. O seu destino, a sua vocação é necessariamente a verticalidade. E a essa verticalidade exterior – antítese da horizontalidade animal – há de corresponder, numa perfeita simetria, a verticalidade interior, espiritual.

No espantoso milagre da sua interioridade congênita, o homem, ser enigmático, finito, alberga dentro de si o infinito. Coisa efêmera, transitória, extremamente frágil, acalenta no seu seio a eternidade.

Tout homme rêve d’être Dieu. Sim, como escreve Malraux, todo homem sonha ser Deus. A sua “intrínseca cumplicidade com a criação” (Schelling) justifica essa tendência visceral, essa apetência, essa vocação nuclear para Deus. É o relativo em busca do Absoluto. E é talvez nessa busca do Outro que o homem encontra a si mesmo. Definido e perfeito. Agora e para sempre.

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