Sim, a Islândia existe

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Hoje quase todos sabemos que a Islândia existe. De uma hora para outra, ela se pintou no mapa do mundo, com cores e gritos, coreografia e alegria, emoção e sorrisos. Fez, como muitas seleções fazem, o despertar de uma simpatia imensa nas nações do mundo.
A Eurocopa proporcionou que a gente tivesse a prazerosa surpresa de ver a alegria de um país por jogar futebol. Pouco nos sobra de lembrança dos desaforos de Cristiano Ronaldo ou do bom humor dos torcedores da Irlanda do Norte ou, ainda, que no outro continente, em outro torneio o Messi a chorar revelasse a vontade de largar a celeste. Daqueles dias de futebol o que ficou mesmo foram os incríveis, assustadores e arrepiantes gritos vikings do mar azul e vermelho das arquibancadas.

map01A ilha está ali, logo ao sul do Círculo Polar Ártico e a tradução literal do nome, Terra do Gelo, pode causar a impressão de que se trata de um eterno freezer. Mas, os sites contam, os meteorologistas explicam e os turistas confirmam: o frio nem é tanta barbaridade assim, já o vento é. As temperaturas médias da capital: inverno -1, verão 11, o que se tira de letra pra quem passou o mês de junho em Curitiba, se o visitante for de Lages, então, é quase coisa para manga de camisa. O que muda mesmo são os horários de sol. Em janeiro, a cidade de Reykjavík não é banhada por luz solar mais que quatro horas por dia: das onze e pouco da manhã até três e meia da tarde, mais ou menos. E no verão, o desespero para os vampiros: rola sol das três da manhã até meia noite.

O país é o que apresenta a menor disparidade entre homens e mulheres no mundo

O mapa turístico da Islândia é grande. De aurora boreal a festivais de artes, gêiseres, gastronomia, parques, lagos, vistas espetaculares e festa, muita festa, há uma porção de coisas acontecendo o ano inteiro.

É possível que a essa altura da leitura eu já tenha consigo seduzir alguém a ponto de ir à internet buscar um pacote sete dias, seis noites pra lá. Mas o melhor vem agora. O melhor da Islândia são os islandeses. E as islandesas. O país é o que apresenta a menor disparidade entre homens e mulheres no mundo. No mundo! Todos têm os mesmos direitos e tratamentos e isso se espalha até à maternidade. Quando um islandezinho chega ao mundo, os pais têm direito a nove meses de licença, três meses são da mãe, três são do pai e os outros restantes divididos entre os dois. Dentro de casa, nem é necessário falar sobre os benefícios da divisão e para o mercado de trabalho resulta numa natural indiferença em contratar homem ou mulher, porque não há aquele pânico de que uma mulher poderá engravidar e ficar em casa a receber salário, durante meses. Isso irá acontecer, independente do gênero do funcionário. Mãe e pai têm os mesmos deveres e os mesmos direitos. Ponto final. Homens e mulheres têm os mesmos direitos e os mesmos deveres. Ponto final. E uma lição ao mundo como resultado: qual país elegeu democraticamente a primeira mulher chefe de Estado?, onde foi que apareceu a primeira primeira-ministra assumidamente gay?, em qual lugar do globo há a mais alta taxa de participação feminina no mercado de trabalho? A Islândia é admirável!

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Quase todo mundo é alfabetizado, 99,3% da população que tem idade para isso. A língua, que é um penoso desafio para qualquer um que vive em qualquer outro lugar do planeta não-nórdico, também tem suas curiosidades muito particulares. Por conta de inúmeros fatores, sobretudo o isolamento com que vivem e a alta entrega ao hábito da leitura, o islandês falado hoje é praticamente o mesmo dos primórdios vikings. Pouquíssima coisa mudou, quase não há gírias, dialetos ou estrangeirismos, as palavras novas, urgentes por conta das transformações do mundo, são inventadas de acordo com a necessidade. Por isso, se você acha estranhíssimo ler um texto de Camões original, por exemplo, espante-se com a informação: os falantes atuais leem sem nenhuma dificuldade ou raridade textos do século XIII, é a mesma língua, quase invicta. Mas ninguém está parado no tempo, os avanços tecnológicos não diminuíram o interesse pela literatura, alguns bancos de praça têm uns códigos de barras para conectar celulares e ouvir narrativas entre um descanso e outro. E se segura porque tem mais. Um a cada dez islandeses publica livro. Durante os duros meses de inverno e escuridão, com dois canais abertos de televisão, é a literatura que faz companhia aos moradores. Todos recebem catálogos de livros para escolher as compras da temporada.
Mas até no paraíso há problemas. Em 2008 a Islândia deu a largada no lance da crise europeia. Algumas décadas antes da bomba estourar, banqueiros se misturaram à política, aos partidos e passaram a manipular a economia para garantir os inabaláveis lucros. Incentivaram compras de imóveis, de créditos, de ações, de investimentos internacionais.

Sala de Concertos e Centro de Conferências Harpa, em Reykjavík

Sala de Concertos e Centro de Conferências Harpa, em Reykjavík

Mais ou menos 25 anos antes vinham plantando uma cultura de consumo e a sociedade passou a ter muito interesse em bens, salões de festas, arquitetura extravagante, condomínios com padrões antes nunca imaginados. A população, como em qualquer outro lugar, foi seduzida com a nova forma de fazer pedra se transformar em ouro, ou gelo em grana, não se concentrou em entender os mecanismos que propiciavam aquele boom e se deixou levar. As críticas sobre a catástrofe que se anunciava eram desprezadas e quem chamava atenção para o assunto se transformava imediatamente num estraga-prazeres.
Com o dinheiro circulando, os bancos cada vez mais movimentavam suas expectativas, mas num determinado momento o que era uma corrente a favor, mudou de rumo e eles simplesmente não conseguiram realizar as projeções, sustentar os compromissos nem honrar suas contas. A Islândia conheceu uma crise imensa: os bancos tinham dívidas que somavam dez vezes o PIB do país, a economia encolheu 7% num ano. A série catastrófica de combinações internas e externas levou o lugar à falência. A Islândia ainda viu de perto a corrupção e as armações internacionais.

Uma reação impressionante brotou de cada canto da ilha. A população perdeu a confiança nas autoridades públicas, percebeu que estava sendo enganada e quando isso se confirmou, o apuro financeiro pulou para um gigantesco problema econômico, que virou uma crise política. O Estado não funcionava mais como deveria e as ações de privatização e enfraquecimento das instituições públicas fizeram com que a população agisse. A sociedade se recusou a assumir o compromisso que estava sendo imposto: cada cidadão deveria contribuir para pagar dívidas com Inglaterra e Holanda (100 euros por mês, para cada um, incluindo bebezinhos, crianças, velhos, desempregados, todos, absolutamente todos, durante 15 anos). A mesma multidão que vimos sorridente nos jogos da Eurocopa se reunia todos os finais de semana em frente ao parlamento e, por sugestão de uma professora desempregada que conhecia o exemplo da Argentina, levou panelas e colheres de pau e começou a fazer barulho, a querer um novo governo, novas leis, novo tudo, para ter a antiga dignidade de volta.

Foi criada uma assembleia popular para redefinir a constituição, primeiro-ministro e todo o corpo do governo foi banido. Com o novo governo, vieram as investigações precisas sobre a crise e a identificação das responsabilidades pessoais sobre ela. Ao contrário do que acontece em quase todo o mundo, quando o país quebrou, não destinou os recursos públicos a bancos particulares, não transformou dívidas privadas em contas públicas, não misturou o que era de interesse de uma pequena e poderosa parcela ao que era soberano ao povo. Aconteceu o oposto, banqueiros foram presos, o primeiro ministro foi julgado e condenado, vários políticos perderam os cargos e tiveram que assumir suas responsabilidades na confusão toda. Chilindró!

Encontraram na democracia levada às últimas consequências a resposta para fazer valer o que a sociedade quer e precisa

Com a casa se reorganizando, foi o primeiro país a procurar o FMI para tratar de propostas que o tirasse daquele buraco sem fim. Na conversa, os islandeses foram claros, fortes e irredutíveis. Simplesmente não aceitaram as medidas austeras que o Fundo propunha. Não abriram mão de seus planos de seguridade social e educação. Enquanto outros lugares tiveram que ceder às difíceis imposições do capital internacional, a Islândia bateu o pé, decerto deu grito viking, e manteve o que achava justo e digno à sua população. O FMI cedeu, primeira e única vez. Todas as ações foram para assegurar a soberania do povo, não para tratar de investidores internacionais.

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O que era colapso transformou-se em gatilho para o crescimento. Com a desvalorização da moeda (a Islândia não faz parte da zona do Euro), o país se transformou num destino turístico fácil e por ano um milhão de turistas passaram a gastar seu dinheiro por lá; com a dificuldade de importação, os produtos nacionais ficaram em evidência nas prateleiras, gerando mais mão de obra e produção interna; e a exportação de alumínio e pescados cresceu muito.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a dívida com Reino Unido e Holanda permanecia lá, crescendo feito pão. Uma hora o ajuste de contas deveria vir. E veio. Os dois países estavam irredutíveis: reembolsaram seus investidores e precisavam receber seu dinheiro de volta. O tribunal da Associação Europeia de Livre Comércio julgou o caso e o veredicto foi a favor da Islândia: o país não precisava reembolsar os depósitos perdidos.

Os islandeses, que viraram chacota em 2008 diante da ruína, como primitivos inexperientes no jogo do mercado financeiro internacional, acabaram por inaugurar uma nova e genial forma de negociação e de proteção de seu povo. Encontraram na democracia levada às últimas consequências a resposta para fazer valer o que a sociedade quer e precisa.
Não há como negar o belo exemplo dado ao mundo. E também não é possível tratar disso nos termos simplistas que isso aconteceu lá porque é um país pequeno e fácil de organizar, que a situação não se repetiria em lugares maiores. O modelo não é para ser copiado ipsis litteris, é para ser estudado, adaptado, pensado a partir de cada realidade. Vai ver que o professor Lindenbrock tinha razão ao acreditar no pergaminho escrito por Arne Saknussemm e a viagem ao centro da terra deve mesmo começar pela chaminé de um vulcão islandês. Ou alguém duvida de Julio Verne?

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