Confrarias, Charutos e Culinária

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Um dia fiz parte de uma das mais antigas confrarias de charutos do Brasil: a saudosa e inesquecível LOS PUROS. Ela foi um símbolo de alguns privilegiados epicuristas curitibanos. A confraria se reunia mensalmente em volta de grandes jantares acompanhados de grandes vinhos e a obrigatoriedade de se degustar os puros cubanos. Era uma festa móvel como diria Hemingway e para tristeza geral durou apenas treze anos. Naquela época os confrades se reuniam na tabacaria Pipe Shop e no bar e tabacaria do Hotel Bourbon, ambos já extintos.

Por pura afinidade alguns membros tornaram-se grandes amigos e ocasionalmente ainda hoje se reúnem semanalmente para falar de gastronomia, vinhos, charutos, filosofia, cinema, arte e amenidades em geral em algumas boas tabaquerías espalhadas pela cidade.

A Los Puros tinha um site na internet que servia de informativo e arquivo de fotos e textos sobre os encontros e também de fórum para a discussão sobre charutos e gastronomia. Um binômio inseparável de prazer. Lembro que certa vez escrevi um texto culinário polêmico, logo após um grande regabofe no restaurante Blini do talentoso Chef Flávio Frenkel que professava em Curitiba uma culinária provocativa, mas que por infelicidade do momento e principalmente da cidade escolhida, ficou apenas no campo experimental e acabou. O texto defendia que criação culinária não é o mesmo que alquimia, como pode até parecer para os neófitos que hoje infestam reality shows que se multiplicam na televisão mundo afora.

Defendia também que para a maturidade da arte culinária entre nós, muitas pesquisas ainda precisavam ser feitas e preconceitos antigos e modernos necessitavam ser afastados para que, com simplicidade, se atingisse o significado profundo da lição aparentemente simples que Gabriel Bolaffi, sociólogo, professava: “Cozinhar é um constante devir de antigas tradições e contemporâneas inovações que podem e devem ser combinadas com saber, arte, bom senso e bom gosto”.

A crônica dizia que a proliferação de cozinhas experimentais tinham se alastrado na alta culinária ao longo dos últimos 20 anos, desde seu brilhante começo com a nouvelle cuisine cujos chefes franceses que a implantaram – Jean e Pierre Troisgros, Paul Bocuse, Fredy Giradert, Michel Guérard e Alain Senderens, deram inspiração para aventuras moleculares das estrelas da gastronomia espanhola como Ferran Adriá, Martín Berasategui, Juan Mari Arzak e até o chef brasileiro Alex Atala com os seus ingredientes amazônicos que o Brasil desconhecia.

Foi um bafafá tremendo, mas as nossas elucubrações amadoras sobre gastronomia chegaram à conclusão de que o que era palpável de fato eram os nossos poderosos e saborosos charutos cubanos e particularmente, aqui para nós, o Hoyo de Monterrey no formato Double Corona que considero o mais delicioso e agradável do formato, e costuma apaixonar seus admiradores por explodir na boca sabores marcantes de baunilha e mel.

Inseparável companheiro nos grandes jantares da Los Puros, ele combinava inegavelmente com a nouvelle cuisine de Paul Bocusee seu extraordinário Alberge du Pont de Collonges nos arredores de Lyon, cuja experiência certamente marcou minha existência.

O negócio daquela Confraria era fazer tal qual Hans Castorp, o enigmático personagem de “A Montanha Mágica” de Thomas Mann que, ensimesmado, costumava degustar o seu La Flor de Maria Mancini mesmo nas condições adversas daquele estranhíssimo sanatório em Davos nos Alpes Suíços. Se o mote dos encontros era a discussão sobre o sentido da vida e sua brevidade, pelo menos que ocorresse da forma mais agradável possível, ou seja, entre longas e saborosas baforadas.

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