Emoções perdidas

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Antigamente se usava a expressão “silver screen”, ou seja, tela prateada, para filmes em preto e branco, que vinham com emulsão ou banho de prata, melhorando muito o contraste e o brilho, que não eram comuns a todas as cópias, bem mais caras. Segundo os antigos, a projeção ficava maravilhosa, mas o tamanho das telas, hoje, é uma fração do que eram.
Impossíveis de reproduzir em vídeo digital, estas projeções ficaram na memória das antigas plateias. Hoje chamam de “silver screen” uma tela mais reflexiva, a fim de dar mais luminosidade às projeções digitais, nada a ver com o antigo processo.

Com o advento do filme colorido, o technicolor, para as grandes e caras produções, este processo caiu quase totalmente em desuso, até que apareceu “A lista de Schindler” (Schindler’s list) com Liam Neeson, Ben Kingsley, direção de Steven Spielberg, 1993, que quis reviver este processo, em maravilhoso preto e branco.

Para a Europa e os Estados Unidos, as cópias foram feitas com o banho de prata, mas não no Brasil. Foi uma rara ocasião em que poderíamos ter conhecido este processo. Em 1966, o governo militar criara o Instituto Nacional de Cinema (INC), mais tarde Embrafilme, que, entre outras coisas, padronizou o ingresso nos cinemas, a obrigatoriedade de um número de filmes nacionais por sala, e o pior de tudo, a copiagem das películas estrangeiras em laboratórios do Brasil, para a exibição em todo o território nacional. Isto se prolongou até o cinema digital hoje. Medida ridícula, pois nunca tivemos uma fábrica de filme virgem no Brasil, as máquinas e os produtos para revelação eram todos importados. Serviu apenas para enriquecer os poucos donos de laboratórios no país e piorar muito a qualidade das cópias exibidas.

As companhias estrangeiras mandavam uma cópia comum para duplicação, e assistíamos a cópia da cópia, em filme positivado, piorando muito a projeção e o som nos cinemas, já que o sistema de reprodução sonora utilizado era o ótico. A Embrafilme foi extinta no governo Collor, com protestos de cineastas que ficaram órfãos do dinheiro para produções vistas por poucos, mas a copiagem continuou sendo feita no Brasil, com padrão inferior.

apocalipseEm 1979, em Paris, assisti em um cinema espetacular, o Gaumont Ambassade, hoje dividido em multissalas, a “Apocalipse now”, produzido por Francis Ford Coppola, com Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, indicado a oito “Oscars”, vencendo na categoria melhor som e fotografia, de Vittorio Storaro, ganhador da Palma de Ouro em Cannes.

A história ficou um tanto nebulosa, mas emocionante, com a sequência famosa: ao toque da trombeta soando a carga da cavalaria, os helicópteros atacam uma aldeia sob o domínio dos vietcongues. Com o sol se levantando, é tocada “A cavalgada das Valquírias” de Wagner a pleno volume, com explosões, colunas de fumaça e fogo, evocando a psicose da guerra, em cena de pesadelo surreal. Projeção perfeita em 70mm, alto e bom som em seis canais, vindo de todos os lados da enorme sala, foi uma experiência inesquecível, emocionante.

Na entrada do cinema, empregados uniformizados entregando o programa, com fotos, dados do filme, fatos da atribulada filmagem e muitos dados técnicos. Enfim, uma noitada cinematográfica que ficou marcada na minha memória. Em uma entrevista, o maestro Herbert Von Karajan, falando da força das imagens, declarou: “Lembro de ter sentido algo extraordinário quando assisti ao filme “Apocalipse now”. A sequência famosa dos helicópteros é acompanhada de música bem conhecida, mas eu estava tão preso à força da imagem de
Coppola, com os helicópteros e a música, que só depois percebi qual era a música que ele estava usando.” Se Karajan não reconheceu de imediato música tão conhecida, e já regida por ele tantas vezes, constitui um tributo extraordinário às habilidades de Coppola, criando momentos de grande emoção.

Em dezembro do mesmo ano, o filme estreou em Curitiba, e resolvi revê-lo, Cine Plaza, na Praça Osório, mesmo considerando a cópia em 35mm, som monaural, e em um cinema que não estava em suas melhores fases, como outros na cidade, em matéria de manutenção. Após alguns minutos iniciais, a fotografia estava irreconhecível, desbotada, com muita granulação, fora de foco, som horroroso sem definição e muito baixo. Saí decepcionado, bem antes do fim, pensando em tudo que estávamos sendo sabotados por esta resolução de um país fechado e que visava, apenas, favorecer empresários protegidos pelo regime. Além de alguns cinemas, com equipamentos antigos, manutenção deficiente, como os da Fundação Cultural de Curitiba que, fechados, deixaram, apesar disto, uma lacuna não preenchida para as produções chamadas alternativas. E como tudo estava na mesma medida, enfim tudo a mesma porcaria, ninguém reclamava de nada, pois não havia a referência de algo melhor.

Nenhum brasileiro viu a fotografia e o som premiados, desta e de tantas outras produções. E parece que o nível de exigência continua muito baixo: projeções escuras, som de baixa qualidade, se bem que muito barulhento, “bombado”, que é o que conta, inclusive interferindo nas salas contíguas, nos multiplexes.

o-artistaOutro exemplo de cópia malfeita foi a do filme “O Artista” (The Artist) de 2011, preto e branco maravilhoso, comentado em artigo anterior, em que o laboratório usou filme colorido, impróprio neste caso, na copiagem para a distribuição nacional. A fotografia em preto e branco resultou esverdeada, granulada, o que alterou o contraste e o brilho, prejudicando muito a projeção. Ouvi alguns comentários de pessoas achando que queriam imitar uma projeção antiga! Muito pelo contrário, antigamente, as cópias e a projeção eram caprichadas, os empresários da exibição tinham noção de espetáculo e queriam oferecer o melhor para conservar seu público. Hoje, só se lastimam com a concorrência do entretenimento caseiro, mas não investem em bons equipamentos, atendimento, e ainda cobram caro. Em outros países, já se fala em projeção utilizando laser, aqui estamos ainda na lâmpada Xenon, de tantos anos.

Com a projeção digital, que alguns pensavam que seria uma melhora, existem muitos problemas. Já assisti a produções cortadas nas laterais, ou acima e abaixo, adaptando o enquadramento à tela do cinema em vez de respeitar o original. Também as projeções 3D, com o uso dos óculos, principalmente, ficam muito escuras.

Sydney Pollack, diretor americano, em entrevista, fala sobre os formatos de tela e as mutilações na projeção: “Estou fazendo um pedido, por mim e meus colegas, que passam muito tempo pensando como contar uma história, da melhor maneira visualmente. Depois, alguém aparece e corta as bordas da cena e reformata o filme. E o público não vê a história como queríamos contar. Apenas digo que se um diretor resolve filmar neste formato (no caso, o widescreen) porque quer mostrar mais informação, não é justo que isto seja mudado, com nosso nome no filme. As cenas darão a informação necessária dentro do formato escolhido.”

Fico imaginando se um órgão de defesa do consumidor fizesse medições nas salas de cinema, quantas estariam fechadas por fraude, isto é, por não entregar o produto prometido. Além do som e da projeção, temos ainda muitos problemas com o ar-condicionado, barulhento, frio ou quente em demasia, e desligados por economia, muito antes do fim das sessões. Caso também de saúde, auditiva, visual e respiratória.

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