Graças e Desgraças

179toque

Outro dia disse a um amigo que gostava de ir à Catedral de Curitiba mesmo sem ser católico e, a rigor, nem cristão, só para ficar em silêncio, contemplando a luz que entra pelos vitrais, quando fui surpreendido por uma pergunta que até hoje não me sai da cabeça: Paulo, você já sentiu a presença de Deus?

Na hora, meio por impulso, meio por ranhetice, disse categoricamente que não. Com o passar dos dias, contudo, a ranhetice deu lugar à ponderação e à certeza melancólica: realmente não me lembro de sentir a presença de Deus. Não na minha vida.

Mesmo estudando em colégio de freiras. Mesmo indo a missas. Mesmo depois, quando era obrigado a ir a uma igreja evangélica e via todas aquelas pessoas falando em línguas e desmaiando. Nunca senti a presença de Deus. E, sinceramente, não foi por falta de esforço.
Em várias ocasiões, contudo, senti profundamente a ausência de Deus. Agora, por exemplo, ao escrever este texto apressado. Fecho os olhos, me concentro, permito-me chorar. Pergunto onde Ele está. Eu O chamo. Recorro a rezas tradicionais que se assemelham a mantras. E nada.

Harold Bloom, um velho crítico literário que admiro (ou admirava, não sei), dizia que Deus está no exílio. É uma teoria gnóstica, acho. Gosto da ideia. Deus existe, ok. Mas, contrariado com sua própria Criação (o que não faz sentido num Deus Onisciente, mas tudo bem), deu as costas ao mundo e foi cuidar de, sei lá, Plutão.

Mas e quanto ao seu filho?, você pergunta. Você não sentiu a presença de Deus ao vê-lo pela primeira vez? E aqueles vários momentos que você vive evocando nas noites frias: determinado beijo, a sensação de por um ponto-final num texto bom, as conversas com amigos, a primeira neve, o ronronar da gatinha?

São todos momentos epifânicos, sem dúvida. Mas, novamente, só servem para provar a ausência, o exílio de Deus que, contrariado com a minha criação, se retirou para uma ilha remota. Meu filho mora longe de mim, o beijo se perdeu no tempo, os pontos-finais não me dão muito mais prazer, os amigos não respondem às mensagens, a neve é suja e a gatinha morreu.

Um professor de literatura certa vez passou uma aula inteira destrinchando a palavra “desgraçado” – para ele o pior xingamento possível. Prestei muita atenção àquela aula, como se soubesse que ela me seria útil. Desgraçado, disse o professor, é aquele a quem foi negada a Graça. Sim, a Graça divina. A presença de Deus. Desde então, sempre que ouvia a palavra “desgraçado”, ficava meio abalado. Pensando em alguém ignorado por Deus. Desprezado mesmo. A forma mais cruel de solidão.
Até que me dei conta de que essa pessoa era eu.

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