Nossos comerciais, por favor

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Neste tempo de eleições, volta o lance dos jingles políticos. Sei de uma penca de grandes compositores da MPB que emprestam seu talento para causas menos nobres como esta – não condeno, todo mundo tem que pagar contas. Mas a pensar sobre, fui dar uma olhadinha no que rolou em nossos rádios e TVs, mesmo sem optarmos por isso, nos últimos anos.

Fiquei um tanto enjoada ao ouvir as musiquetas políticas, não por conta da qualidade das composições, mas pelo conteúdo das figuras que as utilizaram. Minha primeira ideia era fazer uma seleção sobre jingles de campanha, mas ao perceber que poderia comprometer a reputação de um músico, que só estava defendendo o leitinho das crianças, ao misturá-lo com um nome de alguém que se elegeu e não tratou de cumprir promessa em música, desisti.

Pulei para a vastidão do mercado de propaganda. O rico material da publicidade brasileira envolve gente de peso, muito peso, da MPB. É um mar de talentos. E para quem pensa que um jingle é composição menor, simplista, pobre, que reveja os conceitos, porque não é tarefa fácil inventar música capaz de convencer alguém a comprar um produto, seja ele qual for. E, ainda por cima, atravessar os anos a ecoar versos em nossa cabeça a ponto de se tornar referência de produto ou serviço. Duvida?

cafe-damascoUma estrela que está sempre a brilhar em nossa memória é a Odelair Rodrigues naquele comercial que inunda de lembranças a vida de boa parte dos adultos dessas bandas. Quem não sabe cantar? “Café Damasco, forte, puro, brasileiro / faz questão que o povo inteiro / dê um breque pra tomar um cafezinho / ou um pingado, uma média, um bem passado com carinho de mulher”. Esta maravilha foi criada por Marinho Gallera e Paulo Vítola num tempo de inteligência superior na propaganda e trabalho completo. O regional que acompanhou Odelair foi composto por Janguito no cavaco, Arlindo no violão de sete cordas, Edmundo no pandeiro, Pinhão no acordeom e Alaor na flauta. Coisa de gente grande! Está na minha lista de preferidos.

bamerindus-2O Bamerindus nem existe mais e seu jingle ainda sobrevive. A obra é de Fernando Rodrigues, Milce Junqueira e Fernando Leite, uma tríade poderosa que ganhou prêmios e não só entrou definitivamente para a história dos jingles nacionais como virou essa esquina e se hospedou no lugar de bordões repetidos à exaustão em diversas circunstâncias: “O tempo passa, o tempo voa / E a poupança Bamerindus continua numa boa / É a poupança Bamerindus”.

E o Zé Rodrix? Maravilha de compositor, derramou talento em peças determinantes da MPB como “Casa no Campo”, para citar uma só. Ele também cuidou da propaganda nacional e não economizou gênio para isso em vinhetas precisas: “De mulher, pra mulher, Marisa”, “Quem disse que não dá? Na Fininvest dá”, “Mais barato, mais barato, Extra”.

E já que citei Rodrix e sua “Casa no Campo”, é justo falar do seu parceiro nessa música, Tavito. Ele também faz parte de propagandas televisivas de estrondoso sucesso, tem na bagagem mais de 3 mil (três mil!) jingles, entre eles, aquele que nasceu como música da Copa de 1990 e que a Globo adotou como vinheta para jogos da seleção: “Eu sei que vou, vou do jeito que eu sei / De gol em gol, com direito a replay”.

E por falar em futebol, lembra de 1970? Esqueça a campanha militar, esqueça das intenções ufanistas, esqueça um tiquinho da história e pense na maravilha que Raul de Souza e Luís Gustavo criaram: “Noventa milhões em ação / Pra frente, Brasil, no meu coração / Todos juntos, vamos pra frente, Brasil / Salve a seleção”. Eles se inscreveram num concurso que trazia um prêmio de 10 mil cruzeiros, pagos pelos patrocinadores da Copa, ganharam e viraram hino da seleção canarinho.

Ainda no mesmo tema, “Na Cadência do Samba”, de Luiz Bandeira, nasceu de um jeito, virou outra coisa e se transformou em vinheta de futebol. Nos anos 50, o compositor criou, sem grandes pretensões, os imortais versos “Que bonito é / Ver um samba no terreiro / Assistir a um batuqueiro / Numa roda improvisar”, ganhou notoriedade nas rádios, virou abertura do Cinejornal do Canal 100, sobre futebol, depois migrou como sinônimo de qualquer lugar, a qualquer hora, por qualquer motivo para falar do nosso esporte número um.

Ah! E falando em número um, quem é que pode se dar ao luxo de ter João Gilberto a beliscar seu violão e soprar daquele jeito que só ele sabe os versos de seu produto? A Brahma
pode! O filme, puro luxo: Teatro Municipal, bossa nova, orquestra e o rei dos reis… “Pediu cerveja, pediu Brahma Chopp / A número 1”, a composição é de Sérgio Augusto Sarapo. E você sabe qual empresa inaugurou o mercado de jingles no Brasil? A mesma Brahma, em 1934, e já de saída com muita categoria. Bastos Tigre e Ary Barroso compuseram uma marchinha, que foi cantada por ninguém menos que Orlando Silva: “Desde maio até janeiro / E de fevereiro a abril / Chopp da Brahma é o primeiro / De garrafa ou de barril”, virou hit no carnaval daquele ano e foi responsável pela venda de 30 milhões de litros do chopp, de garrafa ou de barril. Tem no youtube, corre lá que é muito bom.

E que tal falar de pipoca e guaraná? A propaganda do início dos anos 90 do Guaraná Antarctica é do time das inesquecíveis. O tema e a ordem vieram da cabeça do Nizan Guanaes, mas quem desenvolveu tudo naquela medida que até hoje está por aí foi Cesar Brunetti: “Pipoca na panela / Começa a arrebentar / Pipoca com sal / Que sede que dá […] Quero ver pipoca pular, pular / Soy loca por pipoca e guaraná”. E foi o mesmo Cesar Brunetti que compôs a maravilha que acompanhou o comercial da Parmalat, lembra? Uma fofurice só: “O Elefante é fã de Parmalat / O Porco cor-de-rosa e o Macaco também são / O Panda e a Vaquinha só querem Parmalat / Assim como a Foquinha, o Ursinho e o Leão […] Tomou?”.

É claro que olhar reclames de outras épocas tem muito de valor afetivo, dessa memória que insiste na teimosia de que o mundo era melhor antes. Antes quando? Tanto faz, antes; antes de agora. E assim, a gente caminha pelas trilhas nubladas das lembranças… Enquanto escrevo esta coluna, por exemplo, me espanto a cada peça, de como ela faz parte de mim e marcou alguns momentos da minha vida. O poder da propaganda vai além da venda de produto, ultrapassa os objetivos de mercado, deixa pra trás as metas capitalistas e se fixa naquele lugar onde tem como vizinhos coisas muito delicadas, sensíveis, emocionais. Um exemplo pessoal, se me permite, caro leitor. Há muito tempo não entro nas lojas Pernambucanas, mas a propaganda do cobertor não sai de mim. Heitor Carillo inventou o jingle na década de 60 e ele esteve batendo por aqui, neste inverno que agora se despede: “Quem bate? / É o frio… / Não adianta bater / Que eu não deixo você entrar / As casas Pernambucanas / É que vão aquecer o meu lar”.

Nescau tem gosto de festa; Lollo é o chocolate fofinho da Nestlé; abra a boca, é Royal; aqui tem Doriana e a gente logo vê: os elogios são pra você; Maggi, o caldo nobre da galinha azul; Varig, Varig, Varig. Não dá pra parar, o mergulho neste tema é praticamente um poço sem fundo, diferente desta coluna, que tem limites para tratar dos devaneios de todas as ordens. Minha sugestão é que você dê uma volta pela internet e percorra essas páginas tão especiais e, se fosse dizer isso em musiquinha, faria assim: “Meu amigo, minha amiga / entre comigo nessa ciranda / procure em cada cantiga / a memória na propaganda”. Desculpe, não resisti.

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