Os vikings no Paraná

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A presença de “vikings” na vida do Paraná não é novidade. Minúscula, essa imigração de homens e mulheres vindos da Islândia (Ice Land, a terra do gelo, território que é a metade do paranaense), é apenas muito pouco conhecida. A universidade nada produziu sobre ela e poucas são as referências bibliográficas existentes sobre o assunto. As grandes levas de europeus – dezenas de milhares – chegadas ao Paraná, a partir do século 19, de certa forma não ‘deixaram’ aparecer os 31 imigrantes islandeses, que vieram para cá em dois grupos, em 1863 e 1873. Fugiam da fome, do frio, da pobreza e de vulcões.

No entanto, proporcionalmente ao número, eles tiveram até agora boa repercussão na vida do Paraná. Por exemplo, o primeiro curso pré-universitário foi o Bardhal, de um neto de islandeses, assim como uma das primeiras médicas formadas pela UFPR, Nana Carvalho Sonddal, forte aos 101 anos, é filha de um imigrante que aportou criança em Paranaguá.
São muitas as curiosidades envolvendo essa imigração de todo surpreendente, como o fato de descendentes desses ‘vikings’ terem muito se destacado em Almirante Tamandaré, onde um Jonsson foi prefeito.

Em 2015, por iniciativa da Câmara de Curitiba (vereador Paulo Salamuni), uma cidade islandesa se tornou irmã de Curitiba. E há até um cônsul honorário da Islândia no Paraná.
A comunidade de descendentes desses ‘vikings’ reúne-se em sua associação, periodicamente. E um de seus porta-vozes é o engenheiro químico, hoje empresário da construção civil, Mário Antonio Reikdal dos Santos, ex-funcionário da Volvo.
Na entrevista que segue, Reikdal dá uma ideia de quão vigorosa se mantém a ligação com a pátria de seus ancestrais:

 

Quando e como começou a presença de colonos islandeses no Paraná?
Começou em 1863, com a vinda do senhor Jonas Fridfinnson, que no Brasil adotou o nome de Jonas Barddal, já que vinha de um vale ao norte da Islândia perto de Akureyri, chamada Bardardalur. Ele veio conhecer as condições de imigração no Brasil. As demais famílias islandesas só vieram 10 anos mais tarde, em 1873. Foram mais seis famílias, que no Brasil adotaram os nomes: Reikdal, Jonsson, Joakinsson, Sonddal, Torkelsson e Gudmundsson Ísfeld, que acabaram emigrando para o Canadá. Também veio a jovem Kristrún Sigurdardottir, mas o nome não foi mantido por ter ela casado com o sueco Ernesto Beingsen.

 

Foi única no Brasil e na América Latina?
As únicas chegadas de imigrantes islandeses à América Latina foram essas, de 1863 e 1873. Eles se estabeleceram apenas em Curitiba e arredores. Após a primeira leva de 31 pessoas, havia centenas de islandeses dispostos também a emigrar, tendo inclusive vendido suas propriedades. Esses emigrantes aguardaram meses pelo navio brasileiro que os traria ao Brasil, que jamais chegou. Por sugestão do cônsul sueco no país, acabaram emigrando aos milhares para o Canadá. Assim, as levas seguintes de emigração continuaram dando preferência ao Canadá e aos Estados Unidos.

 

Teriam eles vindo a convite? Relate o desembarque, as impressões dos primeiros colonos, o número deles, os sobrenomes mais comuns desse grupo...
Houve um contato formal, em que o governo brasileiro abria a oportunidade para imigrantes europeus. Os islandeses vieram pressionados pelas condições econômicas do país de origem. Aqui, identificaram-se principalmente com os alemães, com quem se associaram. Como todos os demais imigrantes, também enfrentaram condições muito duras para subsistir, uma vez que ocuparam terrenos muito afastados de vilas ou cidades e com pouca infraestrutura viária.

A geografia, a fauna e a flora brasileiras devem ter assustado nossos ancestrais. Por exemplo, quase não há árvores na Islândia. Os principais nomes são Barddal, Joakinsson, Jonsson, Reikdal, Sonddal, Torkelsson e Gudmundsson Ísfeld (que depois se dirigiram ao Canadá). Também há registro dos nomes Thorwaldsson, Jensson, Christiansson e Fridrik, com quem perdemos contato.

 

Eles fugiam da fome, então forte na Europa, a exemplo de outros europeus?
Em 1845 e 1846, a Islândia sofria sucessivas erupções do vulcão Hekla, no sul da ilha, chamado pelos europeus, desde a Idade Média, de Porta do Inferno. Num desses eventos, segundo relato da época, o rio próximo aqueceu a ponto de matar os peixes. Após 22 horas de fluxo contínuo, a lava havia se estendido por 36 km. A 12 km da cratera, o monte de lava tinha 10 a 15 m de altura e 1,5 km de largura. Poeira e vapores tóxicos sufocaram parte do pasto. Grande parte do pasto restante foi contaminado, matando o gado que dele se alimentava. O calor que se dissipou aqueceu as geleiras em torno do monte, ocasionando inundações. As erupções foram tão intensas que a poeira vulcânica atingiu as ilhas Faroe, Shetland e até Orkney, na costa da Escócia, a 750 km de distância, ou seja, 1,5 vezes o comprimento da própria Islândia, que é de 490 km de leste a oeste.

Para se ter uma ideia mais clara das consequências de um evento extremo de vulcanismo, vale citar um documento científico de uns 60 anos antes, em que Benjamin Franklin afirmava que a causa do verão incomumente frio de 1783 seriam as cinzas vulcânicas provenientes da Islândia, pela erupção do Laki, que liberou enormes quantidades de dióxido de enxofre, matando a maior parte do gado islandês e ocasionando a fome generalizada que dizimou um quarto da população da ilha. A temperatura de todo o hemisfério norte baixou 1ºC no ano da erupção do Laki, fenômeno conhecido como inverno vulcânico.

Em 1863, quando o primeiro islandês chegou ao Brasil, a última erupção do Hekla tinha apenas 17 anos, e as consequências na economia por certo eram ainda agudamente sentidas.

 

Os islandeses se localizaram em que cidades do PR? Como escolheram onde morar e o que fazer? Eles vieram com alguma educação formal, com profissões definidas, com conhecimento prévio do idioma e do Brasil? Por que o Paraná?
Localizaram-se inicialmente em Curitiba e arredores. Para Curitiba vieram os Barddal e depois os Sonddal, Reikdal e Joakinsson. Os Jonsson foram para Almirante Tamandaré e os Torkelsson para Colombo, pois eram áreas mais frias, que lembravam o clima do país natal. Karl Albert Reikdal estabeleceu-se em Araucária após casar-se com Walgerdur Benedikta Sonddal.

 

Vocês conseguiram o Consulado da Islândia no Paraná. Como isso aconteceu? Quem é o cônsul e que trabalhos tem realizado?
O Consulado Honorário foi reaberto recentemente, em 2014, principalmente em função da reaproximação que vem ocorrendo entre os descendentes de islandeses e o país natal. O cônsul chama-se Magnús Ólason, executivo de uma empresa islandesa chamada Marel, que tem negócios em Curitiba. O Consulado tem tido como objetivo a promoção de eventos culturais.

 

Quem documentou historicamente a memória do grupo no Paraná? Há livros a respeito? Você é o historiador da “colônia”?
A primeira e mais completa memória da imigração encontra-se descrita no livro ÆFINTÝRIÐ FRÁ ÍSLANDI TIL BRASILÍU (Aventura da Islândia ao Brasil), de Þorsteinn Þ. Þorsteinnsson, editado em 1937 em Reykjavík. Recentemente foram publicados Nas Trilhas do Passado, de Leonilda Otto Debiazio, editado no ano 2000, e finalmente Imbuia e Roseira – Nossas Famílias, de Caio Vinícius Torques, de 2013. O Caio é um geólogo com uma extraordinária vocação de historiador e descende de islandeses. É associado da AISBRA e seu sobrenome Torques deriva de Torkelsson, talvez uma corruptela, normal nos cartórios da época. O livro da Leonilda é uma reconstituição da família alemã Otto e faz breve menção aos islandeses porque Elza Otto e Ida Otto casaram-se com membros das famílias Joakinsson e Reikdal.

 

Cite o nome de principais famílias paranaenses com ascendência islandesa. De preferência, nomine em que trabalham e quais suas formações profissionais...
As famílias são Barddal, Joakinsson, Jonsson, Reikdal, Sondahl e Torkelsson. Inicialmente, dedicaram-se a atividades agrícolas e marcenaria, mas a segunda e terceira gerações já começaram a produzir médicos e engenheiros. Lembramos alguns exemplos das três primeiras gerações:
Magnús Sondahl, emigrante de primeira geração, chegou ao Brasil aos sete anos de idade e formou-se em Engenharia. Magnus foi objeto de dois contos do escritor carioca João do Rio. Os contos fazem parte do livro As Religiões do Brasil.
Emílio Jonsson: filho do imigrante Jóel Jonsson, é hoje nome da principal rua de Almirante Tamandaré.
Nana Sonddal, filha de Magnus Sonddal, foi a segunda mulher paranaense a formar-se em Medicina e está hoje com 101 anos de idade.
Edgard Alberto Barddal, neto de Jonas Barddal, formou-se em Medicina.
Dascomb Barddal, sobrinho de Edgard Barddal, também se formou em Medicina e foi proprietário do sistema Barddal de ensino, mais lembrado pelo cursinho que leva seu sobrenome. Atualmente somos 1.000 ou 1.200 descendentes e atuamos nos mais variados ramos profissionais.

 

Fale da associação islandesa do Paraná. E também do único islandês remanescente que ainda fala a língua islandesa, se possível passando-me a direção dele...
Antes da abertura do Consulado Honorário, a AISBRA, Associação Islândia Brasil, teve a iniciativa de realizar um jantar comemorativo do sesquicentenário da imigração, em novembro de 2013, seguido do lançamento de um filme magnífico, realizado pelo cineasta islandês Sigursteinn Masson, apresentado também em 2013 na Cinemateca do Museu Guido Viaro, uma cooperação inestimável do nosso amigo Terence Barddal Keller, também descendente de islandeses, e parte do corpo deliberativo da cinemateca.

Num esforço da AISBRA, especialmente do nosso associado Valter Jonsson, e contando com o apoio do então Presidente da Câmara de Vereadores de Curitiba, o senhor Paulo Salamuni, conseguimos que Curitiba e Akureyri, a cidade mais importante do norte da Islândia, se tornassem cidades irmãs. Akureyri tem significado especial para nós, porque foi do seu porto que nossos ancestrais deixaram a Islândia com destino ao Brasil, além do que todos os descendentes são originários de vales em torno dessa cidade, a segunda maior da Islândia, a “capital do norte”.

A ideia para o filme aconteceu durante um jantar na Islândia, anos antes, quando o já mencionado cineasta e hoje nosso amigo Sigursteinn Masson conversava com o prefeito de Akureyri, Eiríkur Björgvinsson. O assunto da noite foi a emigração de islandeses ao Brasil. Além do filme, essa conversa gerou uma sugestão do prefeito para que iniciássemos um projeto de cidades irmãs, o que ele nos comunicou por carta, que nos foi entregue pelo próprio Sigursteinn em visita a Curitiba, junto com um brasileiro residente na Islândia, nosso amigo Luciano Dutra.

Ainda temos a felicidade de contar com uma descendente que é filha de um dos emigrados de 1873. Trata-se da Dra. Nana de Carvalho Sonddal, que chegou ao Brasil ainda criança, filho do imigrante Árni Sonddal. A dra. Nana completou 101 anos este ano, mas nenhum de nós, nem mesmo ela, falamos a língua dos nossos ancestrais, salvo algumas frases soltas.

 

Vocês estão fazendo algum programa de “busca do tempo perdido”, documentando a história do grupo?
Várias ações estão sendo planejadas. A primeira é a tradução do livro do Þorsteinn Þ. Þorsteinnsson. Também queremos fazer um cadastramento de todos os descendentes na forma de uma árvore genealógica. Outro projeto que teve de ser adiado devido à alta do dólar foi uma viagem dos descendentes à Islândia em 2015.

 

Há perspectiva de cooperação econômica entre Paraná e Islândia?
Esse é um assunto que queremos discutir com o Consulado Honorário. Existem propostas culturais e oportunidades de negócio que podem ser desenvolvidas. Segundo o ex-embaixador da Islândia que nos visitou, todas as oportunidades estão abertas.
Diversos islandeses destacaram-se em suas áreas de atuação, como na medicina (Nana Sonddal e Edgard Barddal), ensino (Dascomb Barddal, sistema Barddal de educação em Florianópolis, desde jardim da infância até doutorado), líderes religiosos (Alfredo
Reikdal, em São Paulo), Kristrún Sigurdardottir, casada com Ernst Bengsen, donos da Cervejaria Kronenberg. Os Jonsson também se destacaram na política em Almirante Tamandaré (p.ex. Emilio Jonsson, nome da rua principal da cidade hoje) com nomes expressivos na região até hoje. Também lembramos que Jonas Bardal construiu o primeiro açude, que deu origem ao lago do parque do Bacacheri.

Erna e Ely Joakinsson

Erna e Ely Joakinsson

 

Augusto Reikdal conduzindo Terezinha Reikdal, montada a cavalo

Augusto Reikdal conduzindo Terezinha Reikdal, montada a cavalo

 

Família Joakinsson. De chapéu, atrás, Carlos Joakinsson. No meio, segurando uma criança, Ida Otto Reikdal

Família Joakinsson. De chapéu, atrás, Carlos Joakinsson. No meio, segurando uma criança, Ida Otto Reikdal

 

Sítio de Artur Reikdal

Sítio de Artur Reikdal

 

Rubens Joakinsson

Rubens Joakinsson

 

Família de Artur Reikdal (sentado à direita, de bigode), com sua esposa Izabel sentada a seu lado

Família de Artur Reikdal (sentado à direita, de bigode), com sua esposa Izabel sentada a seu lado

 

Autusto Reikdal e seu sobrinho Alfredo Reikdal (de gravata)

Autusto Reikdal e seu sobrinho Alfredo Reikdal (de gravata)

 

Autusto Reikdal

Autusto Reikdal

 

Rodolfo Reikdal e sua esposa Eunice Paduano Reikdal

Rodolfo Reikdal e sua esposa Eunice Paduano Reikdal

 

Diva e Elzira Reikdal

Diva e Elzira Reikdal

 

Autusto Reikdal (sentado com criança ao colo) e família. A seu lado, sua esposa Ana. De pé, atrás, o mais alto é Jorge Reikdal.

Autusto Reikdal (sentado com criança ao colo) e família. A seu lado, sua esposa Ana. De pé, atrás, o mais alto é Jorge Reikdal.

 

Título de Eleitor de Carlos Magnus Reikdal

Título de Eleitor de Carlos Magnus Reikdal

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