Subversão

maos

Subverto a forma do verbo. Faço incisões talhadas na pele para que não sumam.
Somos perto – ou quando a memória falha e ressignifica somos longe, somos além, somos a frase inventada, somos pecado e perdão.

O agora, sem passado nem futuro. O tempo-verbo-presente, sem distinção de moradas anteriores ou o plano abstrato da esperança ilusionista.
Cada palavra se torna arma, cria um jogo, uma espiral de significados e enigmas. Uso-as como flechas que atingem em cheio o alvo, que resistem absolutamente ao raso, que acertam ousadamente a pilha ordenada dos papéis, tingem as roupas organizadas por cor, bagunçam a leitura feita por ordem alfabética.

Crio o dicionário das obscenidades, do que não pode ser dito, do que não é nem pensado para que não valha o concreto. Reinvento as letras e o que elas podem significar, escrevo em cima das toalhas brancas engomadas e perfumadas, percorro esta linha sinuosa e frágil da coluna vertebral, basta uma pressão mais forte. Basta a queda, o mergulho. O abismo.

Diante do precipício ouve-se o silêncio refletido das águas. Somos aqui sem agora, somos sem tempo, somos sem ver, somos o espelho partido, somos hemisférios contínuos, somos o mapa que aponta os ventos, somos as linhas imprecisas das palmas das mãos.

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