A decadência da beleza

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Creio em Pixinguinha, em Van Gogh, em García Márquez, em Fernando Pessoa porque acredito na beleza como profilaxia

 

Uma paisagem urbana bonita que consegue me surpreender quando ando pelo centro da cidade são as árvores que cresceram na Rua XV. Quando era menina, não passavam de arbustos infantis e hoje as olho como espelho, tive a oportunidade de acompanhar suas adolescências e agora estão lá, erguidas, maduras, adultas. São, como sou, a testemunha das transformações de nosso calçadão.

Mas infelizmente as árvores da XV são a exceção desses duros tempos. Curitiba está cada dia mais feia. A impressão que tenho é que há um esforço coletivo para transformar nossa cidade, que já foi tão bonita, numa exposição de mau gosto. As faixas verdes pintadas nas ruas com o objetivo de segurança do pedestre são horríveis e para explicar veio a jequice de justificar a iniciativa inspirada em ruas de Nova Iorque e Buenos Aires “que também buscam a requalificação do espaço urbano e o incentivo aos deslocamentos a pé. Os profissionais do Ippuc receberam apoio técnico dos especialistas de Buenos Aires que, por sua vez, foram apoiados pela prefeitura de Nova York”, diz o site da prefeitura.

A decadência do Ippuc é gritante, constrangedora, humilhante. Não entendo o degringolar de escolhas de técnicos para ocupar cargos, falta de criatividade para executar obras, barbaridade de opções. Pesquisa e planejamento, informação e valorização do humano, utilidade e beleza, se tornaram conceitos abstratos, longínquos e completamente démodés. E com isso vamos enfeiando. Mas a transformação de Curitiba não é uma exclusividade nossa. O mundo virou as costas para algumas prioridades que adquirimos a partir da reflexão e filosofia de grandes gênios.

Em algum momento da história da humanidade, a beleza passou a ser um conceito quase desprezível. Parece que se tornou algo proibido. Hoje, os guias politicamente corretos, para conferir valor a outros planos, tratam de condenar qualquer consideração estética – reconhecer a importância da beleza se transformou em sinônimo de futilidade ou insignificância.

Para tratar do que a humanidade registrou nas páginas de sua existência, se recorrermos às artes, até o início do século passado, poesia, música, pintura tinham como mote principal a comoção pela beleza. A reviravolta do século XX influenciou esse canal de comunicação e transformou a arte, em todos os segmentos, como um meio de chocar, criar perturbação, colocar seu expectador para pensar em grandes questões a partir de um desconforto estético. E talvez essa tentativa, que tem seus incontestáveis méritos, tenha proporcionado também uma inversão de valores, uma despencada geral em nossas conquistas mais profundas a respeito das delicadezas do espírito. E depois de vários caminhos e confusões a beleza cedeu seu espaço à feiura, no mesmo tempo rolamos pela ladeira da decadência dos valores que estão associados ao belo: cortesia, educação, sutileza, gentileza, observação, respeito, cuidados com a linguagem e por aí vai.

Passamos a frequentar as vielas sombrias das rudezas cotidianas. As cidades, por exemplo, com a desculpa de se tornarem mais funcionais, caíram na esparrela de desprezar a importância estética do meio ambiente e hoje vivemos amontoados em prédios feios, calçadas toscas, cores difíceis, barulhos, arquitetura confusa e ruas com faixas verdes.

Há também no meio disso tudo os equívocos causados pela vontade de democratizar acessos. Antes, alguns entendimentos eram para uma determinada parcela da sociedade e quem não tinha conhecimentos ou recursos suficientes para fazer parte daquele clube, formava o próprio, com suas características e valores igualmente importantes. Por isso era possível uma cultura tão rica tanto nos grandes salões urbanos como nas festas rurais. Cada mundo tratava de desenvolver o que melhor lhe representava, com cuidados e preservação dos próprios traços.

A imposição da mistura de culturas, como se isso fosse o mais fiel significado de democracia, gerou produtos grotescos. Para citar um de tantos: a música que hoje leva o nome de sertanejo universitário. Quando nos anos 1940, a temática nordestina, que revelava o homem sertanejo e seu jeito de ver o mundo, se mostrou para as grandes cidades, tendo como carro-chefe Luiz Gonzaga a empunhar sua sanfona, me parece óbvio que o objetivo era mostrar o que existia de muito particular naquele universo: os ritmos, os costumes, a seca, as dificuldades, os modos de vivenciar o amor, a vida e a morte. Décadas depois, uma farofa geral promoveu a mistura errada entre os dois mundos e hoje temos o termo “sertanejo universitário” que por si só já é paradoxal. A preservação de costumes dos dois lados, urbano e rural, foi engolida em detrimento a isso que as pessoas gostam de chamar de democratização e acabamos todos, campo e cidade, sem identidade, sem marcas, sem diferenciais. Sem beleza.

Infelizmente esse é um conceito que se multiplica em todos os segmentos e a muleta para explicar as limitações que temos: não precisa ser bonito, basta funcionar/ não precisa ser bem escrito, basta comunicar / não precisa ser bem feito, basta fazer / não precisa ser autêntico, basta copiar e importar um nome.

Precisamos recuperar o que demoramos milênios para desenvolver como civilizados, precisamos voltar ao tempo da delicadeza. Como disse o filósofo e escritor inglês Roger Scruton, sobre a beleza como recurso essencial: “Através da busca pela beleza, nós modelamos o mundo como um lar e, fazendo isso, nós igualmente ampliamos nossas alegrias e encontramos consolação para nossas tristezas. A arte e a música lançam uma luz de significado na vida ordinária e, através delas, nós somos capazes de enfrentar as coisas que nos preocupam e encontrar consolação e paz em suas presenças. Essa capacidade da beleza, de redimir nosso sofrimento, é um motivo pelo qual a beleza pode ser vista como substituta para a religião.Por que dar prioridade à religião? Por que não dizer que a religião é uma substituta da beleza? Melhor ainda, por que descrever as duas como rivais? O sagrado e o belo, permanecendo lado a lado: duas portas que abrem para um único lugar; e, nesse lugar, nós encontramos o nosso lar”.

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