Editorial. Ed. 179

Ainda vivemos a ressaca das Olimpíadas. Muito Brasil, pouca medalha, é verdade, mas não fizemos feio na organização. Saiu muito melhor do que esperávamos. E, principalmente, do que esperavam os desconfiados habitantes do hemisfério norte, onde a civilização pegou há algum tempo. Os jogos da zika endêmica e da violência extrema surpreenderam pela ausência do Aedes aegypti, que sabidamente some no inverno, e pela presença de policiamento ostensivo.

A verdade é que o Brasil fez bonito. Um espetáculo de orgulhar até os mais ranhetas do time do “se há governo, sou contra”. Bom, somos craques em organizar espetáculos coletivos e, como tinha de ser, tudo acabou em samba. O encerramento foi a apoteose carnavalesca perfeita com atletas do mundo inteiro tentando sambar a seu jeito.

A nota ruim fica para o debate paralelo que envolveu todas as extrações e enveredou pelo viés político, que alimentou polêmicas inúteis. O Brasil não é o primeiro nem o único país em que as Forças Armadas bancam treinamento de atletas. Acontece na totalitária China, na social-democrata França, na anárquica Itália. Mas, por aqui, o que deveria ser investimento em competitividade se transformou em rixa ideológica.

Horrível a execração de atletas de modalidades das quais os críticos das rodas de programas esportivos na tv nem mesmo conhecem as regras. Até a torcida foi vítima da chatice do politicamente correto, esse mal que obscurece a inteligência, alvo de críticas por vaiar atletas, reação usual em todos os cantos do mundo, tão legítima quanto o aplauso.

Apesar dessa gente, o Brasil poderá festejar o seu melhor desempenho olímpico da história. E reverenciar a meritocracia. Sejam homens, mulheres, gays, pretos, brancos, amarelos, civis, militares, crentes ou agnósticos, vencem os mais preparados, os melhores. E os que não chegam ao pódio tentam melhorar as suas marcas. Sem ódio. Uma lição que vai muito além dos jogos. Aprendê-la seria um legado e tanto.

Agora voltemos à realidade. A péssima qualidade dos serviços públicos, as greves permanentes na Educação e na Saúde, a falta até de insumos básicos nos hospitais e a insegurança turvam o olhar para o tão propalado legado da Rio 2016. O Estado, literalmente falido, não tem dinheiro para nada. E a cidade não sabe o que vai acontecer quando os seis mil homens da Força Nacional, convocados para garantir a segurança olímpica, forem embora.

O Brasil dos políticos ganha o centro do noticiário. Impeachment, novo governo, reformas, esforço para sair do atoleiro da crise econômica que também é social e moral, porque pune os brasileiros mais necessitados pela incúria e desmandos de um time que ocupou o poder nos últimos 14 anos e que deixou o país à beira da insolvência.

Tudo isso mais as mazelas municipais farão parte do circo de horrores que passamos a ver nos programas eleitorais na TV e nas redes da internet. Preparem o estômago e a cabeça. Não há engov habilitado a desopilar o fígado, agora que a Olimpíada terminou e tudo volta a ser como antes.

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