Entre apático e descrente da política, eleitor deve cumprir tabela em outubro

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Fotos: Brunno Covello

 

É raro encontrar, nas ruas, quem queira conversar sobre o tema sem se armar de sentimentos negativos

 

Curitiba, meados de agosto de 2016. Quem passa pelas ruas da cidade não se dá conta de que, dentro de aproximadamente 40 dias, pouco menos de 1,3 milhão de eleitores terão escolhido o futuro prefeito da capital paranaense mais 38 ocupantes da Câmara Municipal. A escolha recairá sobre 1.115 candidatos. Em 2012, com uma campanha mais longa e menos restrições à interação candidato-eleitor, apresentaram-se 718 postulantes. Ausente das ruas – antes cobertas de cavaletes, cartazes e folhetos agora vedados pela lei eleitoral –, a campanha parece também não ocupar, pelo menos por enquanto, o pensamento dos que detêm a mais eficaz das armas para melhorar a qualidade da representação popular: o título de eleitor.

Ideias foi às ruas do Centro da cidade para tentar entender o que se passa na cabeça das pessoas naquele quase pós-Olimpíadas e também quase pós-impeachment. Detectou uma grande desmotivação, pelo menos entre a maior parte de quem aceitou conversar. O fato é que a disputa não está motivando o eleitor, como sempre obrigado a se apresentar no dia da eleição à Justiça Eleitoral para, de alguma forma, votar. São raros os que se dispõem a buscar informações sobre os candidatos com quem possam se identificar. Há até quem dê graças pelo fato de a campanha ser menos visível e mais curta, como os estudantes de Laranjeiras do Sul (Centro-Sul do Paraná) David Sullivan e Cássia Belloni, de 19 e 16 anos.

Como em Curitiba, no interior a cidade é um silêncio só. E ele, que já vota, não se importa. “A cidade fica até melhor. E pra mim, ter ou não ter eleição não faz diferença”, opina.
A marcante impressão que fica é a de que justamente quem tem nas mãos o poder de escolher quem deve ocupar os cargos de prefeito e vereadores evita falar sobre o assunto. Antes, tem uma certa má vontade até mesmo de pensar sobre ele. E mais: quando se referem a eleição, candidatos e políticos em exercício de mandato, muitos geralmente associam ao tema palavras com forte carga negativa.

A florista Marilene Halas é apenas um entre muitos exemplos. “Estamos cansados, desesperançados, descrentes. O povo não suporta mais tanto abandono”, resume. Antes mesmo de concluir o raciocínio, a comerciante é interrompida por uma freguesa fiel. Ela entra rapidamente na loja, confirma o discurso da comerciante e, em poucos minutos, sai com um botão de rosa branca sem se apresentar.

Como Marilene, a mulher que não demora a sair se queixa da falta de segurança na praça Rui Barbosa, onde há mais de 20 anos funciona o estabelecimento, e do excesso de moradores de rua no local. “Político nenhum resolve ou não quer resolver, nem vem aqui ver o tamanho do nosso problema”, diz. Mas a comerciante, que revela estar acostumada a ouvir comentários como aquele de outras pessoas que entram em seu quiosque, observa ainda estar na dúvida quanto ao destino do seu voto. Se não se decidir pela anulação, conta, pode escolher “só gente nova”. O novo, para ela, não numa alusão aos candidatos jovens mas o oposto de político profissional, que busca a reeleição até onde ela é possível e pelo qual tem aversão.

A alternativa de voto experimentada pela eleitora florista é oposta à da pipoqueira Luciane de Oliveira, de 19 anos, que votará pela primeira vez em outubro próximo. Apesar de considerar o voto como mera obrigação e que o resultado do pleito não vai mudar em nada sua vida, não descarta a possibilidade de escolher alguém – uma mulher - que concorre à reeleição. O motivo, explica, é que Luciane conhece essa pessoa - que fez sua base eleitoral a partir do bairro onde ela já morou – e não suas propostas. Aliás, Luciane não conhece a plataforma eleitoral de nenhum candidato.

Colegas de trabalho em uma ótica do Centro da cidade, Mariel Dias e Murilo Zambon também são jovens mas, ao contrário de Luciane, não querem saber de candidatos que já ocupem cargos eletivos. No entanto, ainda não sabem quem serão os escolhidos. Ainda não estão inteirados sobre os nomes envolvidos na disputa. Eles explicam que parte do desinteresse se deve ao grande volume de informação sobre autoridades públicas ligadas a escândalos – que parece contaminar todas elas - e a sensação, a partir do universo de cada um, da desatenção de quem está no poder em termos de obras e mudanças legislativas úteis à população. “Tem que trocar todo mundo”, sentencia Mariel, de 21, que já votou para prefeito. Murilo vai escolher candidatos para uma eleição municipal pela primeira vez, pois tem apenas 19 anos.

Nem todos os jovens abordados em nossa enquete, porém, admitem sequer a provocação para falar sobre política e eleições. Um grupo de alunos que saía do Instituto de Educação Erasmo Pilotto, próximo da praça, demonstra a dificuldade que será para os candidatos chegar nos eleitores de primeiro voto. Para eles, nem um pouco interessados na nossa conversa, a justificativa é simples: “Votar é coisa de gente velha. Só tenho 16 (anos)”, disse um deles, que segue andando calmamente com os amigos enquanto responde.

Dezesseis anos é a idade do voto facultativo. Sintomaticamente, é o grupo etário que estará menos presente nas urnas com relação à eleição municipal anterior, em 2012. Este ano, informa o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), estão cadastrados e aptos a votar nos TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) de todo o País 2,6 milhões de pessoas. Mas o contingente é 23% menor que há 4 anos. Além de a população jovem estar perdendo espaço para a mais velha nas urnas porque as famílias estão tendo cada vez menos filhos, não é de se desprezar o fato de os adolescentes poderem ter sido contaminados pelo desencanto com a política que afeta os mais velhos e, assim, adiado o momento de se apresentarem à Justiça Eleitoral.

De novo na Rui Barbosa, a uns 50 metros do quiosque de Marilene e do carrinho de pipoca de Eliane, na entrada de uma estação-tubo, a vendedora ambulante Emília de Araújo também descamba a falar sobre a decepção quanto ao que os eleitos não fazem. “É um pecado essa gente toda na rua. Não importa se são pobres ou drogados. Ninguém está nessa situação porque quer. E quem pode não faz por eles”, desabafa a comerciante informal, 60 anos mais velha que o irreverente grupo de adolescentes que faz pouco da eleição. Enquanto fala, Carolzinha, como garante ser mais conhecida pelos passantes, dirige o olhar para os muitos colchões e roupas de cama espalhados pelos canteiros da praça enorme e encharcados pela chuva que, por dias seguidos, torna mais frio e cinzento o inverno curitibano. A par dos nomes dos candidatos a prefeito, afirma que até já teria o seu escolhido se ainda votasse: seria um jovem já em exercício de mandato. Mas aos 76 anos, liberada do compromisso pela Justiça Eleitoral, limita-se a dar um conselho aos que precisam cumprir a obrigação: “Tenham muito discernimento, que a responsabilidade é grande e a decisão, difícil”.

Entre os cafés e a livraria da Boca Maldita, a conversa sobre eleição é com o aposentado Darcy Hoffmann e leva imediatamente a uma série de considerações sobre corrupção no Brasil, na América Latina e na Itália. Ele observa que, se o eleitor brasileiro ainda vota segundo a aparência ou o discurso superficial dos candidatos, agora está mais consciente sobre a repercussão de uma atitude assim tão displicente. Com 80 anos e dezenas de eleições no currículo, acredita que é o momento de despontar uma nova geração de políticos para assumir o poder e, de fato, combater a corrupção de maneira eficiente. “Quem se propôs a fazer isso, até hoje, não conseguiu”, diz, referindo-se a presidentes da República como Jânio Quadros e os generais da Ditadura Militar.

Raridade no cenário de desalento eleitoral – quase apatia – detectado em nossa enquete, a vendedora na Rua da Cidadania da Matriz Eliana da Silva Martins, 41 anos, está em clima de eleição. Mais que isso, apesar dos dramas pessoais, revela ser uma mulher politizada. É que, independente dos apelos exteriores para prestar atenção nas mensagens – ou simplesmente nos números, que é o que interessa aos ávidos caçadores de votos – desses ou daqueles candidatos, ela costuma assistir a entrevistas com os postulantes à Prefeitura e compara para nós, de modo rápido e articulado, os discursos de dois deles.

Em vez de se lamuriar, Eliana fala com vivacidade de temas comuns às agendas de candidatos e gestores públicos. É o caso do metrô – cuja viabilidade não convence Eliana – e um outro que ela conhece muito bem: políticas públicas para dependentes químicos. Paciente de uma unidade de saúde municipal para usuários de drogas desde 2005, desvia o foco da conversa inicial para fazer uma avaliação crítica sobre o que chama de uso excessivo de medicamentos para o controle da dependência, da qual diz ter sido curada por Jesus. “É trocar uma droga (ilícita) por outra (lícita)”, exclama ela, que não se deixa abater nem pelo fato de ter um filho de 24 anos preso e de se responsabilizar pela manutenção do neto de 3 anos, filho do rapaz enrolado com a Justiça.

A professora aposentada Flora Burstein para de caminhar na altura na avenida Luiz Xavier e nos responde que “gostaria de uma luz” para decidir o que fazer na urna de votação. “É difícil pensar pois a descrença, o pé atrás, é tanto com candidatos conhecidos quanto desconhecidos”, desabafa. E a fonte da desconfiança, assegura, está em Brasília - sede do poder nacional e do maior escândalo de corrupção já revelado – e na falta de senso prático dos gestores locais. “O problema é a rede de esgoto e vêm falar em lâmpadas! Tudo bem: a iluminação é importante. Só que a questão do esgoto é mais e não se dão conta disso. Como pode?”, indaga. No entanto, Flora não é de todo pessimista. Além de acreditar que nem todos os políticos sejam corruptos, avalia que o fim da imunidade parlamentar teria grandes chances de reduzir a impunidade que ajuda a desacreditar política e políticos ante os cidadãos.

A angústia da professora é compartilhada pelo engraxate e ex-técnico de futebol amador Aparecido Rodrigues da Silva, que há 24 anos atende na Boca do Brilho, na praça Osório. “Sempre me arrependi dos votos que dei e acho que ninguém merece o meu voto. É o menos pior que leva”, afirma, cético. Para Aparecido, acostumado a conversar com fregueses de todos os perfis acadêmicos e econômicos que lhe confiam os sapatos – entre eles prefeitos do interior que acorrem à Associação dos Municípios do estado, no prédio em frente ao quiosque dos engraxates –, 70% dos eleitores devem pensar como ele. Na sua opinião, há dois remédios para o problema: tornar o voto facultativo e distrital. “Só vai votar quem quiser, quem estiver motivado. E o que é melhor: vai votar em alguém que conhece, que pode encontrar na sua região – e não em alguém que não se sabe se mente ou fala a verdade. Geralmente eles mentem”, explica.

Freguês de um colega de Aparecido, o procurador de justiça aposentado Rui de Almeida Valente também está desmotivado como eleitor. Mais que isso, agora está decepcionado. O motivo do sentimento, explica, está na decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de rasgar a Lei da Ficha Limpa ao decidir que políticos apanhados por ela continuam aptos a serem votados. “Não cabe o que ele (o ministro Gilmar Mendes, do STF) disse”, pasma. Entre outras coisas que chocaram Valente, o ministro declarou que a aprovação da lei foi “coisa de bêbado”. Pelo menos, por causa da idade, não tem a obrigação de comparecer às urnas.

Para o bancário André Ricardo e a mulher, a dona de casa Angelita da Silva, apesar de o primeiro turno da eleição estar marcado para 2 de outubro, ainda é cedo para pensar na eleição. Eles devem decidir o que fazer mais perto do pleito, explicam. “Todo eleitor vai precisar se interessar e buscar informação sobre os candidatos, independentemente de horário eleitoral”, diz André. Angelita, assim como o marido, considera a possibilidade de votar em mulheres mas não pela questão de gênero. “Se me identificar com a proposta de uma mulher mais do que de um homem, posso votar, sim. Mas só por isso”, diz ela, segurando a mão do caçula, Miguel, de 6 anos. O filho mais velho, de 16, ainda não vota.

 

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“Estamos cansados, desesperançados, descrentes. O povo não suporta mais tanto abandono”, Marilene Halas

 

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Luciane de Oliveira, que votará pela primeira vez, não conhece a plataforma eleitoral de nenhum candidato

 

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“Tem que trocar todo mundo”, sentencia Mariel DIAS, 21 Anos, que já votou para prefeito

 

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Murilo Zambon, 19 anos, vai escolher candidatos para uma eleição municipal pela primeira vez

 

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“É um pecado essa gente toda na rua. Não importa se são pobres ou drogados. E quem pode não faz por eles”, Emília de Araújo

 

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Darcy Hoffmann acredita que é o momento de uma nova geração de políticos assumir o poder e combater a corrupção de maneira eficiente

 

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Eliana da Silva Martins costuma assistir à entrevistas com os postulantes à Prefeitura e compara os discursos

 

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“É difícil pensar pois a descrença, o pé atrás, é tanto com candidatos conhecidos quanto desconhecidos”, Flora Burstein

 

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Aparecido Rodrigues da Silva apoia o voto facultativo e distrital: “Só vai votar quem quiser. E vai votar em alguém que conhece”

 

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Rui de Almeida Valente está decepcionado com a decisão de Gilmar Mendes, do STF, de rasgar a Lei da Ficha Limpa

 

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Para André Ricardo e Angelita da Silva, é cedo para pensar na eleição. Eles devem decidir o que fazer mais perto do pleito

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