Imperialismo já era

quixote

Em momento de excitação patrioteira, como era o tom da campanha presidencial de 1960, o divisor de águas entre nacionalistas e entreguistas, havia um redutor muito parecido com o de hoje entre coxinhas e petralhas. Essa circunstância mostra que a esquerda de hoje é como a daquele tempo com praticamente o mesmo ideário que sataniza o liberalismo ou qualquer sinal de desregulação no mercado.

Numa atmosfera carregada como a daqueles dias que numa versão civilizada proposta pelo sociólogo Hélio Jaguaribe era entre o liberal-cosmopolitismo e o nacional-trabalhismo, o que vinha afinal desde Getúlio Vargas e seu nacional desenvolvimentismo, punha em choque o general Henrique Teixeira Lott contra a figura messiânica de Jânio Quadros. Lott junto com o seu colega, também general, Odílio Diniz, que seria mais tarde um dos artífices do golpe de 1964, tinha um crédito nas áreas do populismo porque ambos fizeram a intervenção militar que assegurou a posse de Juscelino Kubitschek, em 1955, com a declaração do impedimento do presidente da Câmara Federal, Carlos Luz, para assumir a presidência em lugar de Café Filho que estava doente. Muito sério e sem cintura, Lott foi moído por Jânio e também pelos destemperos ideológicos do fanatismo, um deles muito engraçado, a que já me referi, ocorrido em Curitiba.

Em plena Semana da Pátria, a Coca-Cola botou um balão enorme na Boca Maldita e um ex-militar e nacionalista, o cartorário José Nociti, ao despertar na manhã e ver o símbolo do imperialismo diante de sua janela (morava no Palácio Avenida, sede mais tarde do Bamerindus, do HSBC e agora do Bradesco, Bra de Brasil) surtou e descarregou tiros no objeto e que não o esvaziavam e tanto que à noite, junto com o escultor Nelson Matulevicius, buscou alvejá-lo com flechas incendiárias da parte superior de um ônibus.

A galera, em mais de oito mil pessoas, acompanhava tudo na avenida querendo ver, de forma frenética, a derrubada do balão de gás. Houve necessidade de intervenção do Corpo de Bombeiros que removeu a peça publicitária sob aplausos e com alguns ensaiando cantar o hino nacional, precedendo o clima das Olimpíadas. Os nacionalistas ficaram eufóricos como se tivessem abatido Tio Sam e no dia seguinte o gerente da Coca-Cola, George Kern, depois de enviar engradados do refrigerante aos jornais que divulgaram a batalha, celebrou o feito com a burguesia da praça com um dos lançamentos seus: o hábito de comer formigas como aperitivo, época em que nossos bacanas se transformavam em tamanduás, tal a paixão pela novidade. Dois símbolos nesses fatos: a queda do imperialismo ianque e a gourmetização da formiga que fabulistas haviam erigido como símbolo do trabalho oposto à cigarra como alegoria da curtição hippie.

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