O grande engodo eleitoral

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Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Shakespeare sabia das coisas. Não votava nem no PT nem no PSDB nem em partido nenhum, mas era antenado na alma humana. Impossível imaginar o que diria sobre a nossa experiência política permeada de regras safadas e contaminada desde sempre pela corrupção.

A propaganda eleitoral, com raras exceções, é um horror. Vi anúncios que mostram uma mesa onde crianças comem a sua ração diária, que vai sendo apagada e reduzida à medida que os banqueiros avançavam sobre a taxa de juros. Cada meio ponto a mais na taxa de juros, as proteínas e os carboidratos iam sendo apagados dos pratos das crianças pobres. Um anúncio sórdido como esse chegou a ser classificado como muito talentoso por profissionais da publicidade. E, é claro, por profissionais da militância petista e adoradores do João Santana.

Até os paralelepípedos sabem que vivemos um grande, enorme engodo. Descolamos da realidade para dar lugar a fadas, reis, rainhas, príncipes, dragões, vovozinhas, lobos maus, além de monstros de toda espécie que habitam as fábulas e seu universo de estereótipos que ajudam as mentes infantis a desenvolver a fantasia, a criatividade, e colaboram na absorção de princípios morais, nas boas regras de comportamento e no discernimento entre o bem e o mal.

A máquina de fabricar mitos recorreu aos estereótipos arraigados no inconsciente coletivo infantilizado de boa parte do eleitorado brasileiro. E assim elege néscios, incompetentes, corruptos e outros tipos da mesma extração.

Temos um modelo eleitoral de conveniência que com a proibição da doação privada finge inibir a roubalheira e a doação ilícita. E até gente séria finge acreditar

Tudo tem seu tempo dentro da escala de evolução intelectual e biológica natural, e é por isso que a regressão de mentes adultas ao universo de estereótipos infantis – ou a infantilização – é um sintoma preocupante, principalmente quando se manifesta coletivamente e passa a ser um fator de peso numa campanha eleitoral às vésperas de decidir quais serão os rumos futuros de sua cidade.

vovoAqueles que na falta de argumentos declamam (como dizia Lênin), conseguiram rebaixar o debate político brasileiro à profundidade dos contos da carochinha, como aquele em que o lobo acusa o cordeiro de turvar a água que ele já bebeu.

Neste ano, então, chegamos ao sublime. Só agora, a menos de um mês das eleições, o interesse da população começa a esquentar. Antes, tivemos os jogos olímpicos no Rio, com mais de 300 horas de transmissão de TV por dia, novas delações no âmbito da Lava Jato, também diárias, e o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff. Com essa concorrência a atenção para as eleições ficou próxima de zero. O calendário chega atropelando e o eleitor terá pouquíssimo tempo para conhecer minimamente aqueles que postulam administrar a sua cidade e representá-lo na Câmara Municipal.

Descolamos da realidade para dar lugar a fadas, reis, rainhas, príncipes, dragões, vovozinhas, lobos maus, além de monstros de toda espécie que habitam as fábulas e seu universo de estereótipos

Temos um modelo eleitoral de conveniência que com a proibição da doação privada finge inibir a roubalheira e a doação ilícita. E até gente séria finge acreditar. A verdade é que, com a nova legislação, os candidatos, tanto majoritários como proporcionais, passaram a depender quase que exclusivamente do Fundo Partidário – recurso público repassado mensalmente aos partidos de acordo com o peso da legenda.

Mas não duvidem da existência de uma nova modelagem de caixa dois. Quando se trata de corrupção, não há limite de criatividade, como demonstraram o mensalão e os escândalos na Petrobras e Cia. O Fundo Partidário, com dotação de mais de R$ 800 milhões neste ano, é altíssimo para o bolso do eleitor que, se perguntado fosse, teria outras prioridades. Mas não passa de trocados na conta das campanhas.

Sem patrocínio empresarial, o laboratório das eleições 2016 assegura vantagens aos ricos e famosos. Os primeiros podem custear as suas próprias campanhas, como já antecipou o milionário João Dória, candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo. E os da fama contam com a superexposição, a exemplo do também candidato Celso Russomano, comunicador de programa diário na TV, que leva a dona de casa direto para a urna.

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Vale também captar dinheiro diretamente de pessoas físicas, algo que sempre foi permitido, mas que nunca ganhou corpo no Brasil. Até porque os pressupostos são confiança e crença do eleitor, commodities escassas no país. Para a doação direta, imaginavam-se novidades, como a arrecadação de fundos via internet, fato que não passou pela cabeça dos congressistas que mudaram a lei. Provocado, o TSE não se pronunciou sobre a coleta digital de recursos e a questão continua em aberto. No discurso, partidos e candidatos afirmam que as eleições de 2016 vão estabelecer novos paradigmas. Pode ser. Mas até então, tudo é incógnita.

Ninguém disse como vai pagar nem o que custa barato, como panfleto, santinho, som, palanque, comício. Muito menos as produções de TV, caríssimas, mesmo deflacionadas pela crise e sem marqueteiros remunerados com dinheiro de propina.

 

Batalha do Armageddon

Para quem se dedica a olhar o mundo pelo universo das redes sociais, ou até mesmo da imprensa convencional, as eleições municipais deste ano parecem antecipar a batalha do Armageddon – o conflito final. O mundo parece dividido irremediavelmente entre dois exércitos, e só um deles sobreviverá, enquanto o outro será extinto e eliminado da face da Terra.

Enquanto o povo se espreme em meios de transporte sujos, lotados e ineficientes, ou perde horas para se deslocar de casa ao trabalho, numa cidade graciosamente inóspita como Curitiba, o mundo no qual os políticos gravitam parece resumir-se aos escândalos de corrupção, às vantagens do ciclismo, à defesa dos animais e ao kit gay.

Sim, são batalhas de valores, e um povo deve preocupar-se com os valores de quem pretende governá-lo. Mas acreditar que a vida em comunidade se resuma a isso tem um efeito devastador sobre o ânimo do eleitor, que poucos se dedicaram a estudar em profundidade. A verdade é esta: num lugar onde o voto é obrigatório, há grande chance de que os eleitores simplesmente não apareçam para votar. Pode-se conjecturar sobre doentes, incapacitados de se locomover, pessoas viajando, ou simples indiferentes e preguiçosos.

Não duvidem da existência de uma nova modelagem de caixa dois. Quando se trata de corrupção, não há limite de criatividade, como demonstraram o mensalão e os escândalos na Petrobras e Cia.

A eleição se tornou uma guerra aborrecida de facções fanatizadas e, enquanto uns se matam por ela, outros preferem bocejar de pura indiferença. Não é um bom presságio para o desenvolvimento da democracia, e é um sintoma de que a vida política se tornou uma atividade que interessa aos governantes mas é desprezada pelos governados.

Depois de tantos anos de ditadura militar, é assustador que uma democracia tão jovem apresente sinais tão latentes de senilidade. Os políticos precisam tratar de restabelecer a honra da sua atividade.

 

Vale tudo, desde sempre

Sempre defendi que uma das maiores pragas de nosso sistema é o voto obrigatório. O eleitor que vota por obrigação tem sempre os piores motivos para escolher. E isso não se aplica apenas à nossa pobre realidade social e cultural. Vamos a uma dose de ciências.

Quando o eloquente Adlai Stevenson disputava a presidência dos EUA com Dwight Eisenhower, uma mulher entusiasmada disse ao candidato democrata, depois de um comício: “Todo ser pensante vai votar em você”, ao que Stevenson supostamente respondeu: “Senhora, isso não é suficiente. Preciso da maioria”. O filósofo David Hume reconheceu três séculos atrás que a razão é escrava da emoção, e não o contrário.

onibusNo livro O Cérebro Político (editora Unianchieta), o neurocientista norte-americano Drew Westen, professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Emory, e que também trabalhou como conselheiro de marketing em campanhas presidenciais do Partido Democrata, mostra como funcionam os circuitos neurais que controlam as emoções e as decisões dos eleitores.

Drew fala em experiências científicas comprovadas, e não trata a emoção como qualquer espécie de sentimentalismo rasteiro. A emoção não é tango. É ciência. Drew parte dos estudos do neurocientista português Antonio Damásio, que dissecou o papel da emoção e da razão no cérebro humano, e trabalhou para comprovar tudo em experiências laboratoriais conduzidas através de ressonância magnética, que mapeou as áreas do cérebro e o funcionamento dos respectivos circuitos neurais.

Para facilitar o entendimento, Drew simplificou dividindo o córtex pré-frontal do cérebro em duas áreas: o “cérebro vermelho”, no centro do córtex, onde se localizam os circuitos emocionais, e o “cérebro azul”, na periferia do córtex, onde se localizam os circuitos racionais.

Resumindo um pouco grosseiramente: numa campanha política, quem trabalha para ativar os circuitos do “cérebro vermelho” tem mais chance de sucesso de quem trabalha para ativar os circuitos do “cérebro azul”.

Afirma Drew: “O cérebro gravita em torno de soluções concebidas para corresponder não apenas a dados, mas a desejos, por disseminação da ativação de redes que levam a conclusões associadas a emoções positivas, inibindo redes que levariam a emoções negativas”.

Em outras palavras: o cérebro de quem tem um partido político definido descarta as chamadas “emoções negativas” e tende a ativar apenas as emoções positivas já previamente definidas. Assim, os petistas descartam o mensalão, como se não tivesse existido, como os tucanos descartariam seus supostos escândalos ou a quebra da promessa de Serra de permanecer na prefeitura durante os 4 anos de mandato, como se também não tivessem existido.

Assim, quem é petista permanece petista, quem é tucano permanece tucano, e é no centro flutuante e indefinido que os marqueteiros vão buscar aprisionar o “cérebro vermelho” que define quem ganha a eleição.

 

Via-Crúcis

brainNão teria o Brasil que cumprir as quatorze estações de sua via-crúcis para se tornar aquilo que tem tudo para ser: um gigante bem desperto entre as nações. Clima, solo, água, espaço, vegetação, muita riqueza em seu subsolo, tanto na terra quanto no mar. Em se plantando e em se trabalhando, tudo dá. Sem falar no povo temente a Deus, inteligente, criativo, musical, sensível, generoso. Tirando, é claro, os políticos, especialmente os que estão enleados na Lava Jato. Eles não são ETs. São gente como qualquer um de nós. Só que desandaram. Ou foram desandados.

O mal que fizeram ao Brasil é muitas vezes mais danoso que os males de 64. Estilhaçaram com o cristal da esperança de muita gente que, apesar de sofrida com aqueles choques, acreditaram ser possível começar de novo e começar limpamente.

Usando em benefício próprio o nosso dinheiro, deixaram de cuidar da educação, da saúde, da segurança, dos camponeses, das estradas, dos transportes. Deram miçangas e espelhinhos a uma massa de eleitores que mantiveram numa confortável ignorância e que se satisfazem com qualquer dez reis de mel coado.

Quem é petista permanece petista, quem é tucano permanece tucano, e é o centro flutuante e indefinido que define quem ganha a eleição

E ainda: despertaram fúrias antes inexistentes entre nós. Ódio entre irmãos. Raiva. Debates estéreis e prenhes de estupidez. Se você não aprova o PT e não gosta do Lula, é um fascista safado da elite cheirosa e estou sendo moderado com as palavras. Se você se confessa de esquerda e diz que deplora a direita, Santo Cristo da Abadia, o que vai ouvir!

Há poucos anos seria difícil acreditar que Luiz Inácio Lula da Silva tenha presenciado o inchaço da coalizão partidária que possibilitou o céu de brigadeiro de seu governo (logo ele, conhecedor dos meandros do nosso Congresso, o abrigo de 300 picaretas como ele mesmo revelou ao Brasil) e que, tal qual um político virginal, desconhecesse o mensalão.

Pois bem, o Brasil afundou e não consegue reformar suas leis, seu processo político-eleitoral que muda a cada pleito e que joga a população inteira num desânimo, numa descrença atroz nos políticos e na chance mínima de que um dia consigamos ser contemporâneos do mundo civilizado.

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