Biblioteca para quem?

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No dia 26 de outubro é comemorado o Dia da Biblioteca Escolar. Pouco se sabe, pouco se fala. Pouco se lê. Na realidade, nada se comemora. A própria história da biblioteca escolar é conturbada, pequenos são os números e fontes sobre o assunto. Rubens Borba de Moraes, bibliotecário, bibliógrafo, bibliófilo, historiador, pesquisador brasileiro e um dos organizadores da Semana de Arte Moderna contribuiu com o que pode para não deixar o assunto morrer. Em Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial ele conta como o mundo literário chegou a terras tupiniquins. Rubens agradeceu aos nossos primeiros religiosos cristãos, pois foram eles que iniciaram essa empreitada.

Infinitos eram os analfabetos no período colonial. Muitos eram no Império e com a Primeira República o cenário não foi diferente. A demanda por literatura, livros, arte e prazeres ficava nas mãos das elites intelectualizadas, refletidas dentro desses períodos na cidade do Rio de Janeiro e depois nas províncias da República. Nesse período a biblioteca ganha uma nova configuração. No final do século XIX e início do XX o ambiente torna-se importante para as escolas privadas, com objetivo principal de educar os filhos da elite brasileira, com ênfase na religiosidade.

Com algumas reformas educacionais, apoiadas na ideia da Escola Nova de Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, foi legitimada a biblioteca escolar no sistema de ensino nacional a partir da década de 1930. Os anos seguintes foram de tentativa de aprimorar essa política nacional com intuito de criar um sistema único para todo o país. E a biblioteca das escolas estava inclusa dentro de todas as leis e reformas de então. Sempre foi vista como importante. Pelo menos nas teorias e nas linhas.

Toda a correria para se ter uma educação mais acessível desencadeou diversos frutos e o número de analfabetos diminuiu consideravelmente desde os tempos de colônia portuguesa. As leis e as formas de acesso melhoraram. Mas o Brasil, como um país de contrastes que é, mostra ainda sua tremenda desigualdade e atrasos. E a escola pública é uma dessas faces prejudicadas e esquecidas. Alguns estudos demonstram que nas décadas de 1990 e na primeira década do século XXI as políticas de desenvolvimentos das bibliotecas escolares são tímidas e pouco palpáveis. Há leis, como a de 1996, que contemplam discursos de importância ao espaço da biblioteca como de estímulo à leitura e ao aprendizado. E pouco se vê depois. Apenas exacerba-se a diferença do discurso à prática.

Em épocas de eleições, como a que vivemos agora, é bonito e predomina nos dizeres de candidatos a importância da educação para as crianças e adolescentes. Que a atenção às escolas municipais será de 100%. Ainda há quem caia em certos discursos, quem tenha esperanças e quem já desistiu faz tempo. Infelizmente as escolas capengas e suas bibliotecas miúdas continuam por lá. Vazias. Os estudantes não se interessam e não há incentivo. Não há atualização.

Quando há textos curtos, pequenas crônicas engraçadas, memes e GIFs, todos no mundo virtual, torna-se ainda mais complexo trazer interesse de crianças e jovens para a literatura ou para os silêncios tranquilizadores das bibliotecas. Os tempos são outros. O interesse mudou. A solução talvez se encontre em somar prioridades, juntar estímulos e vontades. Não esquecer os livros e a leitura. Não deixar os estudantes na “mão” e repetir erros de outros momentos. A História é feita para nos lembrar. Precisa ser lida.

A biblioteca precisa ser participativa e envolver a realidade dos estudantes. Rigidez e dureza podem ser deixadas para trás. A pluralidade de fontes de informação e aprendizado podem, sim, andar no mesmo pé que uma educação de qualidade. Basta existir incentivo, em primeiro plano. A educação de base precisa disso. Estímulo e interesse aparecem por consequência.

E então, quem sabe num futuro não tão distante, o dia 26 de outubro possa ser um dia de vitória para a educação do Brasil.

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