Dr. Bastos Dias, médico, & Sr. Luciano, fotógrafo

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Luciano Bastos Dias é meu amigo. Herdei-o, junto com sua família, de meu grande amigo Magno Bastos Dias, falecido em L’isle-Adam, França, no ano 2000.

Conheço o hoje doutor desde que usava calças curtas e que corria e falava com uma vontade e fúria extraordinárias. Era um pequeno inquieto profissional.

Começou a frequentar o curso de medicina em Curitiba mas percebeu logo que por estas bandas o futuro, profissional e cultural, era desalentador, para dizer o mínimo. Foi para a Europa quando esta era mais habitável e civilizada. Estudou alemão em Freiburg im Breisgau, Alemanha, onde o visitamos em 1985. Casou, estudou medicina em Zurique, Suíça, formou-se, fez várias especializações, viajou mundo, morou um ano no Japão, descasou, casou de novo, e hoje é o único médico brasileiro com clínica própria na Suíça, em Baar.

Luciano não é apenas um dedicado e excelente profissional da medicina. É um curioso intelectual, um estudioso. Poliglota, conhece literatura e filosofia. Espectador atento, tem intimidade com o cinema e o teatro. Músico, toca violão clássico. É fã de carros, câmeras fotográficas e bons uísques. Brigit, sua mulher, equilibra com sua paciência beneditina e serenidade o relacionamento. O doutor gosta de conversar e tem, segundo ele mesmo, três amigos. Nunca perguntei se estou nesta lista.

A fotografia exerce nele um fascínio especial. Há tempos enviou umas fotos que tirou em Dublin, Irlanda, de locais que aparecem no “Ulisses” de James Joyce. Tem enquadramento e percepção da luz. Basta isso. Quando esteve por aqui me mostrou umas fotos que fez em Londres. São as que vão neste Ensaio Fotográfico. E, como um comentário para suas fotos, enviou três textos. Publico os dois primeiros. Do terceiro, que ele acha melhor, disse em seu e-mail: “Espero que não goste, assim saberei que é bom…” Talvez.

 

Carta de Londres

Ônibus novo e sujo – metrô velho e sujo. Como em hospitais, tudo no limite descaso. Tapetes vermelhos, cortinas vermelhas, sempre aquele friozinho.

O que eles levam a serio? Entrei e pedi pint and pie. Achei!

Assim como os atávicos calçados de Northhampton tudo aqui passa pela mão de semieslavas e outros aprendizes da língua de Geoffrey Chaucer. As you know está muito difícil hoje em dia encontrar nativas no litoral paranaense. Se fizer questão, me disseram, deve ir para North Umbria (a correspondente de Cianorte).

Visitei os bastidores do parlamento. Boring! Dezenas de bandejas de prata com água e chá, mais tapetes e cortinas vermelhas um pouco menos sujas.

O que eles levam a sério? Onde todos devem ir, mas não me chame. E eu até fui. Mas cuidado. O Globe é pega-turista, visitar as instalações é o suficiente.

Para Shakespeare tem que ir à RSC em Stratford-upon-Avon (a correspondente de Campo Largo).

Visite uma venue, tem tantas pra quem gosta de brit pop. Mas já que insiste pode ir a um musical, mas não me chame!

E as fotos.

Meus três amigos conhecem minha misantropia e sabem que cor é um meio para chamar a atenção. Daí minhas fotos cheias de vida. Ainda bem que existem mais mortos do que vivos. Pois é deles que eu vivo.

* * *

Nos caminhos tortuosos de Londres, moldados pela coexistência do antigo e moderno, logo se vê que a qualidade de vida é muito custosa. Na minha idade e com o meu salário, teria uma vida quase indigna. Serviços públicos de transporte e saúde são, se comparados a países similares, de qualidade questionável.

Mas não serei injusto! Londres sempre oferecerá muito para aqueles com boas ideias e disposição.

Aos mais jovens uma bela polonesa com olhos azuis. Aos maduros infindáveis oportunidades financeiras – mesmo após o brexit. Aos mais velhos…

Aí não sei. O nível das banheiros é comparável aos do Rio de Janeiro. Mas convenhamos: ninguém com uma personalidade mais ou menos normal vai a Londres com o intuito de visitar banheiros!

Existe, creiam-me, para um velhote sim, vida entre duas micções. E em cada canto, por menos espetacular que ela seja, sente-se na alma os sofrimentos e o desespero assim como a alegria e a glória dos milhões de pessoas que lutaram pelo império marítimo onde o sol nunca se punha.

E ainda mais imponente, ao meu ver, seu impacto na vida de mulheres e homens comuns. Por isso gosto de apreciar as minhas fotos vazias (de pessoas). Pois cada forma leva em si infinitas ideias que eu vou descobrindo a cada vez que as aprecio.

Luciano Dias

 

 

Self-portrait

Self-portrait

 

 

Underground 1

Underground 1

 

 

Underground 2

Underground 2

 

 

Underground Saint Paul Cathedral

Underground Saint Paul Cathedral

 

 

River Thames

River Thames

 

 

Parliament

Parliament

 

 

Centre 1

Centre 1

 

 

Millennium Bridge

Millennium Bridge

 

 

Saint Paul Cathedral

Saint Paul Cathedral

 

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4 comentários

  • T.

    Belas as fotos do Dr. Dias. Vazias de gente e cheias de uma certa tristeza…
    Os leitores podem aguardar com alguma curiosidade talvez uma “carta de Baar” ?… essa aldeia helvética onde a Europa ainda seja habitável e civilizada!

  • Li

    Oi Dias!!!
    Adorei a matéria!!! Tuas fotos são belíssimas!!!
    Um olhar certeiro p/ o cenário! A poesia do preto e branco!!! PARABÉNS!!!
    E quando vcs darão o ar da graça aqui pelas terras tupiniquins?!?!
    Mandem notícias, por favor!
    Beijos p/ vc e Brigit!!!

  • Macuxi

    Fotos de dignas de bons quadros. Londres tem seus encantos e desencantos.
    O Autor teve boas escolhas de suas fotos, posicionamento, enquadramento, etc..
    Continue mandando as suas cartas. Gostei do humor crítico e sarcástisco da carta de Londres.
    Mande agora uma carta mostrando a bela Suíça.

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