Editorial. Ed. 180

O presidente Michel Temer parece ser um daqueles homens que não se afligem nunca. É fácil imaginar este novo condottiere do país recostado numa poltrona bergére, descruzando preguiçosamente as pernas jogadas sobre um pufe, dobrando sem pressa o livro que lê e caminhando lentamente em direção à porta de saída de uma casa em chamas.

Foi mais ou menos assim que ele reagiu ao ser conduzido ao governo. Quando confirmado o impeachment de Dilma Rousseff, fez silêncio durante alguns segundos antes de se dirigir à roda dos íntimos e comentar o desafio de inverter o rumo das linhas declinantes da situação econômica do país.

O versado presidente, ao contrário de sua antecessora, sabe que, felizmente, ainda estamos em situação melhor do que algumas pobres nações africanas. O sofrido povo da Etiópia ou o da Costa do Marfim talvez nos invejem. Mas até quando? É de se perguntar se considerarmos o que os anos petistas legaram a este Brasil, brasileiro, tamanha a corrupção instalada em todo o aparelho de Estado, tamanho o descompromisso de nossos políticos no poder. Uma economia que sofre com a recessão e a inflação ainda incontrolada.

Temer vive dias de espanto, com um movimento a pedir que seja deposto, que mobiliza mais do que os saudosos do petismo. Alcança faias da sociedade que o veem como uma metástase do governo anterior. Herdou o caos. Deve fazer reformas de gosto amargo para a maior parte da população, ou teremos o nosso naufrágio impávido.

Há um novo exercício da cidadania no Brasil. Ainda que os ânimos permaneçam exaltados, e na superfície o país siga dividido em grupos antagônicos irreconciliáveis, respira-se novo ar nas ruas e nas redes sociais. A tentativa de vincular os protestos populares que se espalham pelo país unicamente à militância ligada ao PT é ridícula. Assim como é ridículo os dirigentes petistas acreditarem nisso. De um lado, o governo e os antipetistas em geral, tentam desqualificar os protestos, inflacionam o poder de mobilização das centrais sindicais, que há muito já não o possuem.

Por outro lado, o PT, buscando se reapropriar de bandeiras que um dia foram suas, esbarra no envolvimento em casos de corrupção de suas principais lideranças. Resultado: ambos, petistas e antipetistas, avaliam erroneamente os protestos que apregoam o lema “Fora Temer!”

Voraz consumidor de boa literatura, Michel Temer talvez ainda não percebeu que estamos todos como a ingênua Alice, personagem inesquecível de Lewis Carroll. Ao deslizar pela abertura da toca do Coelho Branco, numa descida que parecia não parar nunca, ela medita: “Ou este poço não tem fundo, ou esta queda não tem fim”. Alice caiu, de repente, sobre um monte de folhas secas. A descida tinha terminado. Ela estava no País das Maravilhas, Terra do Chapeleiro Louco, da Lebre de Março, do Gato Caçoador.

Resta ver em que latitude e longitude cairemos nós todos, neste longo mergulho, buraco adentro. Insuportavelmente longo, uma agonia sem fim.

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