Livro dos Novos, rito de passagem

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A Travessa dos Editores lança, anualmente, o Livro dos Novos. Uma seleção de contos feita pela escritora Adriana Sydor, que tem autoridade, paciência e gosto para ler uma grande quantidade de trabalhos de escritores jovens, que beiram os 20 anos e que se vêem diante da oportunidade de ver a amostra de seu esforço literário em livro. A maioria já publicou na internet, foi lida em sites de cultura ou faz parte de grupos que trocam ideias e experiências na web, sempre voláteis, instantâneas. O livro, como disse um dos novos, é para sempre.

Foto: Brunno Covello

Foto: Brunno Covello

A publicação em livro é um rito de passagem. Significa sair da vala comum da publicação eletrônica e passar por uma seleção para ver o trabalho impresso significa o primeiro reconhecimento de valor real de seu trabalho. É uma prova que vai além das facilidades de edição eletrônica espontânea. Um rito de passagem que o livro impresso torna real, concreto. Palpável. Com a aura do objeto definitivo, quase eterno, que é o livro impresso.

É isso que dá à festa de lançamento um tanto de comemoração que envolve amigos, família, enfim, os que se orgulham do surgimento do novo escritor para o mundo. As fotos da festa de lançamento lembram as de formatura. Daí também a escolha simbólica de um escritor de edições anteriores para fazer a apresentação dos novos do ano. Neste, Dédallo Neves, foi quem escreveu sobre a experiência de se ver publicado.

Para a editora, além da gratificante função de estimular a palavra escrita numa época que mais valoriza a imagem, é um exercício que permite perceber os traços e preocupações de nova geração. Sempre claro que não se trata de editar nova literatura, mas sim mostrar o que novas cabeças se empenham em realizar. É preciso cuidado com o adjetivo “novo”, que pode nos arrastar a equívocos semânticos.

Foto: Brunno Covello

Foto: Brunno Covello

Há, é claro, um espírito do tempo refletido na obra dos novos. Mostrado nas preocupações temáticas e nas renovações da linguagem, hoje tão marcadas pelo advento da comunicação eletrônica. Nesta geração de novos, vejo um corte definitivo com a literatura de uma geração anterior, politicamente comprometida com uma literatura de causas, herdeira da luta contra o autoritarismo e a censura, do fim da ditadura, da transição para a democracia e agora do colapso da esquerda, afundada na corrupção. É um tempo histórico e da história, um tempo implacável, um tempo de princípios e de fins.

Não que a crise deste mundo em que vivemos não preocupe os autores da nova literatura. E também não significa que, apesar de lidarem de outra forma com o comprometimento na literatura, estes jovens escritores não tenham ideias muito próprias (ideológicas, até) sobre a função social (ou política) de seu trabalho. Afinal, ninguém escreve para si mesmo. Mas para o mundo.

Há vantagens nessa atitude dos novos. Autores da geração anterior se viram aprisionados nas suas opiniões, no sentido de que eram mais livres do que o escritor, mais livre do que a ficção que escrevia. Há um programa e há uma obrigação política no fazer literário anterior. Isso comporta a qualidade da coerência ética, mas compromete a qualidade criativa.

O mundo fragmentou-se. Não há mais, graças verdades únicas, indiscutíveis. É tudo muito mais complexo. Nem por isso escapamos de um maniqueísmo atroz. A geração que assumiu as iniciativas acredita que tem ideias muito claras acerca do mundo, mas se dobra às superstições e aos fundamentalismos. Agora há os bons e os maus. Os politicamente corretos e os agentes do mal. A maioria acha que é preciso um fundamentalismo para mudar as coisas. Quando isso acontece, cegamos. É perigoso.

Este já não é o tempo da escrita ideológica, política e socialmente comprometida. Acima de tudo, o que estes novos escritores não querem é pertencer a um partido: “O nosso tempo não se compadece com grandes paixões partidárias”. Acabou a euforia pela construção de uma nova sociedade e um novo homem que a geração anterior tinha. Política e partidarismo não se confundem, tal como não se confundem o escritor com o cidadão.

Foto: Brunno Covello

Foto: Brunno Covello

Destes novos escritores não se pode dizer que sejam apolíticos. Mas separam suas crenças da tarefa de escritor. A política não é mais apenas a defesa de um programa de mudanças radicais. Se demonstra numa variedade infinita de ideias e reivindicações. Da defesa da comida vegana à radical militância pela primazia dos direitos da mulher. Da pregação do isolamento a uma desesperadora militância pelas causas ecológicas.

Sem que percebam, e muitas vezes o neguem, há em tudo isso uma profundidade política subjacente. Ao conversar com os novos escritores desta safra, percebi um tom de profunda desilusão. Ideias que remetem à eterna discussão sobre o divórcio entre os cidadãos e a política. Há um traço comum e que considero positivo em nome da liberdade, o novo escritor é um cético convicto, desconfiado de toda a bondade humana. Incapaz de dogma, dispensa partidos e as velhas ortodoxias. Mas como defendem suas causas, mais do que políticos apartidários, estes escritores são céticos politizados.

A criação é muito voltada para si própria, onírica e introspectiva. Nesse sentido há um déficit do real, e a realidade torna-se sempre aquilo que estamos a viver . Mas há outra, há outras. A política é isso: um exercício de imaginação a partir da realidade, uma utopia, e isso faz a história do indivíduo com o mundo.

livro-dos-novos-3A literatura não foi feita para propagar causas, para substituir manifestos. Qualquer escritor que o faça intencionalmente cai no risco de se tornar um demagogo chinfrim. Mas há outros perigos na formação do novo escritor. A maioria vem de oficinas de criação ou da academia, dos cursos de letras e afins. Recebem aulas técnicas para escrever que tendem a pasteurizar e homogeneizar o teto de ficção, o que é tão ruim quanto a obedecer programas de conteúdos. Escrever à moda de escritores conhecidos torna-se um cacoete que castra a criatividade e resulta em arremedos literários. Fórmulas prontas. Pirotecnias verbais que fazem do hermetismo o escudo para esconder a pobreza do fazer literário.

Tudo isso é observado quando se faz a seleção de novos escritores. E sabemos, sem muitos tratados de estilo, quando um talento novo, especial, desabrocha. Estamos no terceiro volume de novos. O conjunto nos dá ideia do que se anuncia. E podemos dizer que há invenção, criatividade, originalidade a emergir desses esforços pessoais, únicos, para nos dar essa literatura com seu frescor de juventude.

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