Música Erudita. Ed. 180 – Mozart e a Maçonaria

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Qual a relação entre a Maçonaria e a obra de Mozart? Curioso, mas há quem atribua grande importância a essa relação. A partir da fundação da Grande Loja da Inglaterra em 1717, a maçonaria se desenvolveu entre todas as camadas da sociedade europeia do século XVIII – exceto entre os camponeses e as classes mais humildes – como reação à intolerância religiosa predominante e ao absolutismo político. A utilização de rituais simbólicos, oriundos das guildas medievais, permitia que homens de diferentes origens sociais partilhassem experiências comuns e fortalecessem seus sentimentos sociáveis. As principais características da Confraria eram a sociabilidade e a caridade.

A loja maçônica “Zur wahren Eintracht” (Verdadeira Concórdia) foi fundada em Viena na época em que o compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) lá se instalou, quando o imperador José II (1741-1790) acabara de pôr em execução seu programa de reformas no espírito do Iluminismo. O monarca encontrou forte apoio entre os maçons. Por muito tempo Mozart mantivera contato com membros da Confraria, sobretudo durante a sua residência em Viena e em suas visitas à Alemanha e à França. Assim, ele estava bem familiarizado com a diversidade da maçonaria vienense, quando decidiu ingressar em uma das lojas da cidade.

Existe ampla documentação de seu envolvimento com a maçonaria, por meio de numerosos eventos e composições. A tonalidade e o ritmo são as principais características da linguagem maçônica de Mozart. O total de bemóis – não sustenidos – na tonalidade, por exemplo, corresponde ao grau maçônico.

Sobre o Andante do Quarteto de cordas em lá maior, KV 464, na sua última variação pode-se ouvir o violino executando o ritmo do Aprendiz Admitido, enquanto o violoncelo imita o martelo do Venerável Mestre (vídeo abaixo). Durante essa seção, os olhos do candidato estão vendados. O sol maior agudo, na parte do primeiro violino (compasso 160), denota o momento em que lhe é permitido ver novamente: ele pode ler a letra G inscrita na estrela resplandecente, tradicional símbolo maçônico.

Segundo o historiador e diretor do Centre Mozart de Poitiers Philippe Autexier (1954-1998), Mozart emprega esses símbolos, e muitos outros de natureza mais complexa, em concertos, sinfonias e música de câmara não compostas para as lojas – o que não acontece, porém, em obras para solo de piano. Eles desempenham um papel ainda mais importante no chamado repertório profano do que em composições para cerimônias maçônicas. Isso torna o estudo do mundo maçônico de Mozart indispensável para um melhor conhecimento de sua expressão musical em geral.

A produção maçônica de Mozart tem seu ápice em 1791 com a composição de Die Zauberflöte (A Flauta Mágica), que é é, claramente, uma alegoria maçônica, o que justifica o tom solene de boa parte de sua música, e está cheia de símbolos e personagens-chave, embora não apresente formalmente os rituais da Confraria. Pamina, por exemplo, representa a Áustria, dividida entre as trevas do totalitarismo da imperatriz Maria Teresa de Habsburgo-Lorena (1717-1780), a Rainha da Noite, e a luz do ideário maçom. Sarastro corresponde ao maçom Ignaz von Born, citado acima. Tamino é o herói esclarecido destinado a salvar Pamina das trevas para consagrá-la à luz: durante algum tempo, os maçons esperaram que o imperador José II, simpático à loja e por ela apoiado, cumprisse esse papel. Ao seu lado, como escudeiro, Tamino leva Papageno, a engraçada figura do vendedor de pássaros, que representa o homem comum, com as preocupações comuns de conforto material, de encontrar uma Pagagena bonita e carinhosa, um bom vinho e uma mesa farta.

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