O custo do circo municipal de Curitiba

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Neste ano vamos eleger legislativos e executivos municipais – ou já elegemos, quando a revista entrar nas bancas a eleição já terá acontecido. Prefeitos e vereadores ganharam no último mês nossas risadas e nosso ódio. Palavras simpáticas e de apoio vieram somente de quem ganha para fazê-lo.

Saber quanto custa a máquina pública é uma curiosidade que permeia o falatório do povo. Fala-se que somos nós (?) que sustentamos essa corja que chamamos de políticos. Mas não dá pra generalizar, tem meia dúzia de honestos (tem?).

Mesmo os recônditos honestos são mantidos com o famoso dinheiro público, aquele que todo mundo sabe que existe, mas nunca vê. Só tiram de nós. O dinheiro público é o amigo que traz Kaiser e bebe Heineken. E nós que alimentamos esse churrascão que é a vida pública com Heineken e picanha, bebemos Kaiser e comemos linguiça.

A chegar à firma, a primeira coisa que fazemos depois de ligar o computador é pegar o cafezinho. Na Câmara Municipal de Curitiba – ou o clube da gozação com a nossa cara – este cafezinho recebeu uma licitação no valor máximo de R$ 147.461,80 para um período de doze meses. Se arredondarmos a conta, isso dá R$ 12.250 por mês. No cafezinho! Sejamos sinceros, na licitação também está incluso chá, açúcar e leite em pó. Mas ainda assim são 12 mil reais mensais.

Sem contar que uma licitação do dia 2 de junho trazia a seguinte publicação: “Seleção e contratação, em regime de empreitada por preço unitário, de empresa especializada na prestação de serviço de fornecimento, preparação e distribuição de café e demais bebidas quentes, através de (uma) máquina automática compacta, pelo sistema self-service, a ser instalada nas dependências da Câmara Municipal de Curitiba, compreendendo, além da máquina, todos os equipamentos, acessórios e produtos necessários à execução dos serviços, em conformidade com as especificações constantes”. Valor? R$ 12.240. É possível que a propaganda do Nescafé Dolce Gusto tenha conquistado o pessoal da Câmara.

Vamos além: necessário é hidratar os grandiosos parlamentares curitibanos. Licitação para comprar água. Este é o texto da publicação do dia 11 de agosto: “Contratação de empresa especializada no fornecimento de água mineral envasada (galão e copos), incluindo serviço de inspeção e higienização de 48 (quarenta e oito) bebedouros, em conformidade com as especificações constantes do Termo de Referência, para suprir as necessidades da Câmara Municipal de Curitiba”. Valor para o período de um ano: R$ 58.473,48. Dividido por mês dá um pouco mais de R$ 4800 para água de beber.

Até aí, tudo bem! Falar que não precisa de água e de café seria um ultraje da nossa parte, fornecedores de Heineken. Mas há coisas que são altamente dispensáveis, coisas que nem todas as empresas têm.

A instalação do ar condicionado na Câmara Municipal custou aos cofres públicos R$ 2.596.512,08. Podemos dizer que isso tem o efeito cascata, pois além deste antipático valor, a continha de luz também sobe. Usei um aquecedor por alguns dias durante o inverno no meu pequeno apartamento de 36 m² (e não foi o dia todo) e minha conta veio 100% mais cara. Agora imagine isso na Câmara inteira.

Poderia continuar a citar as licitações, para o leitor continuar se indignando, mas vamos adiante.

Antes, fica um registro: acreditaremos na boa-fé dos nossos legisladores e não pensaremos que houve superfaturamento. Talvez seja correto o valor de 12 mil por mês em café, quase cinco mil em água e é possível que custe dois milhões e meio para instalar ar condicionado.

Pensemos em seus salários.

 

Staff e salários

Cada vereador da Câmara Municipal de Curitiba – são 39 no total – tem ao seu dispor sete assessores e um chefe de gabinete. Trocando em miúdos, sem muita firula: os funcionários diretos do vereador custam 55 mil reais mensais, multiplicando por 39. Sentem e sintam. R$ 2.145.000.

Acrescendo o salário do vereador temos: cada palhaço deste circo ganha R$ 15.156,70. Logo, a conta fecha em R$ 592 mil reais. Assessores e vereadores juntos custam à máquina pública R$ 2.737.000. (Veja na tabela quanto ganha cada assessor.) Sem contar os 200 litros de combustível por mês. Por que não ganham o VT como a maioria dos cidadãos?

Sabemos que o dinheiro que paga essa cifra vem do nosso bolso, e quem arrecada é a Prefeitura que repassa mensalmente para a Câmara R$ 11.666.600 para cobrir despesas fixas como os salários. No ano de 2016 está previsto um repasse de R$ 93.325.600 do meu, do seu, do nosso dinheiro.

Licitações, como as citadas acima, não estão incluídas nesses 11 milhões mensais. Para isso existe algo chamado “recursos do Tesouro”, um dinheiro que também vem da Prefeitura. Como o dinheiro público é de todos nós e não é de ninguém fica fácil gastar 2 milhões de reais com ar condicionado.

 

Número de vereadores

Em agosto deste ano o Senado fez uma enquete para saber se as pessoas eram a favor da redução do número de deputados e senadores, 99% dos votos foram a favor. Óbvio. Não carecia de enquete.

Pensar em 39 vereadores pode parecer pouco quando temos 513 deputados federais. Mas, sabendo que a cidade de Curitiba tem dez regionais, parece possível reduzir esse número. Assim reduz-se o número de assessores, o número de gastos públicos.

Isso é o puro reflexo do Estado patrimonialista que suga do contribuinte até a última gota. Vereadores e prefeitos possuem os cargos mais importantes da política brasileira, pois eles tratam da cidade, e nós moramos na cidade, vivemos cada dia nela, logo as suas decisões afetam diretamente na vida privada. Não que os outros cargos não interfiram, claro que sim, mas as decisões do legislativo e executivo municipais são mais concretas e visíveis.

Portanto, a Prefeitura repassar R$ 93 milhões por ano para vereador ficar aparecendo em noticiário se agrediu ou não agrediu outro vereador, é uma gozação. A questão não é a agressão, pois se agrediu foi um idiota, no mínimo. Se não agrediu e foi uma acusação caluniosa, a vereadora também no mínimo é uma idiota. Mas no final das contas os grandes idiotas somos nós que bancamos essa peça, que pagamos um salário de R$ 15 mil e mais 200 litros de gasosa pra isso.

Sustentá-los está insustentável. Para fechar a matéria e o desgosto de pensar em pagar salário para vereador conto uma história de uma prática que aparentemente é comum, não tenho como provar, a história pode ser mentirosa, assim como pode ser mentira que político é ladrão, vai da ingenuidade de cada um.

Contei a um amigo que iria escrever esta matéria e dele veio o seguinte relato: “Uma vez me ofereceram um emprego de assessor [de vereador], o combinado era eu repassar 10% do meu salário. Nos encontramos ali no Hotel Bourbon, não aceitei o emprego, mas fumei uns charutos”. Duvidei dele, charutos e Hotel Bourbon me pareceu muito para um vereador.

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