O vereador nosso de cada dia

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Quando a gente pensa que já se acostumou a tudo nessa coisa misteriosa que é a democracia, dois anos voaram e a gente volta ao tempo das eleições. As mais difíceis de encarar são essas que acabaram de bater à nossa porta.

Eleger vereador deveria ser tarefa séria, bem séria. Deveria, mas não é. O circo de horrores do que recebi por e-mail, WhatsApp, Messenger e correlatos é assustador. Nas vezes em que estava distraída, e assim mais inteligente, e não levei a sério dei boas risadas com os aspirantes à câmara. Mas sempre que pensei sobre o que um vereador deve fazer, sobre qual é sua função no imbróglio democrático, fui tomada por, nesta ordem, raiva e tristeza.

Olhe como o lance é sério. Cabe ao vereador fiscalizar a atuação do prefeito e propor, elaborar, discutir e aprovar as leis municipais. E isso não é só definir nome de rua ou jardinete ou homenagear donos de estabelecimentos com plaquinhas ou dizer em qual lugar vai ficar a próxima lombada que acabará com as molas do seu carro, meu amigo, isso é também tratar, por exemplo, da lei orçamentária. E a lei orçamentária é nada mais nada menos que a definição de onde será aplicada a grana que vem dos impostos que nós pagamos ocupando o feio pseudônimo de munícipes. Falando de um jeito bem grotesco, os vereadores decidem para qual lado o nosso dinheirinho vai. Por isso é tão dramático ver o tipo de gente que se aventura na carreira.

Os pré-requisitos para poder se lançar nessa grande aventura são menos exigentes do que pede, por exemplo, qualquer anúncio para caixa de supermercado: ser brasileiro, possuir direitos políticos, saber ler e escrever, ter no mínimo 18 anos e certificado de reservista, caso seja homem. Pronto. Se a criatura obedece a esses pormenores, está filiada a partido e mora no lugar onde vai disputar, está apta a se candidatar.

Antes de tratarmos das peças que pintaram nessas eleições, vamos falar um pouquinho sobre saber ler e escrever. Vivemos no tempo do analfabetismo funcional, esse nome chique e pomposo que significa, na prática, que uma pessoa sabe interpretar os códigos linguísticos, sabe que B mais A é igual a BA, mas mesmo assim não tem habilidade de compreender sentenças simples. Sabe ler, consegue escrever, mas isso não se aplica em frases, textos e por aí vai. Mas não pense que estou a citar classes sociais menos favorecidas, em 2012 o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa divulgaram o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) no Brasil, entre estudantes universitários alcança a marca de 38%.

Um analfabeto funcional, que não entende lhufas do que está lendo e não consegue comunicar um texto escrito pode ser vereador. Triste, muito triste.

Pois bem, vamos voltar ao pleito de 2016. Parece que o resumo do que eu vi cabe em três palavras: mentira, deboche e sinceridade.

No primeiro quesito, tem ator para todos os públicos, a começar por aquele tipo que se veste de personagem sério e dispara a prometer coisas que nunca, jamais, em tempo algum poderá cumprir, como por exemplo, o candidato que prometeu aumentar o número de vagas nas creches ou o que disse que vai construir centro cultural em determinado bairro ou, ainda, aquele que jura por sua santa mãezinha que irá gerar mais empregos atraindo empresas para a cidade/bairro. Mentira deslavada ou ignorância encruada, vereador não tem poder para esse tipo de coisa.

Não pode ser analfabeto funcional, não pode ser mentiroso, não pode fazer chacota com a nossa cara. Não pode!

Dentro da categoria deboche, entra todo o tipo de cara de pau do mundo. A começar pelo nome de urna, que é aquela coisa pela qual os candidatos são chamados ou querem chamar a sua atenção e seu voto para eles. Pode não parecer, mas há regras para o apelido, preste atenção no texto que versa no artigo 31 da Resolução nº 23.455 de 15 de dezembro de 2015: “O nome de urna do candidato deve ter no máximo 30 caracteres, incluindo os espaços entre os nomes e podem ser utilizados os primeiros nomes, o sobrenome, o nome abreviado, um apelido ou nome pelo qual o candidato é mais conhecido”. Até aí tudo bem, confere. Mas o lance continua assim: “Não é permitido nomes que atentem ao pudor, sejam ridículos ou irreverentes”. Por aqui é necessária uma pausa para citar alguns candidatos, só alguns porque a lista é imensa: Tonho da Vaca, Hiohana A Menina do Chip, Tché Cover Michel Jackson, Filho do Padre, Dragon Ball e Jussiê Galo Cego – com uma atenção especial a este último, candidato em Ponta Grossa, que em seu programa tratou assim: “pense no teu ego, vote galo cego… o único que vai tirar o olho por você” e ele fez o que nessa hora? Arrancou o olho de vidro bem diante da câmera numa performance indescritível.

Na subdivisão sinceridade vêm todos aqueles que podem ser confundidos na situação deboche, os que dizem que não vão fazer nada porque vereador não faz nada mesmo; os que afirmam que só vão passar lá (lá?) para pegar o dinheiro no final do mês; os que afirmam que vão melhorar a vida de toda a família e por aí vai.

Ao mesmo tempo em que tudo isso é tentativa de destaque no mar de pretendentes à colocação, espelha também o pouco comprometimento com as funções que tanto anseia. Eleição é o que podemos relacionar, na vida real e mundana da iniciativa privada, como entrevista de emprego. Eleitor é o chefe da firma, o que escolhe quem vai trabalhar, conta qual é o cargo, as obrigações e o salário; o candidato ao lugar diz quais são suas habilidades para desempenhar aquele papel. Quem em sã consciência poderia contratar para trabalhar em sua empresa uma pessoa que se apresenta como “Xoxota, um cara gente boa e tem gente que ainda mete o pau” ou alguém que diz que não vai fazer nada além de receber seu salário no final do mês? A comparação é esdrúxula? Não, é bem verdadeira. É assim que as coisas são, no mundo político, o eleitor é um chefe biruta, displicente, irresponsável e o candidato é/será um funcionário irresponsável, displicente e biruta. A empresa não aguentaria não fossem as exceções dos dois lados.

Uma pessoa que faz a opção por uma vida pública, por uma profissão que se debruça a tratar de soluções para o coletivo, que, em tese, tem seus interesses particulares colocados de lado e que traz nos seus vencimentos mensais a assinatura do povo como responsável, não pode ser analfabeto funcional, não pode ser mentiroso, não pode fazer chacota com a nossa cara. Não pode! Mas pode! Neste país tudo pode, tudo é permitido e não existe pecado ao sul do Equador…

Se eu tivesse um pouco mais de disposição estomacal daria uma voltinha pela relação daqueles que foram candidatos a prefeito nesse Brasilzão, mas tudo nessa vida tem limite, não é possível num fôlego só tratar de tanta bizarrice. Despeço-me acreditando que, no mínimo, a gente saiba direitinho quem são nossos novos vereadores, eleitos por voto direto ou pela maluquice que é o quociente partidário, e tenhamos paciência, sangue frio e tempo para acompanhar seus passos. Boa sorte para todos nós.

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Um comentário

  • Attila Wensersky

    Um analfabeto funcional, que não entende lhufas do que está lendo e não consegue comunicar um texto escrito, pode ser vereador. Triste, muito triste, ler um texto crítico com erros de gramática. Quem é sabichão tem que saber onde se usa vírgula e comunicar-se por meio de um texto escrito, não?

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