Politicamente incorreta e deliciosa

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Cá estamos, outubro de 2016, evoluídos, educados, conscientes, esclarecidos, certo? Claro que não! Embora tenhamos um monte de séculos apurando nossa condição de raça civilizada, ainda rastejamos em vários quesitos. Ainda nos engalfinhamos, nos xingamos, nos matamos por nossas causas como se fôssemos as primeiras feras Homo sapiens de 20 mil anos atrás. Deve ter alguma relação com a espiral fundamental de nossa criação, decerto nem tudo aquilo que nos faz sapiens pode ser moldado nas condições atuais da sociedade. Mas é verdade que vamos tratando de refinar nossos modos e estamos em evolução. E para dar uma equilibrada no negócio também temos aqueles grupos que, por conta de fundamentalismos malucos e de um poder de convencimento impressionante, afundam nossa linha ascendente.

Com o propósito de combater a turba que envergonha o homem moderno, várias correntes em prol do respeito às diferenças e aos direitos de liberdade brotam diariamente em nossas vidas. Sem titubear digo que fazem um trabalho interessante, incansável, necessário e estão dispostos ao bom combate. Mas há fundamentalistas nesse lado também e eles emperram a vida, chateiam a gente, dão preguiça e acabam atrapalhando as possibilidades de crescimento.

Hoje em dia já não é mais possível contar uma piada. Temos palavras proibidas, gostos negados, particularidades condenadas. O mundo deu tantas voltas que acabou ficando tonto e besta, numa crise de labirintite que não permite o reconhecimento de coisas simples e óbvias de nossos dias. Se hoje podemos ser o que queremos, paradoxalmente não podemos mais ser o que queremos. Parece que temos que nos comportar como uma massa única que gosta de tudo e de todos e que diz sim para tudo. Não é possível, numa conversa sem grandes propósitos, afirmar que não sente atração por homem negro – de uma hora para outra vira racista. E se você disser que não apoia os partidos da esquerda, se transforma em fascista. Ai de ti, se contar que tomou um banho relaxante de 20 minutos, mil bandeiras do GreenPeace serão hasteadas em sua frente. E se, por distração, confessar que não gosta de andar de bicicleta, fique preparado para um discurso sobre petróleo, florestas, mobilidade urbana.

Até na música, veja só que loucura, o lance é confuso. Ao mesmo tempo em que as rádios destroem nossos ouvidos com composições depreciativas, humilhantes e selam o comportamento débil de nossa sociedade, há gente condenando hoje o que foi escrito ontem, em outras condições e pensamentos sociais.

Não dá, meus amigos militantes, para condenar o que acontecia no século passado com os olhos do presente, vocês deveriam saber disso. A história ensina várias coisas, entre elas, sacar os contextos sociais, políticos, comportamentais etc. de cada momento. Então, antes de começar a falar das maravilhas politicamente incorretas da MPB, um pedido: por favor, deixem nossos grandes compositores em paz!

lamartine-2Quem abre esta edição é Lamartine Babo, homem de rádio, de composições, de futebol, de humor certeiro. Do Flamengo ao Vasco, do Fluminense ao Bangu, do Madureira ao Botafogo, todos os hinos dos clubes são dele. Marchinhas de carnaval, boleros e operetas também fazem parte do seu currículo. O que os militantes de última hora odeiam com força é a “O teu cabelo”, música composta em 1920 pelos Irmãos Valença e que doze anos depois chegou às mãos do nosso grande Lamartine, que aproveitou o que a composição tinha de melhor e deu sua contribuição definitiva para que seja cantada até hoje nos bailes de carnaval. O que incomoda os ouvidos reclamantes? Quase tudo. É um prato cheio para quem fala de preconceito racial: “O teu cabelo não nega, mulata / Porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata / Mulata, eu quero o teu amor”; para as feministas: “Mulata, mulatinha, meu amor / Fui nomeado teu tenente interventor” e até, pasme!, já ouvi falar de incitação à violência: “Quando, meu bem, vieste à terra / Portugal declarou guerra / A concorrência então foi colossal / Vasco da Gama contra o batalhão naval”. Vamos falar a verdade, não fosse divertida e com o tiro certeiro das marchinhas de carnaval, ela não estaria por aqui desde 1932, não é mesmo?

noel-rosa-1No mesmo ano de 1932, Noel Rosa se esbaldava com sua “Mulher Indigesta”. Hoje o samba é citado em teses sobre violência doméstica: “Mas que mulher indigesta (Indigesta!) / Merece um tijolo na testa”.

E o que dizer de Moreira da Silva e Ribeiro Cunha em “Na subida do morro”? Antes de falar da música, é bom lembrar dos trâmites da autoria, algo também condenado hoje em dia. Ela foi escrita por Geraldo Pereira e Moreira da Silva comprou seus direitos. O terceiro nome envolvido, o pouco conhecido Ribeiro Cunha, era o fabricante dos chapéus de Moreira e provavelmente entrou como compositor por conta de dívidas – tudo muito certo e natural no longínquo 1952. Não sejamos hipócritas, tem gente que compra/vende de tese de doutorado a voto de deputado hoje em dia. Pois bem, na subida do morro bateram numa mulher. Isso por si só já provoca arrepios, mas para o personagem da música, o erro foi que um malandro bateu na mulher do outro: “Na subida do morro, me contaram / Que você bateu na minha nega / Isto não é direito / Bater numa mulher que não é sua”. Humor, minha gente, humor.
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O pessoal antidrogas se contorce. Waltel Branco e Alice Ruiz: “Batom, rímel, pó de arroz/ Mais pó para depois/ Cansada de mim /Quero ser dois”. Roberto de Carvalho e Rita Lee: “Venenosa / Erva venenosa / É pior do que cobra cascavel / O seu veneno é cruel”. Raul Seixas: “Quem não tem colírio, usa óculos escuros”. Bezerra da Silva: “Vou apertar / Mas não vou acender agora / Se segura, malandro / Pra fazer a cabeça tem hora”. E muitos, muitos outros só no terreno das ilícitas, como Marcelo D2 e Gabriel, O Pensador em “Cachimbo da Paz” e Fernanda Abreu em “No veneno da lata”. Agora, se formos tratar das lícitas, como cigarro, bebida ou antidepressivos, o parágrafo aumentaria muito.

rita-lee-1E Chico Buarque, queridinho de plantão, tantas décadas depois ainda arrancando suspiros com seus olhos de estrela, é um mestre em avacalhar com a figura feminina. Fica lá naquele blábláblá de dizer que a mulher chora e sofre e se arranha e suplica e ouve e pede e todas as coisas que a colocam como figura submissa. Ele não me representa, mas tudo bem, é o seu jeito de ver o mundo e, melhor ainda, de contar ao mundo o que vê e como vê. Cá pra nós, concordando ou não com o eu-lírico do Chico, você tem que dar a mão à palmatória e admitir que ele sabe dizer coisas, mesmo que sejam aquelas que não gostamos. Vinícius de Moraes e Tom Jobim também eram machistas de plantão, mas dá para se voltar contra eles?
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Antes de me despedir, conclamo por João Roberto Kelly, que em 1964, um pouquinho antes da moda dos cabelões masculinos, escreveu “Cabeleira do Zezé”, para te fazer uma pergunta, caro leitor (repare que não escrevi “caro leitor, cara leitora” ou “car@ leit@r” ou “carxleitorx” ou qualquer coisa que pareça simpática nessa chatice de politicamente correto, porque não acho necessário explicar que quando digo “caro leitor”, também digo “cara leitora”, porque não estou falando com nenhum gênero específico, apenas simplificando a comunicação – que com essa explicação acabou por alongar e complicar tudo…). Como ia dizendo, caro leitor, gostaria de sua opinião. Você acha, que o Zezé era ou não bicha? “Olha a cabeleira do Zezé / Será que ele é? Será que ele é? / Será que ele é bossa nova? / Será que ele é Maomé / Parece que é transviado / Mas isso eu não sei se ele é” – se você desaprova a pergunta, saiba, não há nada de errado em ser ou não ser bicha, por isso não há nada de errado em perguntar e menos ainda em usar o termo “bicha”. Se eu te perguntasse se ele é ou não homossexual, minha curiosidade continuaria a mesma e meus pensamentos a respeito, também. Por isso, cuidado, não é o que se diz que importa. E vou tratar de puxar o carro, porque esse papo já está qualquer coisa. Um beijo e até o mês que vem.

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