Profana

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A preta tentou correr. Correu, correu e no fim sangrou. Sangrou, morreu. Faltou dinheiro, faltou classe, faltou embranquecer. A preta estava sozinha, cuidava dos filhos, da casa, da vida. Seu nome era Tatiana, era Jandira, era Marta, era Elisângela. Ela tinha um sonho, conseguir aquele emprego de segurança. Ela também tinha outros sonhos. Terminar os estudos. Melhorar a vida dos filhos. Educá-los, colocar na escola. Mas não conseguiu. A preta não consegue. Ela morre no caminho. Morre quando aborta sozinha. Quando é clandestina. A Tatiana, a Jandira, a Marta, a Elisagênla. Elas abortaram. Abortam. Abortarão.

Ela não podia ter aquele filho. Ela não queria ter aquele filho. Mas a proibiam de decidir sobre seu corpo, sobre sua vida. Então ela buscou maneiras e meios inseguros, clandestinos para abortar. Não deixaram. Mataram-na antes. Sangrou até o fim. Sangrou por uma vida marginalizada, assediada, violada. A mulher, a preta, a periférica. Elas morrem no caminho de decretar sua vontade. No medo, no desespero, na vida de uma mulher,decidir falar, decidir por sua vida e seu corpo é correr o risco de morrer. Tatiana, Jandira, Marta, Elisângela. A preta deixou filhos sozinhos. Deixou a sua casa. Deixou sua família. E deixou seu sonho. Aquele sonho tão difícil de realizar. O sonho de ser livre.

Porque hoje é crime a mulher abortar. A mulher não pode decidir sobre seu corpo. Pois decidem colocar uma religião no seu útero. “Ela só vai abortar por cima do meu cadáver.” Diziam os Cunhas, os Bolsonaros. E é por cima do cadáver delas que eles andam todos os dias. Mulheres pobres, mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres brancas mortas por não poderem decidir por seu próprio corpo. E eles andam e pisoteiam. Fingem não sentir o cheiro. Fingir não ouvir os gritos. Fingem não olhar suas mãos cheias de sangue.

Tatiana, Jandira, Marta e Elisângela representam todas as mulheres que morrem a cada dois dias por aborto clandestino. 8,7 milhões de brasileiras com idade entre 18 e 49 anos já fizeram ao menos um aborto na vida. Destes, 1,1 milhão de abortos foram provocados. O aborto tem renda e tem cor. Entre as mulheres pretas, o índice de aborto provocado é de 3,5% das mulheres e é o dobro daquele verificado entre as brancas, 1,7% das mulheres. No Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes maior que o de mulheres com superior completo (5%).

O Senado Federal, em seu site, abriu uma votação para “regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das doze primeiras semanas de gestação, pelo sistema único de saúde.” O número de pessoas que votaram a favor é maior. O número de pessoas que pensam na vida das mulheres é maior.

Elas continuarão abortando. Basta saber quantas mais precisarão morrer para se entender que somente a mulher pode decidir sobre seu corpo, sobre sua vida. Basta saber quantas mais precisarão morrer para que se conscientize que o aborto é questão de saúde pública, é questão social, é questão de gênero. E o Estado precisa dar todo o apoio, cuidado e aparato às mulheres.

Isso é ser pró-vida.

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