Resgate da confiança

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O clima conjuntural brasileiro permanece marcado pela paradoxal combinação entre gradativo prosseguimento da recuperação da confiança dos agentes, ligada, fundamentalmente, ao retorno da previsibilidade do ciclo político, com o encerramento do processo de impeachment, e aprofundamento do panorama recessivo que assola o País desde o princípio de 2014.

De fato, uma observação atenta das séries de indicadores antecedentes, relacionados às expectativas dos atores sociais, permite constatar a consolidação da reversão do clima de pessimismo, ainda que de forma moderada, reflexo do reconhecimento coletivo da natureza morosa da tarefa de superação da crise doméstica que abarca apreciáveis elementos de perturbação de caráter político, institucional e econômico.

Assim, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice de confiança do empresário industrial (ICEI) acusou, em setembro de 2016, a quinta ascensão consecutiva, atingindo 53,7 pontos, aproximando-se da média histórica (54,2 pontos), depois de situar-se abaixo de 50 pontos entre abril de 2014 e julho de 2016. O parâmetro varia entre zero e cem, atestando confiança quando supera 50 pontos.

O índice de confiança do empresário industrial (ICEI) acusou, em setembro de 2016, a quinta ascensão consecutiva

No mesmo sentido, conforme a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a intenção de consumo das famílias alcançou 72,1 pontos (faixa de zero a duzentos, sinalizando otimismo quanto ao desejo de compras quando suplantar 100 pontos), em setembro de 2016, representando a segunda subida seguida.Ainda assim, situa-se em um dos menores patamares da série histórica começada em 2010, quando atingiu 143,4 pontos (dezembro daquele ano) e a gestão Lula contabilizava recordes de popularidade.

Do lado das estatísticas correntes, a manutenção do estado de choque no circuito dos negócios pode ser evidenciada pela persistência de resultados expressivamente negativos da produção industrial, volume de vendas do comércio varejista e faturamento real do setor de serviços, apurados por pesquisas mensais realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com decréscimos em doze meses, até julho de 2016.

Porém, a síntese da dimensão depressiva pode ser notada no índice de atividade econômica do Banco Central, uma espécie de proxy do produto interno bruto (PIB) para o mês de julho de 2016, ocasião em que exprimiu queda de -0,09%, frente a junho, -3,45%, em relação a julho de 2015, -5,53% no ano acumulado do ano de 2016, e -5,61% em doze meses.

Essencialmente, o flagrante descompasso esboçado entre a restauração da confiança e a resistência do lado real do sistema econômico em escapar do abismo recessivo pode ser imputado à conjugação entre abrandamento das incertezas quanto ao equacionamento e morosidade de maturação das medidas de equacionamento da catástrofe econômica, produzida por essas paragens desde fins de 2008, com a destruição dos mecanismos de estabilização e a contínua priorização do consumo (público e privado) em detrimento do investimento.

Mais especificamente, apesar de a orientação da equipe econômica do governo Temer ter conseguido convencer os mercados acerca da inarredável disposição de promoçãodo ajuste fiscal, aspecto imprescindível para a retomada sustentada do crescimento, a execução das complexas tarefas requeridas será lenta, esbarrando em obstáculos políticos nada desprezíveis, erguidos e defendidos por interesses contrários à redução dos gastos públicos e à implantação das reformas estruturais.

A par disso, a teimosia da escalada inflacionária, mesmo que motivada predominantemente por choques de oferta, coloca a evolução do nível geral de preços ainda distante sequer do teto de 6,5% ao ano, da meta de 4,5% a.a., estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), e provoca a preservação de posturas defensivas por parte do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), complacentes com a deterioração das variáveis relacionadas à atividade econômica e ao mercado de trabalho e arredias à diminuição dos juros.

O pior é que a autoridade monetária tem prefeita noção de que enquanto os juros Selic não caírem, com implicações sobre as taxas de captação e de empréstimos das instituições financeiras, a utilização das margens de ociosidade das empresas, o financiamento do consumo, giro dos negócios e investimentos eficiência e, por extensão, a movimentação da roda e a capacidade de aumento da arrecadação e de resgate da dívida mobiliária do governo ficarão irremediavelmente comprometidos.

Em tais circunstâncias, o organismo econômico nacional multiplica a emissão de sintomas de anemia, característicos de regressão estrutural em vários segmentos, e distancia-se da rota de renovação dos alicerces expansivos. Até porque, não é ocioso lembrar que o desenvolvimento decorre de uma articulação social planejada e maximizada por iniciativas racionais do aparelho de estado.

Gilmar Mendes Lourenço
Economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-Presidente do IPARDES.

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